terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Gurgel: o sonho brasileiro sobre quatro rodas — do auge ao colapso de uma montadora nacional

Por décadas, o Brasil sonhou em ter uma indústria automobilística genuinamente nacional. Esse sonho teve nome, sobrenome e assinatura própria: Gurgel. Criada por um engenheiro visionário, a empresa foi símbolo de ousadia, inovação e orgulho nacional. Também foi exemplo de como o idealismo pode sucumbir diante de um mercado hostil e da falta de apoio estrutural.

O nascimento de um sonho nacional

João Augusto do Amaral Gurgel: o homem por trás da marca

João Gurgel nasceu em 1926, em Franca (SP), e desde cedo demonstrou fascínio por engenharia e mecânica. Formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das escolas mais prestigiadas do país, Gurgel acreditava que o Brasil tinha capacidade técnica e intelectual para produzir seus próprios automóveis — não apenas montar veículos estrangeiros.

Em 1969, surge oficialmente a Gurgel Motores S.A., inicialmente focada em veículos utilitários, robustos e simples, ideais para o terreno brasileiro. Enquanto as grandes montadoras estrangeiras se instalavam no país com incentivos governamentais, a Gurgel tentava trilhar um caminho independente, apostando em soluções próprias.

Inovação genuinamente brasileira

Um dos grandes diferenciais da Gurgel era sua engenharia original. O empresário desenvolveu o sistema Plasteel, uma estrutura de aço revestida com fibra de vidro, que tornava os veículos leves, resistentes à corrosão e baratos de manter. Era uma solução prática, adaptada às estradas precárias do Brasil das décadas de 1970 e 1980.

Modelos como o Xavante, o X-12, o Carajás e o BR-800 tornaram-se ícones. Eles não disputavam luxo ou desempenho com carros importados, mas ofereciam simplicidade, resistência e identidade nacional.

A Gurgel também se destacou por exportar veículos para mais de 30 países, incluindo mercados exigentes como Europa, América Latina e até o Oriente Médio. Era o Brasil mostrando ao mundo que sabia inovar.

O pioneiro carro elétrico: Itaipu

Muito antes da discussão global sobre sustentabilidade, a Gurgel lançou, em 1974, o Itaipu E150, considerado o primeiro carro elétrico produzido na América Latina. Movido a baterias e desenvolvido durante a crise do petróleo, o Itaipu foi uma resposta direta à dependência de combustíveis fósseis.

Embora limitado pela tecnologia da época — autonomia curta e baixa velocidade —, o projeto foi visionário. Décadas depois, quando os carros elétricos se tornariam tendência mundial, o Itaipu seria lembrado como um símbolo de inovação à frente do seu tempo.

Do auge ao colapso: por que a Gurgel acabou

O embate desigual com as multinacionais

Apesar da criatividade e da engenharia nacional, a Gurgel enfrentava um problema estrutural: falta de apoio governamental. Enquanto montadoras estrangeiras recebiam isenções fiscais, subsídios e financiamentos generosos, a Gurgel arcava com impostos elevados e juros altos.

João Gurgel defendia políticas que estimulassem a indústria nacional, mas encontrou resistência. Em diversas ocasiões, denunciou publicamente a desigualdade de tratamento, afirmando que o Brasil “preferia montar carros estrangeiros a desenvolver os seus”.

O BR-800 e o sonho do carro popular

Nos anos 1980, a Gurgel lançou seu projeto mais ambicioso: o BR-800, um carro compacto, econômico e pensado para ser o “carro do povo brasileiro”. Para viabilizá-lo, criou um modelo inovador de financiamento: quem comprasse ações da empresa tinha prioridade na compra do veículo.

O projeto, porém, sofreu com limitações técnicas, críticas da imprensa, problemas de escala e, mais uma vez, com a ausência de incentivos fiscais semelhantes aos concedidos a concorrentes maiores. Quando o governo lançou programas de estímulo ao carro popular, a Gurgel ficou de fora.

O colapso financeiro

Sem capital para competir em preço e volume, a empresa começou a acumular dívidas. A abertura do mercado aos importados, no início dos anos 1990, foi o golpe final. Carros estrangeiros, mais modernos e baratos, invadiram o país, tornando a sobrevivência da Gurgel praticamente impossível.

Em 1994, a empresa decretou falência. João Gurgel faleceu dois anos depois, em 1996, sem ver seu sonho reconhecido como merecia.

O legado da Gurgel

Hoje, a Gurgel é lembrada com respeito e nostalgia. Tornou-se símbolo de um Brasil que ousou pensar grande, mesmo sem as ferramentas adequadas. Seus carros são itens de colecionador, e sua história é frequentemente citada como exemplo de inovação sufocada por políticas econômicas desfavoráveis.

Mais do que uma montadora, a Gurgel representou uma ideia: a de que o Brasil pode criar, inovar e liderar. Seu fracasso não foi apenas empresarial, mas também institucional.

Em tempos de retomada do debate sobre indústria nacional, sustentabilidade e carros elétricos, a história da Gurgel soa atual — e necessária. Um lembrete de que visionários precisam de mais do que talento: precisam de um ecossistema que permita seus sonhos saírem do papel e permanecerem de pé.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Banco Nacional no Parque da Mônica: quando brincar era coisa séria

Uma agência de brincadeira que ensinou educação financeira, cidadania e o valor do trabalho a milhares de crianças brasileiras.


