quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O FORMATO É SÓ UMA PARTE DA ENGENHARIA!

 A tampa que parece simples, mas precisa suportar cargas, evitar escorregões e obedecer a rigorosos critérios técnicos

Por trás de uma tampa de acesso existe muito mais engenharia do que os olhos conseguem perceber. Elas estão espalhadas pelas ruas, calçadas, estacionamentos, áreas industriais, ciclovias e até em instalações aeroportuárias. Para quem passa sobre uma delas todos os dias, geralmente são apenas peças metálicas instaladas no pavimento. Entretanto, cada modelo é resultado de decisões de projeto que envolvem formato, dimensões, materiais, resistência mecânica, segurança e o tipo de ambiente onde será utilizado.

Existe uma ideia bastante difundida de que toda tampa de acesso precisa ser redonda. A associação faz sentido porque os modelos circulares são extremamente comuns, especialmente em redes subterrâneas, mas o formato não é uma regra absoluta. Há tampas quadradas, retangulares e também soluções compostas por diferentes peças, inclusive elementos triangulares. A geometria escolhida depende da instalação, da abertura que precisa ser protegida, das características estruturais do conjunto e da finalidade da tampa. Portanto, quando alguém observa uma tampa quadrada ou retangular na rua, não está diante de um erro de projeto: o formato é apenas uma das várias decisões tomadas pelos engenheiros.

A escolha da geometria também está relacionada à maneira como a tampa e sua estrutura de suporte trabalham quando submetidas a cargas. Uma peça instalada em uma calçada, por exemplo, enfrenta condições muito diferentes daquela colocada no meio de uma avenida com tráfego intenso. Peso, impacto, distribuição de cargas e frequência de passagem são fatores que precisam ser considerados. Por isso, não existe simplesmente uma “tampa forte” que sirva para qualquer lugar. A resistência necessária está diretamente relacionada ao ambiente de instalação.

NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE PESO

Outro detalhe que costuma passar despercebido está na parte superior da tampa. Muitas apresentam desenhos, ranhuras, padrões geométricos ou superfícies em relevo. Para quem olha rapidamente, esses elementos podem parecer apenas uma característica estética ou uma maneira de identificar o fabricante. Na realidade, a superfície pode desempenhar uma função importante relacionada à segurança.

Em áreas de circulação, uma tampa metálica precisa considerar também o risco de escorregamento. Uma superfície completamente lisa pode apresentar comportamento diferente quando está molhada, especialmente em locais onde pedestres, bicicletas ou veículos precisam passar sobre ela. Por isso, características superficiais fazem parte da engenharia aplicada ao componente. O relevo não está ali simplesmente para deixar a tampa mais bonita.

A norma europeia EN 124 estabelece requisitos relacionados às tampas de acesso e grelhas destinadas a áreas de circulação, incluindo aspectos associados à capacidade de suportar cargas e à utilização conforme o ambiente. A série de normas considera diferentes classes de aplicação, justamente porque uma tampa instalada em uma calçada não está submetida às mesmas condições de uma peça instalada em uma rodovia.

É aí que surge uma das partes mais interessantes desse universo: as classes de carga.

DE A15 A F900: UMA ESCALA DE RESISTÊNCIA

A classificação estabelecida pela EN 124 vai de A15 até F900, criando diferentes categorias de utilização. Na prática, isso permite relacionar o produto ao ambiente em que será instalado e às cargas que deverá suportar durante sua vida útil.

Na extremidade inferior da classificação está a categoria A15, destinada a áreas nas quais as solicitações são relativamente menores, como determinados espaços utilizados por pedestres e ciclistas. Conforme as exigências aumentam, aparecem outras categorias destinadas a locais com maior circulação e cargas mais elevadas.

No outro extremo está a F900, destinada a situações extremamente exigentes, nas quais o conjunto precisa suportar cargas muito elevadas. Entre esses extremos estão diferentes classes, cada uma relacionada às características e às condições de utilização do local.

Em áreas destinadas ao tráfego de veículos, por exemplo, a classificação D400 é uma referência importante. Ela está associada a zonas de circulação de veículos, como pistas e acostamentos, onde as tampas ficam sujeitas a cargas significativamente maiores do que aquelas encontradas em áreas exclusivamente destinadas a pedestres.

Isso mostra por que simplesmente olhar para uma tampa e perguntar “quanto peso ela aguenta?” não é suficiente. A resposta depende da classe para a qual o produto foi projetado, das condições de instalação e da maneira como a carga é aplicada ao conjunto.

UMA TAMPA TAMBÉM PRECISA SER SEGURA

Quando um veículo passa sobre uma tampa de acesso, a situação é muito diferente daquela em que uma pessoa simplesmente caminha sobre ela. Além do peso do veículo, existem efeitos dinâmicos provocados pelo movimento, impactos, frenagens, acelerações e pela própria condição do pavimento. A tampa precisa trabalhar em conjunto com seu aro e com a estrutura ao redor para que as cargas sejam adequadamente suportadas.

É por isso que o projeto não termina na fabricação de uma peça metálica resistente. O sistema completo importa. A abertura, o aro, o encaixe, o material utilizado, a geometria, a instalação e as condições do pavimento fazem parte da equação. Uma tampa corretamente especificada, mas instalada de maneira inadequada, pode não apresentar o comportamento esperado.

