terça-feira, 9 de dezembro de 2025

RENÉ HIGUITA – O GOLEIRO QUE OBRIGOU A FIFA A MUDAR AS REGRAS

O Mito, o Estilo e a Revolução Invisível

Quando se fala em goleiros lendários, muitos pensam imediatamente em técnicos impecáveis, reflexos rápidos e postura séria. Mas René Higuita nunca coube nesse molde. O colombiano conhecido como El Loco foi mais do que um jogador excêntrico: ele se tornou um símbolo de ousadia, espetáculo e, acima de tudo, inovação dentro do futebol. Tão inovador que suas atitudes em campo levaram a FIFA a repensar o esporte e alterar definitivamente as regras do jogo.

Nascido em Medellín, em 1966, Higuita cresceu entre dificuldades, mas encontrou no futebol uma forma de expressão. E expressar-se era exatamente o que ele fazia melhor: não apenas defendia, mas também atacava, driblava, arriscava lançamentos, faltas e até pênaltis. Em um tempo em que goleiros eram treinados para ficar rigidamente dentro da área, Higuita se tornou praticamente um jogador de linha com luvas.

O mundo o conheceu em grande escala durante a Copa de 1990, quando a Colômbia viveu um dos momentos mais marcantes de sua história esportiva. Porém, foi justamente ali, na partida contra Camarões, que aconteceu o lance que mudaria tudo. Higuita, longe da área, tentou driblar Roger Milla. O atacante tomou-lhe a bola e marcou. A Colômbia foi eliminada, e o mundo inteiro assistiu, boquiaberto, ao goleiro que ousou demais.

Apesar da falha, ficou claro para a FIFA que algo precisava mudar. Naquele período, goleiros do mundo inteiro já estavam começando a abusar do tempo com a bola nos pés e retardar partidas, ainda que de forma muito menos espetacular do que Higuita. O estilo do colombiano escancarou esse problema num palco global.

A Regra, o Escorpião e o Legado

Dois anos depois, em 1992, a FIFA bateu o martelo: estava proibido para o goleiro pegar com as mãos uma bola recuada voluntariamente por um companheiro. A famosa “regra do recuo” nasceu muito pela necessidade de acelerar o jogo — e motivada, em grande parte, pelos riscos e ousadias de Higuita, que fazia da linha da grande área seu habitat natural.

Enquanto muitos criticavam, Higuita seguia em frente, transformando cada partida em espetáculo. Seu momento mais icônico viria em 1995, no estádio de Wembley, diante da Inglaterra. Uma bola alçada parecia fácil. Qualquer goleiro tradicional agarraria com segurança. Mas Higuita, nunca adepto do óbvio, saltou para trás e executou o célebre “Golpe do Escorpião” — talvez a defesa mais famosa da história do futebol. Não valia para nada. Era um amistoso. Mas ali estava condensada toda a essência do colombiano: coragem, improviso e irreverência.

Além de suas defesas inusitadas, Higuita marcou mais de 40 gols na carreira, algo raríssimo para goleiros. Ele abriu caminho para uma nova geração de arqueiros com habilidade nos pés, como Rogério Ceni, José Luis Chilavert, Victor Valdés, Neuer e Alisson — todos, de alguma forma, herdeiros da revolução silenciosa iniciada por El Loco.

Hoje, com o passar das décadas, a figura de René Higuita transcende sua posição. Ele não é apenas lembrado pelos lances espetaculares, mas como um personagem que obrigou o futebol, um esporte tão tradicional, a evoluir. Mudou regras, inspirou gerações e provou que genialidade e loucura às vezes caminham juntas.

René Higuita não foi apenas um goleiro. Foi uma ideia. Uma provocação viva. Um artista dentro das quatro linhas.
E artistas, como se sabe, sempre deixam sua marca — mesmo quando obrigam o mundo a mudar as regras.

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