Um banco de verdade em um mundo de fantasia

Durante os anos 1980 e 1990, o Parque da Mônica, instalado no Shopping Eldorado, em São Paulo, foi muito mais do que um espaço de diversão. Entre montanhas-russas, personagens icônicos de Maurício de Sousa e cenários coloridos, havia uma atração curiosa e surpreendente: uma agência do Banco Nacional feita especialmente para crianças.

Não se tratava apenas de um cenário decorativo. A proposta era ousada para a época: oferecer aos pequenos visitantes a experiência de viver, ainda que por alguns minutos, o cotidiano de um adulto. Entrar em um banco, abrir conta, receber salário simbólico, aprender a poupar e entender como o dinheiro circula na sociedade.

A agência reproduzia com fidelidade uma unidade bancária real. Havia balcões de atendimento, caixas, formulários, carimbos, talões fictícios e até uniformes para os “funcionários mirins”. Tudo era adaptado à linguagem infantil, mas sem perder o compromisso educativo.

Educação financeira antes do termo existir

Muito antes de o conceito de educação financeira infantil ganhar espaço nas escolas e nos debates públicos, o Banco Nacional já colocava o tema em prática de forma lúdica. As crianças recebiam uma quantia simbólica de dinheiro do parque e aprendiam a administrar aquele valor: podiam guardar, gastar em outras atrações ou trocar por brindes.

O aprendizado vinha de forma natural. Ao brincar de banco, a criança assimilava noções básicas como planejamento, responsabilidade, escolha e consequência. Era um contato inicial com o universo financeiro, sem números complexos ou pressões, mas com significado real.

Para os pais, a atração também tinha um valor simbólico importante: mostrava que brincar podia ir além do entretenimento puro, ajudando na formação de cidadãos mais conscientes desde cedo.

Uma estratégia de marca visionária

Para o Banco Nacional, a iniciativa era uma ação de marketing institucional sofisticada e pioneira. Ao se associar a um dos parques infantis mais famosos do país, o banco se aproximava das famílias de forma afetiva, criando uma memória positiva que atravessaria gerações.

A marca deixava de ser apenas um nome visto em comerciais de televisão ou fachadas de agências e passava a fazer parte do imaginário infantil. Muitas crianças que brincaram naquela agência cresceram com a lembrança do banco ligada à diversão, à descoberta e ao aprendizado.

Era uma época em que experiências de marca imersivas ainda eram raras. O Banco Nacional entendeu, antes de muitos, que criar vínculo emocional podia ser tão poderoso quanto qualquer campanha publicitária tradicional.

O fim do banco, a permanência da lembrança

Com a crise financeira dos anos 1990 e a posterior liquidação do Banco Nacional, a agência infantil deixou de existir. O próprio Parque da Mônica, anos depois, também encerraria suas atividades no Shopping Eldorado, tornando aquela experiência ainda mais nostálgica.

Hoje, a lembrança da agência do Banco Nacional no Parque da Mônica sobrevive na memória afetiva de quem viveu aquela fase. É um exemplo de como marcas, quando bem pensadas, conseguem ultrapassar sua função econômica e ocupar um espaço cultural e emocional.

Mais do que uma brincadeira, aquela pequena agência foi uma aula silenciosa sobre o mundo adulto — e uma prova de que ensinar pode ser, sim, um ato divertido.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Itaipu: a “maior fábrica de gelo do mundo”

O truque engenhoso que manteve de pé uma das maiores obras da história

Durante a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma curiosidade técnica chamou atenção até mesmo de engenheiros experientes: o canteiro de obras era conhecido como “a maior fábrica de gelo do mundo”. O apelido não era exagero nem brincadeira. Toneladas de gelo triturado eram diariamente misturadas ao concreto — um detalhe essencial para que a maior hidrelétrica do planeta pudesse existir.

A estratégia parecia improvável para uma obra localizada em uma região de clima quente, na fronteira entre Brasil e Paraguai, mas foi justamente esse método que permitiu controlar uma das maiores ameaças ao projeto: o calor gerado pelo concreto em grandes volumes.

O desafio invisível do concreto

Ao contrário do que parece, o concreto não é um material “frio”. Durante o processo de cura, ocorre uma reação química chamada hidratação do cimento, que libera grandes quantidades de calor. Em pequenas obras, isso não representa um problema. Em Itaipu, porém, a escala era colossal.

A barragem exigiu cerca de 12,3 milhões de metros cúbicos de concreto — volume suficiente para construir dezenas de cidades médias. Se esse concreto fosse despejado de uma só vez ou em grandes blocos sem controle térmico, o calor interno gerado provocaria rachaduras, tensões estruturais e perda de resistência, comprometendo a segurança da barragem.

O risco era tão grande que, sem uma solução eficaz de resfriamento, a estrutura poderia levar mais de um século para esfriar naturalmente.

Gelo no lugar da água

A solução encontrada foi tão simples quanto engenhosa: substituir parte da água usada no preparo do concreto por gelo triturado. Ao derreter, o gelo absorvia o calor da reação química, reduzindo drasticamente a temperatura do material ainda fresco.
Para viabilizar a técnica, Itaipu montou uma estrutura industrial inédita, capaz de produzir dezenas de toneladas de gelo por hora. O gelo era fabricado, triturado e imediatamente levado às centrais de concreto, onde era misturado aos demais componentes antes do lançamento.

