O Edifício Casario nasceu colado ao corredor de ônibus de Curitiba — e até hoje divide opiniões entre obra-prima e “pombal”
Poucos nomes estão tão ligados à identidade urbana de Curitiba quanto o de Jaime Lerner.
Prefeito, urbanista, arquiteto e um dos grandes símbolos do planejamento urbano brasileiro, Lerner ajudou a transformar Curitiba em referência internacional de mobilidade e organização urbana.
Foi dele a ideia dos corredores exclusivos de ônibus, das canaletas do transporte coletivo e do sistema biarticulado que virou marca registrada da cidade.
Mas existe uma obra menos conhecida — e muito mais controversa — que talvez revele um lado mais pessoal e experimental de sua arquitetura.
O Edifício Casario.
Construído em 1979, no bairro Juvevê, o prédio parece desafiar qualquer tentativa de neutralidade. Quem gosta considera uma obra ousada e visionária. Quem não gosta costuma resumir tudo em um apelido pouco gentil:
“Pombal.”
E o curioso é que o próprio Jaime Lerner acompanhava essa reação de perto.
Literalmente.
Porque o arquiteto morava e trabalhava na mesma quadra.
Um prédio nascido da própria cidade que Lerner desenhava
O Casario surgiu em um momento em que Curitiba passava por uma transformação urbana profunda.
As grandes mudanças no transporte coletivo começavam a redefinir a cidade. As canaletas exclusivas para ônibus já alteravam a lógica das avenidas e antecipavam um modelo que décadas depois seria copiado em vários países.
Foi justamente ao lado de uma dessas canaletas que o edifício nasceu.
Na Avenida João Gualberto, o prédio foi implantado praticamente colado ao corredor do biarticulado — o sistema que o próprio Lerner ajudou a conceber.
O homem que reorganizava Curitiba urbanisticamente decidiu morar e construir exatamente sobre a linha das mudanças que estava promovendo.
Não era coincidência.
Era uma espécie de manifesto arquitetônico.
A arquitetura que parecia desafiar a gravidade
O Edifício Casario chama atenção imediatamente pela fachada.
Em vez de linhas convencionais, o projeto aposta em volumes sobrepostos que parecem empilhados de maneira irregular, quase suspensos no ar.
As estruturas avançam para fora do prédio apoiadas por mãos francesas de concreto, criando uma sensação visual incomum até hoje.
O resultado é agressivo, geométrico e absolutamente impossível de ignorar.
Para alguns arquitetos e urbanistas, o prédio representa uma linguagem extremamente avançada para a Curitiba dos anos 1970 — uma mistura de brutalismo com experimentação estrutural.
Para outros, parece apenas um conjunto desordenado de caixas de concreto.
Daí nasceu o apelido que atravessou décadas.
“Pombal.”
A comparação vinha das aberturas repetidas e da sensação de módulos encaixados uns sobre os outros.
E talvez seja justamente essa divisão que mantém o prédio vivo no imaginário da cidade até hoje.
Porque quase ninguém olha para o Casario e reage com indiferença.
Morar, trabalhar e projetar no mesmo lugar
Existe outro detalhe curioso na história do edifício: o terreno teria sido obtido por meio de permuta, algo relativamente comum em projetos imobiliários da época.
Lerner então decidiu integrar vida pessoal, escritório e arquitetura em um mesmo ponto urbano.
O prédio não era apenas um empreendimento residencial.
Era também uma extensão prática das ideias urbanísticas que ele defendia para Curitiba.
A lógica da cidade compacta, da proximidade entre moradia e trabalho e da convivência direta com o transporte coletivo aparecia ali de forma concreta.
Décadas antes de conceitos como “cidade de 15 minutos” virarem tendência global, Jaime Lerner já defendia que cidades deveriam reduzir distâncias e aproximar funções urbanas.
O Casario parecia materializar essa visão.
Um símbolo amado — ou rejeitado
Com o passar dos anos, o edifício virou uma espécie de personagem arquitetônico de Curitiba.
Não possui a monumentalidade do Museu Oscar Niemeyer nem o apelo turístico dos cartões-postais tradicionais da cidade.
Mas possui algo raro:
personalidade.
Quem admira o Casario costuma enxergar coragem estética, experimentação e identidade urbana genuína.
Quem rejeita vê exagero, peso visual e uma obra que envelheceu mal.
E talvez o mais interessante seja justamente isso.
Num período em que tantos prédios parecem iguais em qualquer cidade do mundo, o Casario continua impossível de confundir com outro lugar.
A marca de um urbanista que pensava a cidade inteira
Muito além do debate sobre beleza ou feiura, o Edifício Casario ajuda a entender como Jaime Lerner enxergava Curitiba.
Para ele, arquitetura, mobilidade e vida urbana eram partes inseparáveis da mesma ideia.
O prédio não foi construído isoladamente.
Ele dialogava com o corredor de ônibus.
Com a avenida.
Com a transformação da cidade.
E com a própria vida do arquiteto.
Talvez por isso continue provocando reações tão fortes mais de quatro décadas depois.
Porque o Casario não tenta agradar.
Ele tenta afirmar uma visão.
E até hoje os curitibanos seguem divididos entre chamá-lo de obra-prima… ou de pombal.
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