Outro aspecto importante é a estabilidade da própria tampa. Em determinados ambientes, movimentações, vibrações e impactos podem gerar ruídos, deslocamentos ou desgaste. Dependendo do projeto, mecanismos de travamento, sistemas de encaixe e soluções específicas podem ser empregados para manter o componente corretamente posicionado.

A preocupação também se estende à segurança dos usuários. Uma tampa desnivelada em relação ao pavimento pode representar um obstáculo para pedestres, ciclistas e motociclistas. Uma superfície inadequada pode aumentar o risco de escorregamento. Uma estrutura subdimensionada pode sofrer deformações ou danos. Tudo isso mostra que um componente aparentemente banal pode ter consequências importantes quando não é corretamente especificado.

POR QUE NÃO EXISTE UMA TAMPA UNIVERSAL?

A resposta está justamente na diversidade dos ambientes. Uma cidade possui calçadas, ciclovias, estacionamentos, ruas residenciais, avenidas, rodovias e áreas industriais. Cada uma dessas situações apresenta características próprias.

Uma tampa localizada em uma área exclusivamente destinada a pedestres não precisa necessariamente ter a mesma capacidade de carga de uma instalada em uma via com tráfego pesado. Da mesma forma, uma estrutura utilizada em uma área industrial pode enfrentar condições muito diferentes de uma peça instalada em um espaço público convencional.

A classificação permite justamente organizar essas necessidades. Em vez de escolher uma tampa apenas pelo tamanho ou pelo formato, o projeto considera o local e a carga prevista para aquela aplicação.

É uma lógica semelhante à utilizada em muitos outros componentes da engenharia: o produto precisa ser adequado à função. Uma ponte é projetada considerando as cargas que receberá; uma estrutura metálica precisa levar em conta seus esforços; uma máquina precisa ser dimensionada conforme sua utilização. Com as tampas de acesso acontece exatamente a mesma coisa, apenas em uma escala que costuma passar despercebida.

O QUE EXISTE DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS

Talvez seja justamente essa a parte mais interessante. Caminhamos pelas cidades diariamente sobre estruturas que escondem redes de água, esgoto, energia, telecomunicações, drenagem e outros sistemas essenciais para o funcionamento urbano. Para permitir acesso a essas instalações subterrâneas, são necessárias aberturas protegidas por componentes capazes de combinar resistência, segurança e praticidade.

A tampa precisa cumprir uma missão aparentemente contraditória: permitir que técnicos tenham acesso ao sistema subterrâneo e, ao mesmo tempo, desaparecer da rotina de quem utiliza a superfície. Quanto melhor funciona, menos atenção recebe.

É por isso que aquela tampa sobre a qual passamos sem sequer olhar pode representar uma pequena demonstração de engenharia aplicada ao cotidiano. Seu formato é importante, mas está longe de ser o único fator. O material, a geometria, o sistema de apoio, a superfície, a capacidade de carga, a classificação e o ambiente de instalação fazem parte de um conjunto cuidadosamente pensado.

No final, a mensagem é simples: não existe apenas uma tampa de acesso. Existem diferentes soluções para diferentes necessidades.

Da próxima vez que você encontrar uma dessas peças no meio da calçada ou no asfalto, talvez valha a pena olhar por alguns segundos. O desenho em relevo, o formato, o encaixe e até o local onde ela está instalada contam uma pequena história sobre a engenharia que existe sob nossos pés.

UMA PEÇA PEQUENA, UMA GRANDE RESPONSABILIDADE

A engenharia muitas vezes trabalha justamente assim: criando soluções que deixam de chamar atenção quando funcionam corretamente. Uma tampa de acesso não precisa impressionar visualmente para ser tecnicamente sofisticada. Ela precisa cumprir sua função durante anos, suportando as condições para as quais foi projetada e mantendo segurança para as pessoas e veículos que passam sobre ela.

O formato é apenas o começo. A verdadeira engenharia está em fazer com que aquela peça aparentemente simples seja capaz de cumprir sua função com segurança, resistência e confiabilidade.

Fontes: EN 124-1:2015; EN 124-2:2015; British Standards Institution (BSI).

A SOLDADO UCRANIANA QUE ENTROU NO EXÉRCITO PELO TINDER E PERDEU AS PERNAS

 A história de Anastasia “Ada” Saksman começou na tecnologia, passou por um aplicativo de relacionamentos e terminou levando-a aos campos de batalha. Depois de perder as duas pernas, ela decidiu voltar ao serviço usando próteses.


Antes da guerra, Anastasia Saksman trabalhava na área de tecnologia. Sua vida profissional estava distante do ambiente militar, das trincheiras e dos drones utilizados em combate. Mas a invasão em larga escala da Ucrânia mudou completamente seus planos. A partir de 2022, Anastasia começou a procurar uma maneira de entrar para as Forças Armadas e encontrar uma função na qual pudesse utilizar suas habilidades. O caminho que encontrou para chegar ao Exército, entretanto, foi tão incomum que acabou se tornando parte fundamental de sua história: o Tinder.

Anastasia, que passou a usar o codinome Ada, conta que já havia enviado currículos e procurado diretamente diferentes unidades militares, mas não recebia respostas. Em vez de desistir, passou a conversar também com militares que conhecia pelo aplicativo de relacionamentos. A intenção, segundo seu próprio relato, não era procurar um relacionamento, mas descobrir como poderia ingressar no Exército.