O apelido “maior fábrica de gelo do mundo” surgiu naturalmente entre os operários e engenheiros que presenciavam caminhões carregados de gelo circulando em plena região tropical.

Concreto em camadas e resfriamento contínuo

O uso do gelo era apenas parte de um sistema ainda mais sofisticado. O concreto de Itaipu foi aplicado em blocos sucessivos, chamados de liftings, com alturas cuidadosamente calculadas. Após o lançamento, tubos internos de resfriamento conduziam água fria por dentro do concreto, acelerando a dissipação do calor.

Essa combinação — gelo no preparo e resfriamento interno posterior — permitiu manter a temperatura dentro de limites seguros, evitando fissuras e garantindo a durabilidade da estrutura.

Cada etapa era monitorada por sensores térmicos, em um nível de controle considerado revolucionário para a engenharia civil da época.

Uma obra além do seu tempo

Iniciada em 1975 e concluída em 1984, a construção de Itaipu mobilizou cerca de 40 mil trabalhadores no auge das obras. O projeto envolveu soluções inéditas, equipamentos desenvolvidos exclusivamente para a usina e decisões técnicas que se tornaram referência mundial.

O uso de gelo em larga escala passou a ser estudado e replicado em outras grandes barragens e estruturas de concreto maciço ao redor do mundo, consolidando Itaipu como um verdadeiro laboratório de inovação em engenharia.

O frio que sustenta a força das águas

Hoje, décadas depois de sua inauguração, Itaipu segue como uma das maiores produtoras de energia hidrelétrica do planeta — silenciosa, imponente e estável. Poucos visitantes imaginam que, por trás de milhões de toneladas de concreto, há uma história feita de gelo, cálculo e precisão.

A chamada “maior fábrica de gelo do mundo” talvez nunca tenha produzido um único cubo para refrescar bebidas. Mas foi esse gelo invisível que garantiu a solidez de uma obra monumental, provando que, na engenharia, até o frio pode ser sinônimo de potência.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Morre Scott Adams, criador de Dilbert, aos 68 anos

O cartunista que transformou o mundo corporativo em humor ácido deixa legado marcante — e controverso

O cartunista norte-americano Scott Adams, criador da icônica tirinha Dilbert, morreu aos 68 anos, em janeiro de 2026, nos Estados Unidos. A morte ocorreu após uma longa batalha contra um câncer de próstata em estágio avançado, diagnóstico que ele próprio havia tornado público meses antes. A notícia encerra a trajetória de um dos autores mais influentes — e também mais debatidos — da história recente dos quadrinhos.

Adams ficou mundialmente conhecido por retratar, com ironia cirúrgica, o cotidiano das grandes empresas, a burocracia sem sentido, os chefes despreparados e a alienação dos funcionários presos a cubículos. Seu humor, aparentemente simples, tocou em nervos sensíveis de uma geração inteira que se reconheceu nas situações absurdas do ambiente corporativo moderno.

Do escritório real ao cubículo fictício

Nascido em 8 de junho de 1957, em Windham, no estado de Nova York, Scott Adams viveu por anos aquilo que mais tarde transformaria em sátira. Formado em economia e com MBA, trabalhou em empresas do setor bancário e de tecnologia antes de apostar na carreira artística.

Em 1989, surgiu Dilbert. A tira começou de forma modesta, mas rapidamente ganhou espaço em jornais norte-americanos. O sucesso foi explosivo nos anos 1990, quando o crescimento das grandes corporações e da cultura dos escritórios criou o terreno perfeito para o humor de Adams florescer.

No auge, Dilbert era publicada em mais de 2 mil jornais, em dezenas de países, tornando-se uma das tirinhas mais populares do planeta. Personagens como o engenheiro socialmente deslocado Dilbert, o sarcástico cão Dogbert e o infame “chefe de cabelo pontudo” entraram para o imaginário coletivo.

Humor inteligente, crítica afiada

O diferencial de Dilbert estava na combinação entre humor visual simples e crítica sofisticada. Adams expunha decisões corporativas ilógicas, reuniões improdutivas, jargões vazios e gestores incompetentes com uma precisão que beirava o desconforto.

A tirinha virou leitura obrigatória em escritórios, salas de descanso e até em escolas de administração. O sucesso levou Adams a publicar livros best-sellers, como “The Dilbert Principle”, no qual defendia que empresas tendem a promover pessoas incompetentes para cargos de gestão, afastando-as do trabalho produtivo.

Mais do que entretenimento, Dilbert virou um espelho do mundo corporativo — e, para muitos, um manual informal de sobrevivência profissional.

Polêmicas e ruptura com a grande imprensa

Se a primeira metade da carreira foi marcada pelo sucesso quase unânime, os anos finais trouxeram um cenário bem diferente. A partir da década de 2010, Scott Adams passou a se posicionar com frequência sobre política e temas sociais em redes sociais e transmissões ao vivo.

Em 2023, comentários considerados racistas durante uma live provocaram forte reação pública. Como consequência, grandes jornais dos Estados Unidos e da Europa romperam contratos e deixaram de publicar Dilbert, encerrando décadas de presença contínua da tira na mídia tradicional.

Adams passou então a distribuir seu conteúdo de forma independente, em plataformas digitais, mantendo uma base fiel de seguidores — ao mesmo tempo em que se tornava figura recorrente em debates sobre liberdade de expressão, cancelamento e polarização cultural.

