O PIT-STOP QUE MUDOU A DISPUTA PELO TÍTULO
Há 35 anos, um erro aparentemente pequeno no pit lane transformou uma provável dobradinha da Williams em uma vitória de Riccardo Patrese e aproximou Ayrton Senna do tricampeonato mundial
22 de setembro de 1991. Autódromo do Estoril, Portugal.
A temporada de Fórmula 1 chegava à sua 13ª etapa com uma disputa pelo título que parecia caminhar para um dos grandes duelos da história da categoria.
De um lado, Ayrton Senna, campeão mundial em 1988 e 1990, defendendo a McLaren-Honda. Do outro, Nigel Mansell, piloto da poderosa Williams-Renault e principal perseguidor do brasileiro na classificação.
No Estoril, entretanto, o roteiro parecia favorecer completamente a Williams.
Riccardo Patrese havia conquistado a pole position, com Nigel Mansell largando em quarto. Senna era o terceiro colocado no grid, atrás de Patrese e Gerhard Berger.
Quando a corrida começou, as Williams rapidamente mostraram sua força.
Patrese e Mansell abriram vantagem sobre as McLaren e chegaram a estabelecer uma confortável liderança. A equipe britânica parecia caminhar para uma dobradinha.
Mansell, inclusive, assumiu a liderança durante a corrida, enquanto Patrese fazia o papel de companheiro de equipe e permanecia próximo.
Tudo indicava que a Williams sairia de Portugal com um resultado perfeito.
Mas a Fórmula 1 pode mudar completamente em poucos segundos.
O PIT-STOP QUE DEU ERRADO
Na parada para troca de pneus, a Williams viveu um dos momentos mais desastrosos de sua temporada.
Mansell entrou nos boxes e sua parada começou normalmente. O pit-stop chegou a ser extremamente rápido, com aproximadamente 7,75 segundos.
O problema estava na roda traseira direita.
Segundo o relato publicado no site de Riccardo Patrese, houve uma falha no processo de fixação da porca. Enquanto um dos mecânicos ainda trabalhava na roda, o responsável pelo macaco traseiro entendeu que o serviço estava concluído e o carro foi baixado.
Mansell recebeu o sinal para deixar o box.
E saiu.
Só que, poucos metros depois, a roda traseira direita se soltou.
O pneu acabou atravessando a área dos boxes, enquanto o Williams-Renault de Mansell parava dentro do pit lane.
A situação, que já era dramática, ficaria ainda pior.
Os mecânicos precisaram correr até o carro para recolocar a roda. Mansell perdeu enorme quantidade de tempo e retornou à pista completamente fora da disputa pela vitória.
A Williams, que caminhava para uma dobradinha, agora precisava assistir ao seu principal piloto fazer uma corrida desesperada de recuperação.
MANSell NÃO DESISTIU
Mesmo depois do desastre, Mansell mostrou por que era conhecido por sua velocidade e agressividade.
O inglês voltou à pista em posição muito baixa e começou a atacar.
Volta após volta, ultrapassou adversários e recuperou posições.
A recuperação foi impressionante.
Mansell chegou a entrar na zona de pontuação e, segundo relatos da época, avançou até a sexta colocação antes de receber a bandeira preta.
Mas havia um problema.
Os mecânicos da Williams haviam realizado o reparo do carro no pit lane, fora da área permitida para esse tipo de intervenção.
A direção de prova considerou a ação uma infração.
Mansell recebeu a bandeira preta e foi desclassificado.
A classificação oficial da Fórmula 1 registra o inglês como não classificado, com 51 voltas completadas.
O detalhe curioso é que o erro havia acontecido durante o pit-stop, muito antes da bandeira preta. Portanto, a volta 51 não foi o momento em que Mansell fez a parada — foi o momento em que sua corrida terminou oficialmente.
PATRESE HERDA A VITÓRIA
Enquanto Mansell enfrentava o caos, Riccardo Patrese tinha uma missão completamente diferente.
O italiano também precisou parar, mas a Williams, já consciente do problema ocorrido com seu companheiro, teve uma preocupação adicional durante seu pit-stop.
Patrese voltou à pista ainda em condições de lutar pela vitória.
A partir daquele momento, a Williams passou a controlar uma corrida que poderia ter terminado de maneira completamente diferente.
No final, Patrese recebeu a bandeirada em primeiro.
Foram 71 voltas no Estoril e 1h35min42s304 de corrida. Senna terminou em segundo, 20,941 segundos atrás do vencedor. Jean Alesi completou o pódio com a Ferrari.
Para Patrese, foi a quinta vitória de sua carreira na Fórmula 1.