Em uma dessas conversas, um militar se interessou pelo currículo de Anastasia e acabou fazendo aquilo que os recrutadores anteriores não haviam feito: abriu uma porta para que ela pudesse integrar uma unidade. Em abril de 2023, ela finalmente entrou para as Forças Armadas da Ucrânia. A história que havia começado em um aplicativo de encontros transformava-se em uma nova vida profissional.

DA TECNOLOGIA AOS DRONES

A experiência anterior com tecnologia encontrou uma aplicação natural dentro da estrutura militar. Ada tornou-se operadora de veículos aéreos não tripulados, trabalhando inicialmente em funções de reconhecimento e posteriormente com drones FPV.

Seu trabalho a levou para diferentes regiões do leste da Ucrânia, incluindo áreas de intensa atividade militar. Segundo relatos publicados sobre sua trajetória, ela passou por setores como Siversk, Kupiansk, Avdiivka e a região de Vuhledar. O que antes era uma profissional da área de tecnologia passou a fazer parte de uma nova geração de militares que utiliza equipamentos eletrônicos, câmeras, comunicação digital e aeronaves remotamente controladas no campo de batalha.

Os drones transformaram profundamente a guerra moderna. Pequenos equipamentos controlados à distância passaram a ser utilizados para reconhecimento, observação e outras missões. Para operadores como Ada, a tecnologia tornou-se uma ferramenta diretamente ligada às operações militares.

Mas estar atrás dos controles de um drone não significava estar distante dos perigos do front.

Em 6 de setembro de 2024, durante um deslocamento para uma posição na região de Vuhledar, o veículo em que Ada estava passou sobre uma mina antitanque. A explosão aconteceu sob o automóvel e provocou ferimentos gravíssimos.

O DIA QUE MUDOU TUDO

O momento do acidente ficou marcado pela necessidade de tomar decisões rapidamente.

Ferida e presa dentro do veículo, Ada tentou controlar o sangramento utilizando um torniquete. O procedimento, porém, era muito mais complicado de executar nela mesma, em um espaço limitado e sob condições extremas. Um companheiro de unidade acabou ajudando-a.

A gravidade dos ferimentos exigiu atendimento médico imediato.

A perna esquerda precisou ser amputada naquele mesmo dia. A situação da perna direita também era extremamente grave, mas inicialmente os médicos tentaram preservá-la. Começava ali uma longa batalha que não terminaria no hospital.

A guerra havia deixado uma marca permanente em seu corpo.

Mas a história de Ada ainda estava longe de terminar.

TREZE CIRURGIAS PARA SALVAR UMA PERNA

Durante aproximadamente um ano, os médicos tentaram reconstruir e preservar a perna direita.

Foram 13 operações, segundo o relato da própria militar. A recuperação foi longa, dolorosa e cheia de incertezas. Mesmo depois dos procedimentos e da reabilitação, entretanto, a situação continuou a se deteriorar.

Ada precisou tomar uma decisão difícil.

A alternativa passou a ser uma segunda amputação.

Em vez de continuar submetendo o corpo a novas tentativas de reconstrução, ela decidiu aceitar a retirada da segunda perna para poder avançar para uma nova etapa: a adaptação às próteses e a recuperação da mobilidade.

A escolha não significava desistência.

Era, para ela, uma maneira de seguir adiante.

Depois das duas amputações, começou outro processo igualmente exigente: aprender novamente a caminhar, equilibrar o corpo, controlar as próteses e reconstruir uma rotina.

A RECUPERAÇÃO NÃO TERMINOU NO HOSPITAL

Para muitas pessoas, a amputação seria o ponto final de uma trajetória militar.

Para Ada, não.

Ainda durante a recuperação, ela manifestou o desejo de continuar servindo. Pediu que não fosse simplesmente retirada das Forças Armadas por causa dos ferimentos e queria ter a oportunidade de voltar à sua unidade quando estivesse em condições.

O caminho até lá exigiu fisioterapia, adaptação, treinamento e uma enorme mudança na maneira de realizar tarefas que antes eram automáticas.

Caminhar novamente com próteses é apenas uma parte do processo. O corpo precisa reaprender movimentos, desenvolver equilíbrio e encontrar novas formas de executar atividades cotidianas.

Para uma militar que pretendia voltar a uma unidade operacional, o desafio era ainda maior.

Não bastava andar.

Era preciso recuperar resistência.

DE VOLTA À UNIDADE

Depois da reabilitação e da adaptação às próteses, Ada conseguiu retornar aos companheiros.

A imagem de uma operadora de drones utilizando duas próteses sintetizava uma transformação extraordinária. Menos de um ano antes, ela havia sido gravemente ferida em uma explosão. Agora, estava novamente integrada à sua unidade.

O retorno, naturalmente, não significou que tudo havia voltado ao normal.

A própria Ada reconheceu que sua resistência e força física haviam diminuído em relação ao período anterior ao ferimento. As tarefas passaram a exigir mais esforço, e algumas atividades que antes eram simples tornaram-se difíceis.

Ainda assim, ela voltou.

Segundo relatos mais recentes, Ada chegou a retornar a posições de combate na direção de Pokrovsk, continuando seu trabalho militar mesmo depois das amputações. A própria experiência também trouxe uma nova percepção sobre a presença feminina nas Forças Armadas e sobre a necessidade de adaptação da estrutura militar às mulheres.

UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU COM UM “MATCH”

Poucas histórias militares começam de maneira tão improvável.

Não houve uma tradicional trajetória de academia militar.

Não houve uma longa carreira dentro das Forças Armadas.

Havia uma profissional de tecnologia tentando encontrar uma maneira de contribuir durante uma guerra.

E havia um aplicativo de relacionamentos.

O Tinder foi apenas a porta de entrada. A partir dali, Anastasia encontrou um contato, apresentou seu currículo, recebeu uma oportunidade e começou uma trajetória que a levaria às operações com drones e, posteriormente, a um dos momentos mais traumáticos de sua vida.

O detalhe curioso da história, entretanto, não deve esconder sua dimensão humana.

O mais importante não é apenas que ela entrou para o Exército através de um aplicativo.

É o que aconteceu depois.

Ela entrou como profissional de tecnologia.

Tornou-se operadora de drones.

Foi enviada para áreas de combate.

Sofreu uma explosão.

Perdeu uma perna.

Tentou salvar a outra durante um ano.

Passou por 13 cirurgias.

Perdeu também a segunda perna.

Aprendeu a usar próteses.

E pediu para voltar.

ENTRE A TECNOLOGIA E A GUERRA

A história de Anastasia Saksman também mostra como a guerra contemporânea modificou o perfil de algumas funções militares.

A presença de tecnologia tornou-se cada vez mais importante. Pessoas com experiência em programação, eletrônica, comunicação, análise de dados e operação de sistemas passaram a encontrar novas possibilidades dentro das estruturas militares.

Ada representa esse cruzamento entre dois mundos.

De um lado, a profissional de tecnologia.

Do outro, a soldado que passou a operar drones em zonas de combate.

Entre os dois momentos existe uma guerra que mudou completamente sua vida.

E existe também uma recuperação que exigiu mais do que procedimentos médicos.

Foi necessário reconstruir uma nova relação com o próprio corpo.

A VOLTA

A imagem de Ada retornando à unidade com duas próteses talvez seja o capítulo mais significativo dessa história.

Não porque apague o trauma.

Não porque elimine as limitações deixadas pelo ferimento.

E muito menos porque transforme uma tragédia em algo simples.

Mas porque mostra uma pessoa tentando recuperar algum controle sobre a própria vida depois de uma mudança física definitiva.

Sua história não é apenas sobre a guerra.

É também sobre adaptação.

Sobre tecnologia.

Sobre reabilitação.

Sobre escolhas.

E sobre a possibilidade de construir uma nova rotina depois de perder aquilo que parecia essencial para continuar fazendo o que se fazia antes.

Anastasia “Ada” Saksman entrou para o Exército ucraniano por uma porta improvável: um aplicativo criado para aproximar pessoas.

Anos depois, sua história passou a representar uma das faces mais duras da guerra moderna.

Entre o Tinder e o campo de batalha existe uma distância enorme.

Mas, na trajetória de Ada, os dois acabaram ligados por uma sequência de acontecimentos que mudou sua vida para sempre.

Ela perdeu as duas pernas, mas não abandonou a ideia de voltar.

E foi sobre duas próteses que Ada encontrou uma maneira de continuar caminhando.

QUANDO A ALEMANHA FOI DOIS PAÍSES!

 A história da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental

Durante 45 anos, a Alemanha esteve dividida em dois países. De um lado, a República Federal da Alemanha (RFA), conhecida como Alemanha Ocidental, alinhada às democracias ocidentais e ao bloco liderado pelos Estados Unidos. Do outro, a República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha Oriental, integrada ao bloco socialista sob influência da União Soviética. A divisão não foi apenas geográfica: representou uma das maiores disputas políticas, econômicas e ideológicas do século XX.

A história começou depois da Segunda Guerra Mundial. Derrotada em 1945, a Alemanha foi ocupada pelas potências vencedoras — Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França. O território alemão foi dividido em quatro zonas de ocupação, enquanto a capital, Berlim, localizada dentro da área controlada pelos soviéticos, também foi dividida entre as quatro potências.

O que inicialmente deveria ser uma administração conjunta acabou se transformando em uma separação política cada vez mais profunda. As antigas alianças da guerra deram lugar à Guerra Fria, colocando Estados Unidos e União Soviética em lados opostos.

Em 1949, a divisão tornou-se oficial. Em 23 de maio daquele ano foi criada a República Federal da Alemanha, no território administrado pelas potências ocidentais. Em 7 de outubro, surgiu a República Democrática Alemã, na zona de ocupação soviética.

A partir daquele momento, passaram a existir duas Alemanhas.

DOIS MODELOS, UMA MESMA HISTÓRIA

A Alemanha Ocidental desenvolveu uma economia social de mercado e tornou-se uma das principais economias da Europa. A reconstrução do país foi acelerada pelo chamado Milagre Econômico Alemão, acompanhado pela integração com as democracias ocidentais.

A Alemanha Oriental seguiu o modelo socialista de economia planejada. O Estado assumiu grande parte do controle sobre a produção, as empresas e a organização econômica. Politicamente, o Partido Socialista Unificado da Alemanha dominava o sistema.