A luta contra o câncer e a despedida

Em 2025, o cartunista revelou estar enfrentando um câncer agressivo, já em metástase. Nos meses seguintes, falou abertamente sobre a progressão da doença, limitações físicas e reflexões sobre a vida, a morte e o legado.

A morte ocorreu em sua casa, de forma tranquila, segundo familiares. Em uma mensagem deixada pouco antes de partir, Adams afirmou ter tido “uma vida extraordinária”, agradecendo aos leitores que acompanharam seu trabalho ao longo de décadas.

Um legado que permanece

Scott Adams deixa uma obra impossível de ser ignorada. Para além das controvérsias, Dilbert segue como uma das mais bem-sucedidas sátiras já criadas sobre o mundo do trabalho. Seu humor influenciou gerações de cartunistas, roteiristas e comediantes, além de moldar a forma como milhões de pessoas passaram a enxergar o universo corporativo.

Amado por uns, criticado por outros, Adams foi um retratista implacável das contradições humanas dentro das empresas — e, nos últimos anos, também fora delas. Sua morte marca o fim de uma era, mas suas tiras continuam atuais, circulando em livros, arquivos digitais e na memória coletiva de quem já sobreviveu a uma reunião inútil.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Ignorado no primeiro pódio

O dia em que Ayrton Senna subiu ao pódio sem aplausos — e começou a construir a própria lenda

Quando Ayrton Senna subiu ao pódio pela primeira vez na Fórmula 1, em 1984, não houve festa, nem comoção, nem sequer a reverência que normalmente acompanha a chegada de um novo talento. O jovem brasileiro, então com apenas 24 anos, parecia quase invisível em meio aos holofotes direcionados a nomes já consagrados. Era o início de uma trajetória que provaria, de forma contundente, que nem todo gênio é reconhecido de imediato.

O episódio ocorreu no Grande Prêmio da Inglaterra, em Brands Hatch. Pilotando uma modesta Toleman, equipe pequena e sem tradição na categoria, Senna conquistou um terceiro lugar improvável. Para qualquer estreante, o resultado seria motivo de celebração coletiva. Mas, naquele dia, o pódio foi frio. A imprensa se concentrou nos vencedores, os aplausos foram tímidos e o brasileiro parecia apenas mais um figurante na fotografia oficial.

Um talento fora do roteiro

A Fórmula 1 sempre teve seus favoritos. Pilotos oriundos de equipes grandes, respaldados por títulos, patrocínios e tradição, costumam monopolizar a atenção. Ayrton Senna não se encaixava nesse roteiro. Vinha do kart, tinha fama de obsessivo, falava pouco e corria por uma equipe considerada de “meio de grid”. Seu pódio soava, para muitos, como um acidente estatístico — não como o prenúncio de algo grandioso.

Enquanto Nelson Piquet, Alain Prost e Niki Lauda dominavam manchetes, Senna era visto com desconfiança. O terceiro lugar em Brands Hatch não rendeu elogios efusivos nem manchetes de impacto. O jovem brasileiro recebeu o troféu com discrição, consciente de que aquele momento, embora histórico para ele, não mudaria instantaneamente sua posição no esporte.

A solidão do começo

A falta de reconhecimento não abalou Senna. Pelo contrário. Ele entendia que o respeito na Fórmula 1 não se pedia — se conquistava. Em entrevistas posteriores, o piloto deixaria claro que nunca correu para agradar aplausos, mas para vencer. A frieza daquele primeiro pódio serviu como combustível para sua determinação quase implacável.

Dentro do cockpit, Senna já demonstrava algo raro: uma combinação de talento bruto, coragem extrema e um nível de concentração que impressionava engenheiros e rivais. Fora dele, permanecia reservado, quase introspectivo, como quem sabia que o tempo se encarregaria de falar por si.

O reconhecimento que viria

Meses depois, no mesmo ano, Ayrton Senna protagonizaria uma das atuações mais icônicas da história da Fórmula 1, sob chuva torrencial em Mônaco. Mesmo com a corrida interrompida, sua performance mudou definitivamente a percepção sobre seu talento. Aquele piloto ignorado no primeiro pódio já não podia mais ser tratado como coadjuvante.

O aplauso que faltou no início viria em forma de vitórias, poles memoráveis e três títulos mundiais. Senna transformou o silêncio inicial em uma das carreiras mais admiradas do automobilismo, provando que o reconhecimento verdadeiro não nasce do barulho imediato, mas da consistência e da excelência.

Nem todos aplaudem o começo

A história do primeiro pódio de Ayrton Senna é um lembrete poderoso: nem sempre o talento é celebrado quando surge. Muitas vezes, ele é ignorado, subestimado ou tratado com indiferença. O que define os grandes não é a reação inicial do mundo, mas a capacidade de seguir em frente apesar dela.

Naquele pódio quase esquecido de 1984, o público não percebeu, mas estava diante de um futuro tricampeão mundial. Nem todos aplaudem no início — e Senna nunca precisou desses aplausos para se tornar eterno.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O pedido que atravessou o Planalto

Em 1983, uma carta de uma jovem adolescente expôs o drama social do Brasil e chegou às mãos do presidente João Figueiredo

Em meio aos corredores austeros do Palácio do Planalto, em Brasília, uma correspondência destoava do tom burocrático que costumava circular entre ministros e assessores. Escrita à mão, com grafia simples e palavras carregadas de urgência, a carta trazia o apelo de uma jovem adolescente brasileira. Era 1983, um dos anos mais duros do fim da ditadura militar, marcado por crise econômica, desemprego crescente e uma inflação que corroía salários e esperanças. A menina, desesperada, pedia ajuda diretamente ao presidente da República, João Baptista Figueiredo.

