domingo, 25 de janeiro de 2026

Itaipu: a “maior fábrica de gelo do mundo”

O truque engenhoso que manteve de pé uma das maiores obras da história

Durante a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma curiosidade técnica chamou atenção até mesmo de engenheiros experientes: o canteiro de obras era conhecido como “a maior fábrica de gelo do mundo”. O apelido não era exagero nem brincadeira. Toneladas de gelo triturado eram diariamente misturadas ao concreto — um detalhe essencial para que a maior hidrelétrica do planeta pudesse existir.

A estratégia parecia improvável para uma obra localizada em uma região de clima quente, na fronteira entre Brasil e Paraguai, mas foi justamente esse método que permitiu controlar uma das maiores ameaças ao projeto: o calor gerado pelo concreto em grandes volumes.

O desafio invisível do concreto

Ao contrário do que parece, o concreto não é um material “frio”. Durante o processo de cura, ocorre uma reação química chamada hidratação do cimento, que libera grandes quantidades de calor. Em pequenas obras, isso não representa um problema. Em Itaipu, porém, a escala era colossal.

A barragem exigiu cerca de 12,3 milhões de metros cúbicos de concreto — volume suficiente para construir dezenas de cidades médias. Se esse concreto fosse despejado de uma só vez ou em grandes blocos sem controle térmico, o calor interno gerado provocaria rachaduras, tensões estruturais e perda de resistência, comprometendo a segurança da barragem.

O risco era tão grande que, sem uma solução eficaz de resfriamento, a estrutura poderia levar mais de um século para esfriar naturalmente.

Gelo no lugar da água

A solução encontrada foi tão simples quanto engenhosa: substituir parte da água usada no preparo do concreto por gelo triturado. Ao derreter, o gelo absorvia o calor da reação química, reduzindo drasticamente a temperatura do material ainda fresco.
Para viabilizar a técnica, Itaipu montou uma estrutura industrial inédita, capaz de produzir dezenas de toneladas de gelo por hora. O gelo era fabricado, triturado e imediatamente levado às centrais de concreto, onde era misturado aos demais componentes antes do lançamento.

O apelido “maior fábrica de gelo do mundo” surgiu naturalmente entre os operários e engenheiros que presenciavam caminhões carregados de gelo circulando em plena região tropical.

Concreto em camadas e resfriamento contínuo

O uso do gelo era apenas parte de um sistema ainda mais sofisticado. O concreto de Itaipu foi aplicado em blocos sucessivos, chamados de liftings, com alturas cuidadosamente calculadas. Após o lançamento, tubos internos de resfriamento conduziam água fria por dentro do concreto, acelerando a dissipação do calor.

Essa combinação — gelo no preparo e resfriamento interno posterior — permitiu manter a temperatura dentro de limites seguros, evitando fissuras e garantindo a durabilidade da estrutura.

Cada etapa era monitorada por sensores térmicos, em um nível de controle considerado revolucionário para a engenharia civil da época.

Uma obra além do seu tempo

Iniciada em 1975 e concluída em 1984, a construção de Itaipu mobilizou cerca de 40 mil trabalhadores no auge das obras. O projeto envolveu soluções inéditas, equipamentos desenvolvidos exclusivamente para a usina e decisões técnicas que se tornaram referência mundial.

O uso de gelo em larga escala passou a ser estudado e replicado em outras grandes barragens e estruturas de concreto maciço ao redor do mundo, consolidando Itaipu como um verdadeiro laboratório de inovação em engenharia.

O frio que sustenta a força das águas

Hoje, décadas depois de sua inauguração, Itaipu segue como uma das maiores produtoras de energia hidrelétrica do planeta — silenciosa, imponente e estável. Poucos visitantes imaginam que, por trás de milhões de toneladas de concreto, há uma história feita de gelo, cálculo e precisão.

A chamada “maior fábrica de gelo do mundo” talvez nunca tenha produzido um único cubo para refrescar bebidas. Mas foi esse gelo invisível que garantiu a solidez de uma obra monumental, provando que, na engenharia, até o frio pode ser sinônimo de potência.

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