sábado, 24 de janeiro de 2026

Morre Scott Adams, criador de Dilbert, aos 68 anos

O cartunista que transformou o mundo corporativo em humor ácido deixa legado marcante — e controverso

O cartunista norte-americano Scott Adams, criador da icônica tirinha Dilbert, morreu aos 68 anos, em janeiro de 2026, nos Estados Unidos. A morte ocorreu após uma longa batalha contra um câncer de próstata em estágio avançado, diagnóstico que ele próprio havia tornado público meses antes. A notícia encerra a trajetória de um dos autores mais influentes — e também mais debatidos — da história recente dos quadrinhos.

Adams ficou mundialmente conhecido por retratar, com ironia cirúrgica, o cotidiano das grandes empresas, a burocracia sem sentido, os chefes despreparados e a alienação dos funcionários presos a cubículos. Seu humor, aparentemente simples, tocou em nervos sensíveis de uma geração inteira que se reconheceu nas situações absurdas do ambiente corporativo moderno.

Do escritório real ao cubículo fictício

Nascido em 8 de junho de 1957, em Windham, no estado de Nova York, Scott Adams viveu por anos aquilo que mais tarde transformaria em sátira. Formado em economia e com MBA, trabalhou em empresas do setor bancário e de tecnologia antes de apostar na carreira artística.

Em 1989, surgiu Dilbert. A tira começou de forma modesta, mas rapidamente ganhou espaço em jornais norte-americanos. O sucesso foi explosivo nos anos 1990, quando o crescimento das grandes corporações e da cultura dos escritórios criou o terreno perfeito para o humor de Adams florescer.

No auge, Dilbert era publicada em mais de 2 mil jornais, em dezenas de países, tornando-se uma das tirinhas mais populares do planeta. Personagens como o engenheiro socialmente deslocado Dilbert, o sarcástico cão Dogbert e o infame “chefe de cabelo pontudo” entraram para o imaginário coletivo.

Humor inteligente, crítica afiada

O diferencial de Dilbert estava na combinação entre humor visual simples e crítica sofisticada. Adams expunha decisões corporativas ilógicas, reuniões improdutivas, jargões vazios e gestores incompetentes com uma precisão que beirava o desconforto.

A tirinha virou leitura obrigatória em escritórios, salas de descanso e até em escolas de administração. O sucesso levou Adams a publicar livros best-sellers, como “The Dilbert Principle”, no qual defendia que empresas tendem a promover pessoas incompetentes para cargos de gestão, afastando-as do trabalho produtivo.

Mais do que entretenimento, Dilbert virou um espelho do mundo corporativo — e, para muitos, um manual informal de sobrevivência profissional.

Polêmicas e ruptura com a grande imprensa

Se a primeira metade da carreira foi marcada pelo sucesso quase unânime, os anos finais trouxeram um cenário bem diferente. A partir da década de 2010, Scott Adams passou a se posicionar com frequência sobre política e temas sociais em redes sociais e transmissões ao vivo.

Em 2023, comentários considerados racistas durante uma live provocaram forte reação pública. Como consequência, grandes jornais dos Estados Unidos e da Europa romperam contratos e deixaram de publicar Dilbert, encerrando décadas de presença contínua da tira na mídia tradicional.

Adams passou então a distribuir seu conteúdo de forma independente, em plataformas digitais, mantendo uma base fiel de seguidores — ao mesmo tempo em que se tornava figura recorrente em debates sobre liberdade de expressão, cancelamento e polarização cultural.

A luta contra o câncer e a despedida

Em 2025, o cartunista revelou estar enfrentando um câncer agressivo, já em metástase. Nos meses seguintes, falou abertamente sobre a progressão da doença, limitações físicas e reflexões sobre a vida, a morte e o legado.

A morte ocorreu em sua casa, de forma tranquila, segundo familiares. Em uma mensagem deixada pouco antes de partir, Adams afirmou ter tido “uma vida extraordinária”, agradecendo aos leitores que acompanharam seu trabalho ao longo de décadas.

Um legado que permanece

Scott Adams deixa uma obra impossível de ser ignorada. Para além das controvérsias, Dilbert segue como uma das mais bem-sucedidas sátiras já criadas sobre o mundo do trabalho. Seu humor influenciou gerações de cartunistas, roteiristas e comediantes, além de moldar a forma como milhões de pessoas passaram a enxergar o universo corporativo.

Amado por uns, criticado por outros, Adams foi um retratista implacável das contradições humanas dentro das empresas — e, nos últimos anos, também fora delas. Sua morte marca o fim de uma era, mas suas tiras continuam atuais, circulando em livros, arquivos digitais e na memória coletiva de quem já sobreviveu a uma reunião inútil.

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