O gesto, ao mesmo tempo ingênuo e corajoso, sintetizava o sentimento de abandono vivido por milhões de brasileiros naquele período. Sem acesso a canais institucionais eficazes, a adolescente acreditou que apenas o homem no comando do país poderia socorrê-la — e à sua família — da situação extrema em que se encontravam.

Um país à beira do esgotamento

O Brasil de 1983 enfrentava uma tempestade perfeita. A crise da dívida externa, os reflexos dos choques do petróleo e anos de crescimento sustentado por endividamento levaram o país a um cenário de recessão. A inflação ultrapassava os três dígitos ao ano, o desemprego avançava e a desigualdade social tornava-se ainda mais visível. Para as famílias mais pobres, a luta era diária: faltava comida, faltavam remédios, faltava perspectiva.

Foi nesse contexto que a carta ganhou significado simbólico. A adolescente relatava dificuldades básicas — a fome em casa, a falta de trabalho para os pais, o medo constante do amanhã. Não havia termos políticos elaborados nem discursos ideológicos. Havia, sobretudo, um pedido humano: “nos ajude”.

O impacto no Planalto

Segundo relatos da época, a correspondência chegou a ser comentada nos bastidores do governo. João Figueiredo, último presidente do ciclo militar, era conhecido por um temperamento duro, mas também por gestos pontuais de sensibilidade diante de dramas individuais. Ainda que o regime estivesse em seus estertores, pressionado por greves, pela campanha das Diretas Já e por uma sociedade civil cada vez mais mobilizada, episódios como esse evidenciavam a distância entre o poder e a realidade das ruas.

Não se sabe ao certo até que ponto o pedido da jovem resultou em ajuda concreta ou se foi diluído na engrenagem estatal. O que ficou foi o registro de uma atitude que comoveu parte da opinião pública quando veio à tona: uma adolescente que, sem outra alternativa, decidiu falar diretamente com o presidente.

Um retrato da época

Mais do que uma história individual, o episódio tornou-se um retrato do Brasil naquele momento de transição. A carta simbolizava um país que começava a perder o medo de se expressar, mesmo ainda sob um regime autoritário. Ao escrever ao presidente, a jovem exercia, à sua maneira, um ato de cidadania — ainda que movido pelo desespero.

O ano seguinte, 1984, seria marcado por manifestações históricas em todo o país, com milhões de brasileiros indo às ruas exigir eleições diretas. A voz daquela adolescente, solitária em sua carta, antecipava o coro coletivo que logo se formaria.

A força de uma voz simples

Quatro décadas depois, a história segue lembrada como um exemplo poderoso de como a realidade social brasileira sempre encontrou maneiras de se fazer ouvir. Em poucas linhas, escritas por uma jovem sem poder político algum, estavam condensadas as falhas estruturais de um país desigual e em crise.

A carta enviada a João Figueiredo em 1983 não mudou, sozinha, o rumo da história. Mas permanece como um símbolo incômodo e necessário: o de que, mesmo nos gabinetes mais fechados do poder, às vezes ecoa o grito mais puro da sociedade — o de quem só quer sobreviver.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os carros que fizeram parte da garagem de Ayrton Senna

Muito além das pistas, o tricampeão mundial cultivou uma relação intensa com carros de rua — escolhidos não apenas pela performance, mas pela engenharia, inovação e prazer ao volante.

Paixão por engenharia e precisão

Ayrton Senna da Silva é lembrado como um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, mas sua paixão por automóveis não terminava quando o capacete era guardado. Fora das pistas, Senna mantinha uma garagem que refletia sua personalidade: exigente, técnica e avessa a excessos. Diferentemente de outros astros do automobilismo, ele não colecionava carros por ostentação, mas por admiração à engenharia e ao comportamento dinâmico.

Entre os modelos que marcaram sua vida, a Honda NSX ocupa lugar central. Desenvolvido no fim dos anos 1980, o superesportivo japonês contou com a participação direta de Senna em sua fase final de ajustes. Insatisfeito com a rigidez do chassi, ele solicitou modificações após testar o carro em Suzuka. O resultado foi um veículo mais equilibrado, que redefiniu o conceito de supercarros ao unir desempenho extremo e confiabilidade. Senna teve ao menos duas unidades do NSX, uma delas na clássica cor vermelha.

Outro carro fortemente associado ao piloto é o Honda Prelude. Discreto, confortável e tecnológico para a época, o modelo era usado por Senna em deslocamentos cotidianos no Brasil. O Prelude representava bem o lado racional do tricampeão: um carro eficiente, confiável e sem exageros, mas com bom desempenho e dirigibilidade refinada.