A diferença entre os dois países podia ser percebida em praticamente todos os aspectos da vida cotidiana: política, economia, imprensa, viagens, consumo, educação e relações internacionais.

Mas havia algo que os dois países tinham em comum: milhões de pessoas continuavam ligadas por famílias, memórias, cidades e uma história compartilhada.

BERLIM: A CIDADE DIVIDIDA

Nenhum lugar simbolizou melhor essa divisão do que Berlim.

Embora estivesse localizada dentro da Alemanha Oriental, a cidade também havia sido dividida em setores controlados pelas quatro potências vencedoras. Com o passar dos anos, Berlim Ocidental transformou-se em uma espécie de ilha política e econômica dentro do território socialista.

Em 1961, o governo da Alemanha Oriental decidiu fechar as passagens entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental e iniciou a construção do Muro de Berlim.

A barreira rapidamente se transformou no maior símbolo físico da Guerra Fria.

O muro não era simplesmente uma parede. O sistema de fronteira incluía cercas, torres de vigilância, iluminação, áreas de segurança e patrulhamento armado. A tentativa de atravessar ilegalmente poderia resultar em prisão e, em determinados períodos, havia risco de morte.

Famílias foram separadas. Pessoas que trabalhavam de um lado passaram a não conseguir chegar ao outro. Ruas foram interrompidas e uma cidade que durante séculos funcionara como um espaço integrado passou a viver em duas realidades.

O MURO QUE VIROU SÍMBOLO

Durante décadas, o Muro de Berlim representou a própria divisão do mundo.

De um lado estava o Ocidente, associado ao capitalismo e às democracias liberais. Do outro, o bloco socialista liderado pela União Soviética.

Berlim tornou-se um dos principais pontos de tensão da Guerra Fria. A cidade recebeu manifestações, discursos históricos e confrontos diplomáticos que ultrapassavam as fronteiras alemãs.

Ao mesmo tempo, a vida seguia.

Na Alemanha Ocidental, empresas como Volkswagen, Mercedes-Benz, BMW e Porsche ajudaram a construir uma poderosa indústria automobilística. Na Alemanha Oriental, marcas como Trabant e Wartburg tornaram-se símbolos de uma realidade industrial completamente diferente.

Até os automóveis passaram a representar os dois sistemas.

O Trabant, produzido na Alemanha Oriental, tornou-se conhecido por sua simplicidade e pela dificuldade de aquisição. Do outro lado da fronteira, a indústria automobilística ocidental produzia veículos cada vez mais sofisticados e exportados para diversos mercados.

DUAS ALEMANHAS NO ESPORTE

A divisão também chegou ao esporte.

Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental competiram separadamente em diversas competições internacionais. Atletas dos dois países disputavam medalhas enquanto seus governos utilizavam o desempenho esportivo como demonstração de capacidade nacional.

A Alemanha Oriental, em particular, desenvolveu um sistema esportivo altamente organizado, que produziu resultados expressivos em competições internacionais.

O futebol também carregava a divisão. A Alemanha Ocidental tornou-se uma das grandes potências do esporte mundial e conquistou a Copa do Mundo de 1954, 1974 e 1990.

A Alemanha Oriental teve uma trajetória internacional diferente. Um de seus momentos mais lembrados aconteceu na Copa do Mundo de 1974, realizada justamente na Alemanha Ocidental.

No torneio, as duas Alemanhas chegaram a se enfrentar.

Em 22 de junho de 1974, no estádio de Hamburgo, a Alemanha Oriental venceu a Alemanha Ocidental por 1 a 0. O gol de Jürgen Sparwasser entrou para a história como um dos capítulos mais curiosos da divisão alemã.

Pouco mais de 16 anos depois, a história seria completamente diferente.

O COMEÇO DO FIM

Na década de 1980, a situação começou a mudar.

A União Soviética enfrentava profundas dificuldades econômicas e políticas. Com Mikhail Gorbachev no comando, reformas como a perestroika e a glasnost modificaram a relação de Moscou com os países do bloco socialista.

Na Alemanha Oriental, manifestações populares cresceram.

Milhares de pessoas passaram a exigir reformas políticas, liberdade de circulação e mudanças no sistema. Ao mesmo tempo, cidadãos da Alemanha Oriental começaram a buscar maneiras de deixar o país através de outros Estados do bloco socialista.

A pressão tornou-se cada vez maior.

Em 9 de novembro de 1989, aconteceu um dos momentos mais importantes do século XX.

Durante uma coletiva de imprensa, o dirigente da Alemanha Oriental Günter Schabowski anunciou novas regras para viagens. Ao ser questionado sobre quando as novas regras entrariam em vigor, respondeu que seriam válidas imediatamente.

A notícia espalhou-se rapidamente.

Milhares de pessoas foram para os postos de passagem do Muro de Berlim.

Os guardas, diante da multidão e sem instruções claras sobre como agir, acabaram permitindo a passagem.

O muro, que durante quase três décadas havia separado famílias e simbolizado a Guerra Fria, começou a ser atravessado.

A população passou a comemorar sobre a própria barreira.

3 DE OUTUBRO DE 1990

A queda do Muro de Berlim não significou a reunificação imediata.

Durante os meses seguintes, negociações políticas definiram como ocorreria a união dos dois países. Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França também participaram das discussões relacionadas ao futuro da Alemanha.

O processo culminou no Tratado Dois Mais Quatro, que estabeleceu as condições internacionais para a reunificação alemã.

