Por décadas, o Brasil sonhou em ter uma indústria automobilística genuinamente nacional. Esse sonho teve nome, sobrenome e assinatura própria: Gurgel. Criada por um engenheiro visionário, a empresa foi símbolo de ousadia, inovação e orgulho nacional. Também foi exemplo de como o idealismo pode sucumbir diante de um mercado hostil e da falta de apoio estrutural.
O nascimento de um sonho nacional
João Augusto do Amaral Gurgel: o homem por trás da marca
João Gurgel nasceu em 1926, em Franca (SP), e desde cedo demonstrou fascínio por engenharia e mecânica. Formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das escolas mais prestigiadas do país, Gurgel acreditava que o Brasil tinha capacidade técnica e intelectual para produzir seus próprios automóveis — não apenas montar veículos estrangeiros.
Em 1969, surge oficialmente a Gurgel Motores S.A., inicialmente focada em veículos utilitários, robustos e simples, ideais para o terreno brasileiro. Enquanto as grandes montadoras estrangeiras se instalavam no país com incentivos governamentais, a Gurgel tentava trilhar um caminho independente, apostando em soluções próprias.
Inovação genuinamente brasileira
Um dos grandes diferenciais da Gurgel era sua engenharia original. O empresário desenvolveu o sistema Plasteel, uma estrutura de aço revestida com fibra de vidro, que tornava os veículos leves, resistentes à corrosão e baratos de manter. Era uma solução prática, adaptada às estradas precárias do Brasil das décadas de 1970 e 1980.
Modelos como o Xavante, o X-12, o Carajás e o BR-800 tornaram-se ícones. Eles não disputavam luxo ou desempenho com carros importados, mas ofereciam simplicidade, resistência e identidade nacional.
A Gurgel também se destacou por exportar veículos para mais de 30 países, incluindo mercados exigentes como Europa, América Latina e até o Oriente Médio. Era o Brasil mostrando ao mundo que sabia inovar.
Muito antes da discussão global sobre sustentabilidade, a Gurgel lançou, em 1974, o Itaipu E150, considerado o primeiro carro elétrico produzido na América Latina. Movido a baterias e desenvolvido durante a crise do petróleo, o Itaipu foi uma resposta direta à dependência de combustíveis fósseis.
Embora limitado pela tecnologia da época — autonomia curta e baixa velocidade —, o projeto foi visionário. Décadas depois, quando os carros elétricos se tornariam tendência mundial, o Itaipu seria lembrado como um símbolo de inovação à frente do seu tempo.
Do auge ao colapso: por que a Gurgel acabou
O embate desigual com as multinacionais
Apesar da criatividade e da engenharia nacional, a Gurgel enfrentava um problema estrutural: falta de apoio governamental. Enquanto montadoras estrangeiras recebiam isenções fiscais, subsídios e financiamentos generosos, a Gurgel arcava com impostos elevados e juros altos.
João Gurgel defendia políticas que estimulassem a indústria nacional, mas encontrou resistência. Em diversas ocasiões, denunciou publicamente a desigualdade de tratamento, afirmando que o Brasil “preferia montar carros estrangeiros a desenvolver os seus”.
Nos anos 1980, a Gurgel lançou seu projeto mais ambicioso: o BR-800, um carro compacto, econômico e pensado para ser o “carro do povo brasileiro”. Para viabilizá-lo, criou um modelo inovador de financiamento: quem comprasse ações da empresa tinha prioridade na compra do veículo.
O projeto, porém, sofreu com limitações técnicas, críticas da imprensa, problemas de escala e, mais uma vez, com a ausência de incentivos fiscais semelhantes aos concedidos a concorrentes maiores. Quando o governo lançou programas de estímulo ao carro popular, a Gurgel ficou de fora.
O colapso financeiro
Sem capital para competir em preço e volume, a empresa começou a acumular dívidas. A abertura do mercado aos importados, no início dos anos 1990, foi o golpe final. Carros estrangeiros, mais modernos e baratos, invadiram o país, tornando a sobrevivência da Gurgel praticamente impossível.
Em 1994, a empresa decretou falência. João Gurgel faleceu dois anos depois, em 1996, sem ver seu sonho reconhecido como merecia.
O legado da Gurgel
Hoje, a Gurgel é lembrada com respeito e nostalgia. Tornou-se símbolo de um Brasil que ousou pensar grande, mesmo sem as ferramentas adequadas. Seus carros são itens de colecionador, e sua história é frequentemente citada como exemplo de inovação sufocada por políticas econômicas desfavoráveis.
Mais do que uma montadora, a Gurgel representou uma ideia: a de que o Brasil pode criar, inovar e liderar. Seu fracasso não foi apenas empresarial, mas também institucional.
Em tempos de retomada do debate sobre indústria nacional, sustentabilidade e carros elétricos, a história da Gurgel soa atual — e necessária. Um lembrete de que visionários precisam de mais do que talento: precisam de um ecossistema que permita seus sonhos saírem do papel e permanecerem de pé.

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