Ainda no universo Honda, Senna também teve exemplares do Honda Accord, especialmente durante sua permanência na Europa. Eram veículos funcionais, alinhados à imagem de um piloto que valorizava mecânica, durabilidade e eficiência acima do luxo ostensivo.
Apesar da forte ligação com a Honda, Senna também teve carros de outras marcas icônicas. Entre eles, um Mercedes-Benz 190E 2.3-16, esportivo alemão desenvolvido com participação da Cosworth. O modelo era conhecido pelo equilíbrio entre conforto e performance, características que agradavam profundamente ao piloto brasileiro.

Superesportivos, elegância e escolhas pessoais

Na fase em que defendia a McLaren, Ayrton Senna teve contato direto com alguns dos mais desejados carros do mundo, e isso se refletiu em sua garagem. Um dos mais emblemáticos foi o McLaren MP4/6 adaptado para testes, embora não fosse um carro de rua convencional. Ainda assim, reforça o quanto Senna estava sempre envolvido tecnicamente com máquinas de alta performance.

No universo dos esportivos de rua, Senna também teve um Porsche 911, símbolo máximo da engenharia alemã. O modelo era admirado pelo piloto pela precisão mecânica e pelo comportamento exigente, que “punia erros”, algo que Senna respeitava e valorizava como instrumento de aprendizado constante.

Outro nome frequentemente citado é o Ferrari 348 TB, que teria passado por sua garagem no início dos anos 1990. Apesar de nunca ter mantido uma relação próxima com a marca italiana, Senna admirava o DNA esportivo da Ferrari e não escondia sua curiosidade por modelos que representavam o ápice da performance automotiva da época.

Já no Brasil, além dos Honda, Senna também teve carros mais discretos, usados em sua rotina longe dos autódromos. Ele evitava chamar atenção e, sempre que possível, optava por veículos confortáveis e seguros. A escolha dos carros refletia seu estilo de vida reservado, focado no treinamento físico, na fé e na preparação mental.

A garagem de Ayrton Senna, assim como sua carreira, nunca foi guiada por vaidade. Cada carro representava uma extensão de sua busca pela perfeição técnica. Não se tratava de colecionismo, mas de conexão: máquinas que respondiam com precisão ao comando do motorista, exigindo respeito, concentração e sensibilidade.
Trinta anos após sua morte, os carros que fizeram parte da vida de Senna ajudam a compreender o homem por trás do mito. Um piloto que não se impressionava apenas pela velocidade, mas pela harmonia entre homem e máquina — dentro ou fora das pistas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Há 3 anos, morria Lisa Marie Presley, a única filha de Elvis, aos 54 anos

Por três décadas, ela carregou um sobrenome maior do que a própria vida. Herdou fortuna, talento, tragédias e um legado que nunca lhe permitiu ser apenas “Lisa”. Três anos após sua morte, sua história segue marcada por perdas profundas, música, resiliência e pela eterna sombra do Rei do Rock.

Nascida no centro do mito

Lisa Marie Presley nasceu em 1º de fevereiro de 1968, em Memphis, Tennessee, exatamente nove meses após o casamento de Elvis Presley e Priscilla Beaulieu. Desde o berço, sua vida foi atravessada pela fama. Filha única do maior ícone da música do século XX, Lisa cresceu entre Graceland, flashes, jornalistas e um mundo que parecia girar em torno do nome Presley.

A infância, porém, foi tudo menos comum. Quando tinha apenas 9 anos, Lisa Marie perdeu o pai, morto em 16 de agosto de 1977. A imagem da menina vestida de preto, ao lado do caixão de Elvis, correu o mundo e se transformou em um dos registros mais emblemáticos da cultura pop. A partir dali, sua vida passou a ser definida por uma ausência impossível de preencher.

Com a morte do pai, Lisa tornou-se a única herdeira de um império avaliado em centenas de milhões de dólares. Ao completar 25 anos, assumiu oficialmente o controle da herança de Elvis, incluindo Graceland, que se tornaria um dos pontos turísticos mais visitados dos Estados Unidos. Mas o dinheiro e o legado vinham acompanhados de pressão, cobranças e expectativas irreais.

Ao longo da juventude, Lisa Marie enfrentou problemas com drogas e álcool, algo que ela própria jamais escondeu. Em entrevistas, falava abertamente sobre os períodos de dependência e as longas batalhas para se manter sóbria. “Eu estava tentando anestesiar a dor”, confessou certa vez, numa referência direta às perdas e à sensação constante de não pertencimento.

Apesar do sobrenome, Lisa nunca quis ser apenas “a filha de Elvis”. Nos anos 2000, decidiu investir seriamente na música, lançando três álbuns autorais. O primeiro, To Whom It May Concern (2003), alcançou boas posições nas paradas e revelou uma artista de voz grave, letras confessionais e forte influência do rock alternativo e do country. Suas canções falavam de abandono, identidade e sobrevivência — temas que refletiam sua própria trajetória.

Amores, perdas e um fim precoce

A vida pessoal de Lisa Marie Presley sempre foi acompanhada de perto pela imprensa. Seus relacionamentos amorosos tornaram-se manchetes globais, especialmente o casamento com Michael Jackson, em 1994. A união, cercada de desconfiança e especulação, durou menos de dois anos, mas até hoje é lembrada como um dos episódios mais curiosos da história da cultura pop. Lisa sempre defendeu a autenticidade do relacionamento, afirmando que havia amor, mas também pressões insustentáveis.