Finalmente, em 3 de outubro de 1990, a República Democrática Alemã deixou de existir como Estado independente e seus territórios passaram a integrar a República Federal da Alemanha.

A Alemanha estava novamente unificada.

Berlim tornou-se a capital da Alemanha reunificada, e o país iniciou um longo processo de integração política, econômica e social.

UMA CICATRIZ QUE AINDA EXISTE

Mais de três décadas depois da reunificação, algumas diferenças entre as antigas regiões oriental e ocidental ainda podem ser percebidas em indicadores econômicos, demográficos e sociais.

Mas a divisão deixou também uma herança cultural única.

Hoje, pedaços do antigo Muro de Berlim estão espalhados pela cidade e pelo mundo. Alguns foram preservados como monumentos; outros desapareceram durante a transformação urbana que veio depois de 1989.

O que permanece é a memória de uma época em que uma mesma nação viveu durante décadas em dois sistemas diferentes.

A Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental foram muito mais do que dois governos separados por uma fronteira. Foram duas experiências históricas que cresceram lado a lado durante a Guerra Fria.

E talvez a imagem mais poderosa dessa história continue sendo aquela noite de novembro de 1989: pessoas comuns subindo no muro, abraçando desconhecidos e atravessando uma fronteira que durante décadas parecia impossível de desaparecer.

Durante 41 anos existiram duas Alemanhas. Durante 28 anos, Berlim foi cortada por um muro. E, em 3 de outubro de 1990, um país dividido voltou a ser um só.

A história da Alemanha mostra que fronteiras podem parecer permanentes quando são construídas, mas também podem desaparecer quando as circunstâncias políticas e, principalmente, as pessoas mudam.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

MESSI DÁ ADEUS À ARGENTINA

 O último tango do camisa 10 termina com vitória, emoção e uma noite inesquecível no Monumental


6 de outubro de 2026 ficará marcado para sempre na história do futebol argentino. No Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, diante de uma multidão que transformou o estádio em um gigantesco palco de celebração, Lionel Messi vestiu pela última vez a camisa da seleção argentina. Aos 39 anos, o camisa 10 entrou em campo para encerrar oficialmente uma história de mais de duas décadas com a Albiceleste. O adversário era o Benin, mas naquela noite o resultado parecia ser apenas um detalhe diante da dimensão do momento. A Argentina venceu por 3 a 0, e Messi deixou o gramado cercado por aplausos, lágrimas, homenagens e a certeza de que uma das maiores eras da história da seleção chegava ao fim. A partida havia sido anunciada pela Associação do Futebol Argentino como a despedida que o ídolo merecia, e o Monumental respondeu à altura.

Desde antes do apito inicial, a atmosfera já era completamente diferente de uma partida amistosa convencional. O Monumental estava lotado, com mais de 85 mil torcedores, muitos deles usando a camisa 10 e carregando cartazes de agradecimento. Messi entrou no gramado acompanhado pelos filhos e se emocionou durante o hino argentino. Lionel Scaloni também não conseguiu esconder a emoção. No campo, uma enorme camisa com o número 10 e a palavra “Gracias” ajudava a transformar o estádio em um memorial vivo para uma trajetória que começou ainda na juventude e atravessou gerações. O momento mais simbólico aconteceu aos dez minutos, quando a partida foi interrompida para que o público pudesse prestar uma longa homenagem ao jogador. O estádio inteiro se levantou, e o nome de Messi ecoou por Núñez.

Era difícil não pensar em tudo o que aconteceu desde a estreia de Messi pela seleção principal. Foram anos de pressão, críticas, derrotas dolorosas e, finalmente, uma sequência de conquistas que transformou definitivamente sua relação com o torcedor argentino. A Copa América de 2021 representou o primeiro grande título com a seleção principal. Depois vieram a Finalíssima e, principalmente, a Copa do Mundo de 2022, no Catar, competição em que Messi finalmente levantou o troféu mais desejado de sua carreira. Em 2024, a Argentina voltou a conquistar a Copa América. O camisa 10 passou de jogador contestado em determinados momentos para capitão absoluto de uma geração vencedora.

E o último capítulo não poderia ser apenas uma cerimônia. Messi queria jogar. Queria estar em campo. Queria tocar na bola, participar das jogadas e sentir novamente a camisa que vestiu durante 21 anos. E foi exatamente isso que aconteceu. A Argentina começou a construir a vitória no segundo tempo, com Nicolás Otamendi abrindo o placar após assistência de Messi. Depois, Nico Paz ampliou a vantagem, novamente com participação decisiva do camisa 10. Aos 70 minutos, veio o momento que parecia escrito para aquela noite: Messi marcou de pênalti e fez o terceiro gol argentino, o último de sua carreira pela seleção.

O placar de Argentina 3 x 0 Benin fechou a noite com uma vitória que combinou perfeitamente com a dimensão da despedida. Messi não saiu de cena apenas como um homenageado. Saiu como protagonista dentro de campo. O gol de pênalti foi seu último grito pela Argentina, enquanto as duas assistências reforçaram uma característica que marcou a fase final de sua carreira internacional: a capacidade de controlar o jogo, criar oportunidades e transformar cada toque na bola em possibilidade de gol.

