quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ford Belina 4x4: a perua brasileira que desafiou o óbvio

 Entre 1985 e 1987, a Ford colocou nas ruas um dos projetos mais ousados — e hoje mais cultuados — da indústria automotiva nacional. A Belina 4x4 nasceu da improvável combinação entre a praticidade familiar da Belina II e a robustez mecânica da picape Pampa, resultando em uma perua pioneira no uso da tração integral no Brasil.

Uma ideia à frente do seu tempo

Na metade dos anos 1980, o mercado brasileiro era dominado por sedãs e peruas de tração traseira ou dianteira, voltados majoritariamente ao uso urbano. A Ford decidiu ir além. Inspirada pela necessidade de atender produtores rurais, concessionárias em regiões de difícil acesso e consumidores que enfrentavam estradas de terra no dia a dia, a marca apostou em uma proposta inédita: uma perua compacta com tração nas quatro rodas.

Assim surgia a Ford Belina 4x4, baseada na segunda geração do modelo, mas equipada com o mesmo sistema de tração integral utilizado na Ford Pampa 4x4. Era um conceito quase inexistente no país à época — algo que só se tornaria comum décadas depois com os utilitários esportivos.

Mecânica simples, solução engenhosa

Sob o capô, a Belina 4x4 trazia o conhecido motor CHT 1.6, movido a gasolina, com cerca de 73 cv de potência. Não era um conjunto esportivo, mas atendia bem à proposta de robustez e manutenção simples. O destaque estava mesmo no sistema de tração.

Tratava-se de uma tração parcial, acionada manualmente, sem diferencial central. Na prática, isso significava que o eixo traseiro só deveria ser engatado em situações de baixa aderência, como lama, areia ou estradas escorregadias. No asfalto seco, o uso do 4x4 poderia gerar esforços excessivos na transmissão — uma limitação comum nos sistemas da época.

Apesar disso, a Belina 4x4 se mostrava extremamente eficiente fora de estrada, especialmente considerando seu porte e proposta familiar. Com bom vão livre, peso relativamente baixo e tração integral, encarava terrenos que deixariam muitas peruas convencionais pelo caminho.

Visual discreto, vocação aventureira

Esteticamente, a Belina 4x4 mantinha linhas sóbrias e familiares. Não havia exageros ou apelos visuais agressivos. As principais diferenças estavam nos detalhes: altura levemente maior do solo, pneus de uso misto em algumas versões e pequenos emblemas identificando a tração integral.

Por dentro, o conforto seguia o padrão da Belina II. Bancos amplos, bom espaço para passageiros e um porta-malas generoso mantinham o caráter familiar do modelo. Era um carro capaz de levar a família durante a semana e enfrentar estradas rurais nos fins de semana — algo raro no Brasil daquele período.

Produção limitada e destino silencioso

Mesmo com sua proposta inovadora, a Belina 4x4 nunca foi um sucesso comercial. Produzida em aproximadamente 600 unidades, teve circulação restrita e divulgação modesta. Seu preço mais elevado e o mercado ainda pouco preparado para esse tipo de veículo contribuíram para a curta vida do modelo.

Além disso, a manutenção do sistema 4x4 exigia cuidados específicos, o que afastava parte dos consumidores urbanos. Em 1987, a produção foi encerrada, e a Belina 4x4 passou quase despercebida pela história oficial da indústria.

De esquecida a item de colecionador

Décadas depois, o cenário mudou completamente. A raridade, a proposta pioneira e o apelo nostálgico transformaram a Belina 4x4 em um objeto de desejo entre colecionadores. Encontrar um exemplar original, com sistema de tração funcional e documentação em dia, tornou-se tarefa difícil.

Em encontros de carros antigos, o modelo costuma atrair curiosos e entusiastas, especialmente por antecipar um conceito que hoje domina o mercado: o do veículo familiar com aptidão fora de estrada. De certa forma, a Belina 4x4 pode ser vista como uma precursora dos SUVs compactos que só se popularizariam no Brasil muitos anos depois.

Um capítulo ousado da Ford no Brasil

A Ford Belina 4x4 é mais do que uma curiosidade histórica. Ela representa um momento em que a engenharia nacional ousou experimentar, adaptando soluções simples a necessidades reais do consumidor brasileiro. Mesmo com limitações técnicas e comerciais, deixou sua marca como uma das peruas mais singulares já produzidas no país.
Hoje, sua história é revisitada com admiração. Um carro que nasceu discreto, saiu de cena rapidamente, mas ganhou o reconhecimento tardio que só o tempo — e a paixão dos colecionadores — é capaz de conceder.

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