Ela também foi casada com o ator Nicolas Cage e com o guitarrista Danny Keough, pai de dois de seus filhos, Riley e Benjamin. Mais tarde, teve as gêmeas Harper e Finley, fruto do casamento com o produtor Michael Lockwood. A maternidade foi, segundo amigos próximos, uma das poucas âncoras emocionais que Lisa conseguiu manter ao longo da vida.

A maior tragédia, no entanto, viria em 2020, quando seu filho Benjamin Keough morreu por suicídio, aos 27 anos. A perda devastou Lisa Marie de maneira irreversível. Em um raro texto publicado posteriormente, ela descreveu o luto como “uma dor que nunca passa” e admitiu que sobreviver após a morte do filho exigia uma força quase impossível.

Três anos depois, em 12 de janeiro de 2023, Lisa Marie Presley morreu subitamente, aos 54 anos, após sofrer uma parada cardíaca em sua casa, na Califórnia. Sua morte chocou o mundo e ocorreu poucos dias após sua última aparição pública, durante o Globo de Ouro, onde acompanhou a mãe, Priscilla Presley, na divulgação do filme Elvis.

Lisa foi enterrada em Graceland, ao lado do pai, do filho Benjamin e de outros membros da família. O descanso final no mesmo solo onde Elvis viveu e construiu seu mito simbolizou, para muitos, o encerramento de um ciclo marcado por fama, dor e herança emocional pesada.

Três anos após sua morte, Lisa Marie Presley é lembrada não apenas como a filha do Rei do Rock, mas como uma mulher que tentou, à sua maneira, existir além do sobrenome. Sua vida foi uma sucessão de batalhas silenciosas, travadas longe dos palcos grandiosos do pai, mas igualmente intensas.

Entre músicas, perdas e tentativas de recomeço, Lisa deixou um legado humano: o retrato de alguém que nasceu dentro de um mito, mas lutou a vida inteira para ser apenas real.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Jiro Ono: o sushi mais exclusivo do mundo nasce num “buraco” do metrô de Tóquio

Como um restaurante minúsculo, escondido no subsolo de Ginza, conquistou três estrelas Michelin, virou lenda mundial — e transformou uma simples reserva em privilégio quase inalcançável

Um templo subterrâneo da perfeição

Em meio ao luxo e à agitação de Ginza, bairro nobre de Tóquio, existe um restaurante tão discreto que passa despercebido até pelos mais atentos. Localizado no subsolo de um edifício comercial, próximo a estações de metrô, o Sukiyabashi Jiro não tem fachada chamativa, cardápio ilustrado ou salão amplo. São apenas 10 lugares no balcão, iluminação simples e silêncio quase cerimonial.
Ainda assim, esse pequeno espaço se tornou um dos endereços gastronômicos mais famosos do planeta. Ali, o mestre Jiro Ono construiu uma reputação que atravessou fronteiras e redefiniu o conceito de excelência na culinária japonesa.

O primeiro sushi a alcançar o topo do mundo

Fundado em 1965, o Sukiyabashi Jiro entrou para a história em 2007, quando se tornou o primeiro restaurante de sushi do mundo a receber três estrelas Michelin, a mais alta honraria concedida pelo guia francês.

Mais do que um prêmio, o reconhecimento simbolizou uma virada cultural: pela primeira vez, o sushi — até então visto por muitos no Ocidente como comida informal — era elevado ao patamar máximo da alta gastronomia internacional.
As estrelas permaneceram por mais de uma década, consolidando o restaurante como referência absoluta em técnica, consistência e pureza de sabores.

A obsessão como método

O sucesso do Jiro não está ligado à inovação ou à extravagância, mas à obsessão pela perfeição. Jiro Ono, que começou a trabalhar ainda criança, dedicou mais de 70 anos ao mesmo ofício, repetindo gestos, ajustando detalhes invisíveis ao olhar comum e buscando incansavelmente o sushi ideal.

No balcão, cada peça é moldada à mão, com pressão exata, temperatura precisa e tempo rigorosamente calculado. O arroz é tratado com a mesma importância do peixe. Nada é improvisado. Nada é excessivo.

Não há escolhas para o cliente: a experiência é omakase, termo japonês que significa “deixar nas mãos do chef”. O menu se desenrola como uma narrativa silenciosa, pensada para ser consumida em sequência e no tempo certo.

O documentário que criou um mito

A fama mundial explodiu em 2011 com o documentário “Jiro Dreams of Sushi”, que apresentou ao público global a rotina austera do chef, sua relação rígida com os filhos e aprendizes e sua filosofia quase espiritual sobre trabalho e disciplina.

O filme transformou Jiro Ono em um ícone cultural. Desde então, o restaurante passou a figurar na lista de desejos de chefs renomados, críticos gastronômicos e celebridades — incluindo chefes de Estado e líderes mundiais.

Por que o restaurante saiu do Guia Michelin

Em 2019, o Sukiyabashi Jiro deixou de aparecer no Guia Michelin. A notícia gerou confusão, mas a explicação foi clara: o restaurante não perdeu qualidade nem “estrelas”, apenas deixou de aceitar reservas do público em geral, o que o retirou dos critérios de avaliação do guia.

Hoje, as reservas são feitas quase exclusivamente por concierges de hotéis de luxo ou por clientes antigos, mantendo o caráter extremamente restrito da experiência.

