A tensão entre João Figueiredo e José Sarney marcou o fim do regime militar e o início da Nova República
O Brasil vivia um dos momentos mais delicados de sua história. Depois de 21 anos de regime militar, a população aguardava ansiosamente a posse do primeiro governo civil eleito de forma indireta desde 1964. Mas, nos bastidores do poder, o clima era de desconfiança, ressentimento e incerteza.
Em 15 de março de 1985, a história reservou um roteiro inesperado. O presidente eleito, Tancredo Neves, adoeceu gravemente na véspera da posse e foi submetido a uma cirurgia de emergência em Brasília. Sem condições de assumir o cargo, coube ao vice-presidente eleito, José Sarney, prestar juramento e assumir interinamente a Presidência da República.
Enquanto o país acompanhava apreensivo as notícias sobre a saúde de Tancredo, outro episódio entrava para a história política brasileira.
O então presidente João Baptista Figueiredo, último general a comandar o país durante o regime militar, recusou-se a participar da cerimônia de transmissão do cargo.
A decisão não era apenas protocolar. Figueiredo nunca escondeu sua insatisfação com José Sarney. Antigo integrante da ARENA e posteriormente do PDS — partidos que sustentavam o governo militar —, Sarney rompeu com a base governista durante a campanha das Diretas Já e passou a integrar a Aliança Democrática, tornando-se vice na chapa de Tancredo Neves.
Para Figueiredo, essa mudança representava uma traição política.
Em diversas ocasiões, deixou claro que não entregaria pessoalmente a faixa presidencial ao novo governo. E cumpriu sua palavra.
No dia da posse, o presidente deixou discretamente o Palácio do Planalto por uma saída lateral, sem participar da cerimônia e sem cumprimentar José Sarney.
Era um gesto carregado de simbolismo.
O fim silencioso de uma era
A ausência de João Figueiredo rompeu uma tradição republicana que simboliza a continuidade institucional do Estado brasileiro. Sem o presidente que deixava o cargo, não houve a tradicional passagem da faixa presidencial.
Na prática, a posse ocorreu normalmente, obedecendo às normas constitucionais, mas sem um dos atos mais emblemáticos da democracia: a transmissão formal do poder entre o governante que sai e aquele que assume.
Pouco depois, a situação tornou-se ainda mais dramática. Tancredo Neves jamais tomaria posse oficialmente. Após semanas de internação e diversas cirurgias, morreu em 21 de abril de 1985, aos 75 anos.
Com isso, José Sarney foi efetivado como presidente da República, tornando-se o primeiro civil a governar o Brasil após o fim do regime militar.
Seu governo enfrentou enormes desafios. A inflação disparava, a economia atravessava grave crise e a jovem democracia ainda convivia com forte influência de setores militares e intensa polarização política. Mesmo assim, foi durante sua gestão que o país viveu um dos momentos mais importantes da redemocratização: a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como a "Constituição Cidadã", que restabeleceu direitos fundamentais e consolidou o regime democrático.
João Figueiredo, por sua vez, afastou-se completamente da vida pública após deixar o cargo. Manteve uma postura crítica em relação ao novo governo e raramente concedeu entrevistas. Faleceu em 1999, levando consigo a imagem de ter sido o último presidente do ciclo militar iniciado em 1964.
A recusa em entregar a faixa presidencial permanece como um dos episódios mais marcantes da transição democrática brasileira. Mais do que um gesto de descontentamento pessoal, ela simbolizou as dificuldades de encerrar um período de exceção e iniciar uma nova etapa da história nacional.
Hoje, quatro décadas depois, aquele momento continua sendo lembrado como um retrato das tensões que cercaram o nascimento da Nova República e da importância das instituições para garantir uma transição pacífica do poder, mesmo em meio a profundas divergências políticas.

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