A despedida também teve seus símbolos. Messi recebeu homenagens especiais antes e durante o jogo, incluindo uma lembrança entregue pelo capitão do Benin. Ao final, a bola da partida e os elementos simbólicos relacionados ao último jogo passaram a representar objetos de uma noite que dificilmente será repetida. O camisa 10 deixava o gramado levando consigo muito mais do que lembranças de uma partida: carregava 21 anos de histórias, conquistas, derrotas, amizades e uma relação única com a torcida argentina.

Messi encerra sua trajetória pela seleção como o maior artilheiro e o jogador com mais partidas da história argentina. Ao longo desse caminho, foram 208 aparições pela seleção e 126 gols, números que colocam seu nome definitivamente entre os maiores da história do futebol mundial. Mas estatísticas, por maiores que sejam, não conseguem explicar completamente a dimensão de sua passagem pela Albiceleste. Messi não foi apenas o jogador que marcou gols. Foi o homem que carregou durante anos o peso de representar uma seleção que comparava cada novo craque a Diego Maradona. Foi o jogador que precisou conviver com críticas, derrotas em finais e questionamentos até transformar sua história em uma das maiores narrativas esportivas do século.

Durante muito tempo, a relação entre Messi e a seleção argentina foi marcada por uma espécie de cobrança permanente. O talento que encantava Barcelona e o mundo precisava, na visão de muitos torcedores, produzir o mesmo impacto com a camisa azul e branca. As derrotas nas finais da Copa América de 2015 e 2016 aumentaram a pressão. Messi chegou a anunciar uma breve aposentadoria da seleção em 2016, mas voltou. E voltou para construir a parte mais gloriosa de sua história internacional.

A partir de 2021, tudo mudou. A conquista da Copa América no Brasil abriu uma nova fase. Messi passou a jogar com outro peso, outra confiança e outro ambiente ao seu redor. A Argentina encontrou estabilidade sob Lionel Scaloni, e o camisa 10 encontrou finalmente os títulos que durante tanto tempo pareceram escapar. A Finalíssima de 2022, a Copa do Mundo do Catar e a Copa América de 2024 formaram uma sequência extraordinária. O jogador que durante anos foi cobrado por não conquistar títulos com a seleção passou a ser lembrado justamente por liderar uma geração que devolveu à Argentina o protagonismo mundial.

Por isso, a despedida contra o Benin teve um significado tão grande. Não era simplesmente o último jogo de um jogador. Era o encerramento de uma era. A camisa 10, que durante tantos anos esteve associada exclusivamente à figura de Messi, agora entra em um novo capítulo. Outros jogadores poderão vestir o número, mas será impossível separar a camisa da imagem do argentino durante muito tempo.

Quando o árbitro encerrou a partida, começou o momento que ninguém queria que chegasse. Messi cumprimentou companheiros, abraçou jogadores e recebeu o carinho de uma torcida que aprendeu a transformar seu nome em símbolo nacional. O Monumental cantou, aplaudiu e agradeceu. Depois de 21 anos, o camisa 10 dava adeus à seleção argentina.

Não foi uma despedida silenciosa. Foi uma celebração.

Messi saiu de campo como entrou na história: com a bola nos pés, a camisa 10 nas costas e milhões de pessoas olhando para ele.

O futebol argentino continuará existindo. Novos jogadores aparecerão. Novas gerações disputarão Copas do Mundo. Novos ídolos serão criados. Mas a era Messi terminou de uma maneira que parecia impossível imaginar anos atrás: com uma seleção campeã, uma torcida apaixonada, uma vitória por 3 a 0 e o seu maior ídolo sendo homenageado em casa.

Lionel Messi disse adeus à Argentina.

Depois de 21 anos, o último tango terminou.

E, no Monumental de Núñez, ninguém queria que a música acabasse.

“OBRA INCONFUNDÍVEL”

 Joinville se despede de Juarez Machado, artista que marcou gerações com humor e irreverência


A tarde chuvosa em Joinville veio acompanhada de uma notícia que representa uma perda simbólica para a cultura brasileira. Aos 85 anos, morreu Juarez Machado, um dos artistas mais reconhecidos e originais de sua geração, dono de uma linguagem visual imediatamente identificável e de uma trajetória construída entre o desenho, a pintura, a ilustração, o teatro, o humor e a observação do cotidiano. A morte foi confirmada pela família nesta terça-feira (6). Juarez enfrentava um quadro de Alzheimer e havia sido diagnosticado com pneumonia, permanecendo sob cuidados médicos desde a semana anterior, no interior do Rio de Janeiro. A notícia rapidamente repercutiu em Joinville, cidade onde nasceu e que sempre esteve profundamente ligada à sua história, à sua formação e à construção de sua identidade artística.

Juarez Machado nasceu em Joinville e desde muito cedo demonstrou uma relação especial com o desenho e com as possibilidades de transformar situações aparentemente comuns em imagens carregadas de personalidade. Seu trabalho nunca esteve preso a uma única linguagem. Ao contrário, sua carreira foi marcada justamente pela capacidade de transitar entre diferentes formas de expressão sem perder aquilo que se tornou sua principal assinatura: o humor. Em suas obras, personagens elegantes, cenas urbanas, casais, músicos, bares, boêmios e situações do cotidiano apareciam carregados de ironia, movimento e uma espécie de teatralidade silenciosa. Era como se cada quadro contasse uma história antes mesmo de qualquer palavra ser pronunciada.