O desafio de conseguir uma reserva

Conseguir um lugar no balcão do Jiro tornou-se um verdadeiro ritual de paciência e conexões. Os motivos são claros:

Pouquíssimos assentos: apenas 10 lugares por turno

  • Alta demanda internacional: impulsionada pela fama e pelo cinema

  • Política de exclusividade: reservas indiretas e altamente controladas

  • Experiência personalizada: o restaurante não trabalha com volume, mas com precisão

  • O preço acompanha a raridade: o menu omakase está entre os mais caros do Japão, refletindo não apenas os ingredientes, mas décadas de conhecimento acumulado.

Muito além da comida

Comer no Sukiyabashi Jiro não é apenas uma refeição — é uma aula silenciosa sobre tempo, disciplina e respeito ao ofício. Não há música ambiente, conversas altas ou distrações. O foco absoluto está no gesto do chef e na peça de sushi à sua frente.

Para alguns, é uma experiência transformadora. Para outros, excessivamente rigorosa. Mas ninguém sai indiferente.

Exclusividade como legado

O “buraco do metrô” de Tóquio tornou-se símbolo de algo raro no mundo moderno: a ideia de que a excelência não precisa ser grande, visível ou acessível a todos. No Sukiyabashi Jiro, a exclusividade não é estratégia de marketing — é consequência direta de uma vida dedicada à perfeição.

E talvez seja exatamente isso que torna o restaurante tão desejado: não apenas o sushi impecável, mas a sensação de testemunhar, ainda que por alguns minutos, a obra de um mestre absoluto.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Morre Manoel Carlos, o cronista da alma feminina brasileira

Autor das eternas Helenas, ele transformou o cotidiano em emoção e deixou um legado que atravessa gerações

A televisão brasileira se despede de um de seus maiores contadores de histórias. Manoel Carlos, autor que fez da telenovela um espelho sensível da vida cotidiana, morreu aos 92 anos, deixando uma obra marcada pela delicadeza, pela observação humana e, sobretudo, pela centralidade da mulher em suas narrativas.

Conhecido como Maneco, ele foi muito mais do que um novelista de sucesso. Foi um cronista das relações humanas, alguém que preferia o silêncio das salas de estar aos grandes vilões caricatos, e que encontrou nas emoções simples — um olhar, uma conversa interrompida, uma escolha difícil — o coração do drama.

Desde os anos 1970, Manoel Carlos construiu uma carreira sólida na televisão brasileira, especialmente na TV Globo, onde consolidou seu estilo autoral: tramas urbanas, diálogos realistas e personagens que pareciam existir fora da tela. Em meio a esse universo, um nome se repetia como assinatura e símbolo: Helena.

Mais do que um nome próprio, Helena tornou-se um arquétipo da mulher contemporânea. Em diferentes fases da vida, idades e contextos sociais, ela sempre representava alguém em conflito consigo mesma, com a família, com o amor e com o tempo. Era mãe, amante, filha, profissional — e, acima de tudo, humana.

Manoel Carlos costumava dizer que escrevia sobre o que conhecia. E conhecia profundamente as mulheres, não como idealizações, mas como protagonistas reais da vida. Por isso, suas histórias emocionaram o público e atravessaram décadas mantendo relevância, empatia e identificação.

As mulheres que Manoel Carlos eternizou

Ao longo da carreira, diferentes atrizes deram rosto, voz e alma às Helenas de Manoel Carlos. Cada uma delas refletiu o espírito de sua época — e ajudou a construir um dos maiores legados femininos da teledramaturgia brasileira.

Lílian Lemmertz, em Baila Comigo, foi uma das primeiras Helenas, inaugurando a mulher sensível e moderna que viria a se tornar marca do autor.

Nos anos 1990 e 2000, Regina Duarte consolidou o arquétipo ao interpretar Helena em História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida. Suas personagens discutiam maternidade, sacrifício, escolhas morais e os limites do amor, sempre com grande repercussão popular.

Em Laços de Família, Vera Fischer viveu uma Helena madura, atravessada por conflitos amorosos intensos, em uma novela que marcou época por suas viradas emocionais e temas delicados.

Já Christiane Torloni, em Mulheres Apaixonadas, protagonizou uma das Helenas mais emblemáticas da televisão, em uma trama que abordou violência doméstica, preconceito, alcoolismo, envelhecimento e relações familiares com profundidade inédita para o horário nobre.

Em 2009, Manoel Carlos promoveu um marco histórico ao escalar Taís Araújo como Helena em Viver a Vida. Foi a primeira vez que uma mulher negra ocupou esse lugar simbólico em sua obra, ampliando o significado e a representatividade do personagem.

Sua última Helena foi interpretada por Julia Lemmertz, em Em Família, encerrando o ciclo de forma intimista, refletindo sobre o tempo, a memória e os vínculos afetivos.

Um legado que permanece

Manoel Carlos não escreveu apenas novelas. Escreveu sobre sentimentos. Em um país de contrastes e transformações, ele deu voz às dúvidas, dores e alegrias que atravessam gerações. Suas Helenas ensinaram que a força feminina não está na perfeição, mas na coragem de sentir, errar e seguir em frente.

Com sua morte, a televisão brasileira perde um autor. Mas o público ganha a certeza de que suas histórias continuarão vivas — nas reprises, nas lembranças e, principalmente, nas mulheres que se reconheceram em suas personagens.

Porque Manoel Carlos partiu, mas suas Helenas seguem existindo. Em cada casa, em cada história de amor, em cada silêncio carregado de emoção.