Para Senna, entretanto, o segundo lugar valia muito mais do que seis pontos.
Valia uma enorme vantagem na luta pelo campeonato.
SENNA APROVEITA A OPORTUNIDADE
Ayrton Senna não precisou vencer o GP de Portugal para sair de Estoril como um dos grandes vencedores daquele domingo.
O brasileiro terminou em segundo e viu seu principal rival pelo título abandonar oficialmente a corrida.
O resultado aumentou para 24 pontos a vantagem de Senna sobre Mansell, quando restavam apenas três etapas para o encerramento do campeonato.
A situação do campeonato havia mudado radicalmente.
Antes da corrida, Mansell ainda tinha condições concretas de pressionar Senna.
Depois do Estoril, o brasileiro estava muito mais confortável.
E a diferença ficou ainda mais significativa porque o calendário já estava chegando ao fim.
A próxima etapa seria o GP da Espanha, em Barcelona. Depois viriam Japão e Austrália.
Senna precisava apenas administrar a enorme vantagem construída.
O CAMPEONATO CAMINHAVA PARA O JAPÃO
O título de 1991 seria decidido no Japão, duas corridas depois de Portugal.
A temporada havia começado com domínio de Senna, que venceu as quatro primeiras provas: Estados Unidos, Brasil, San Marino e Mônaco. Mansell reagiu ao longo do campeonato e venceu França, Grã-Bretanha e Alemanha, enquanto Senna voltou a triunfar na Hungria e na Bélgica.
A disputa continuava aberta, mas Portugal representou um ponto de inflexão.
Senna terminou a corrida em segundo.
Mansell não pontuou.
E a Williams, que parecia ter uma vitória praticamente encaminhada com seus dois carros, acabou vendo Patrese vencer sozinho.
O campeonato começava a escapar das mãos do inglês.
UMA CORRIDA QUE FICOU NA MEMÓRIA
O GP de Portugal de 1991 é lembrado por diferentes motivos.
Foi a vitória de Riccardo Patrese.
Foi o segundo lugar estratégico de Ayrton Senna.
Foi o pódio de Jean Alesi.
Mas, acima de tudo, ficou marcado pelo inacreditável episódio envolvendo Nigel Mansell.
Em questão de segundos, o piloto que liderava a corrida passou de candidato à vitória a protagonista de uma das cenas mais curiosas daquele campeonato.
Uma roda mal fixada.
Um carro que precisou parar dentro do pit lane.
Mecânicos correndo para realizar o reparo.
Uma recuperação espetacular na pista.
E, finalmente, a bandeira preta.
A história resume perfeitamente a imprevisibilidade da Fórmula 1.
O PREÇO DE UM SEGUNDO
Em uma categoria na qual tudo é medido em milésimos de segundo, um pequeno erro pode custar uma vitória.
No Estoril, o problema da Williams não foi falta de velocidade.
Mansell tinha ritmo.
O carro era competitivo.
A equipe tinha condições de vencer.
O que decidiu o destino do piloto foi uma sequência de acontecimentos durante alguns segundos no pit lane.
E as consequências foram enormes.
A vitória ficou com o companheiro de equipe, Patrese.
Senna herdou o segundo lugar.
Mansell terminou sem pontuar.
E a diferença no campeonato chegou a 24 pontos.
A classificação oficial mostra justamente o tamanho do golpe: Senna terminou 1991 campeão mundial com 96 pontos, enquanto Mansell ficou com 72.
O CAMINHO PARA O TRICAMPEONATO
Menos de um mês depois, em 20 de outubro de 1991, Ayrton Senna chegaria ao Japão carregando uma vantagem que lhe permitia conquistar matematicamente o terceiro título mundial.
O GP de Portugal não decidiu sozinho o campeonato.
Mas foi um daqueles momentos que alteram profundamente a matemática de uma temporada.
No Estoril, Mansell perdeu uma oportunidade valiosa.
Senna ganhou seis pontos importantes.
E Patrese transformou um possível desastre coletivo da Williams em uma vitória histórica.
No fim, o episódio mostrou uma das verdades mais antigas do automobilismo:
não basta ser rápido. É preciso chegar ao final.
Há 35 anos, no Autódromo do Estoril, uma roda que se soltou no momento errado ajudou a mudar o rumo da temporada de 1991.
E enquanto Riccardo Patrese comemorava a vitória, Ayrton Senna dava mais um passo rumo ao seu terceiro título mundial.
O campeonato ainda não estava matematicamente decidido.
Mas, depois daquele domingo, o caminho para o tricampeonato estava muito mais claro.Fontes: registros oficiais da FIA/Fórmula 1 e relatos históricos do GP de Portugal de 1991.
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