Essa capacidade de contar histórias por meio de imagens fez de Juarez Machado um artista popular sem abrir mão da sofisticação. Seu universo visual conquistou públicos diferentes e ultrapassou fronteiras. O artista construiu uma carreira internacional, viveu e trabalhou em diferentes lugares, especialmente na França, mas jamais perdeu a ligação com Joinville. A cidade permaneceu como uma espécie de ponto de origem de sua memória artística, o lugar onde sua trajetória começou e onde sua obra passou a fazer parte da própria identidade cultural local. Ao longo das décadas, Juarez deixou de ser apenas um nome importante das artes plásticas para se transformar em um personagem da história cultural de Joinville.

Sua produção também ficou conhecida pela presença constante do humor e da irreverência. Juarez Machado não precisava recorrer ao exagero para provocar o sorriso. Muitas vezes, bastava uma expressão, uma postura corporal, um olhar ou uma situação cotidiana cuidadosamente construída. Seus personagens pareciam viver em um mundo próprio, onde o comportamento humano era observado com uma mistura de carinho, ironia e diversão. Havia sempre alguma coisa acontecendo nas cenas, mesmo quando aparentemente nada acontecia. Essa característica ajudou a tornar sua obra reconhecível de imediato.

Ao longo de sua carreira, Juarez também esteve ligado à ilustração, ao desenho e à comunicação visual, áreas que ajudaram a ampliar ainda mais seu alcance. Seu traço tornou-se conhecido por uma combinação de elegância e espontaneidade, capaz de transformar pequenas situações em grandes narrativas. O artista compreendia que uma imagem não precisava explicar tudo. Muitas vezes, justamente aquilo que ficava sugerido era o que despertava a curiosidade do observador. Seu trabalho convidava o público a completar a história.

A relação com o humor vinha também de sua personalidade artística. Juarez Machado tinha a capacidade de olhar para a sociedade sem a necessidade de assumir uma postura excessivamente solene. Seu trabalho lembrava que a arte também pode provocar, divertir e questionar. Em vez de apresentar personagens perfeitos, mostrava pessoas com seus desejos, vaidades, contradições e pequenas fraquezas. O resultado era uma obra profundamente humana, capaz de aproximar o espectador justamente porque reconhecia comportamentos que fazem parte da vida cotidiana.

A trajetória internacional ampliou a dimensão de sua obra, mas não apagou suas raízes. Juarez Machado carregou Joinville consigo. A cidade que o viu nascer tornou-se parte importante de sua memória e de seu legado. Seu nome passou a estar associado à produção cultural joinvilense, e sua obra ganhou espaço definitivo entre as referências artísticas que ajudaram a projetar a cidade para além de Santa Catarina. Para muitas gerações, Juarez não era apenas um artista nascido em Joinville. Era uma representação de uma cidade que também aprendeu a enxergar sua própria cultura através de seus personagens.

A notícia de sua morte, portanto, não representa apenas a despedida de um pintor. É também o encerramento de um capítulo importante da cultura brasileira. Juarez Machado pertence a uma geração de artistas que conseguiram construir uma linguagem própria em um período de profundas transformações no país e no mundo. Sua obra atravessou décadas sem perder a capacidade de despertar interesse porque não dependia de modismos. Seu humor era atemporal, e seus personagens continuaram encontrando espaço na imaginação do público.

A perda também reforça a importância de preservar a memória de artistas que contribuíram para construir a identidade cultural brasileira. Em uma época marcada pela velocidade das informações e pela substituição constante de referências, obras como as de Juarez Machado permanecem justamente porque possuem personalidade. É possível reconhecer um trabalho seu sem necessariamente precisar procurar a assinatura. A composição, os personagens, o humor, as cores e a atmosfera revelam o autor. Essa é uma das características mais difíceis de alcançar na arte: criar uma identidade tão forte que a obra seja reconhecida antes mesmo de o nome aparecer.

Juarez Machado deixa uma produção extensa e uma influência que não pode ser medida apenas pela quantidade de pinturas ou desenhos realizados. Seu verdadeiro legado está na maneira como ensinou diferentes gerações a olhar para o cotidiano com mais atenção e, principalmente, com mais humor. Ele mostrou que uma cena simples pode esconder uma história, que um personagem pode dizer muito sem pronunciar uma palavra e que a irreverência também pode ser uma forma sofisticada de observar o mundo.

Para Joinville, a despedida tem um significado ainda maior. A cidade perde um de seus filhos mais ilustres, mas permanece com aquilo que nenhum adeus consegue levar: sua obra. Museus, galerias, livros, reproduções, registros e, sobretudo, a memória daqueles que foram influenciados por seu trabalho continuarão mantendo vivo o nome de Juarez Machado. A chuva que marcou a tarde de sua despedida parece criar uma atmosfera quase cinematográfica para o momento, mas sua trajetória está muito além da tristeza de um único dia.

Juarez Machado partiu aos 85 anos, depois de uma vida dedicada à criação. Deixou para trás personagens, histórias e imagens que continuam falando com o público. Deixou também uma lição importante: a arte pode ser séria sem perder o bom humor, pode ser sofisticada sem deixar de ser popular e pode atravessar fronteiras sem abandonar suas raízes.

Joinville se despede do artista, mas não de sua obra. Porque algumas criações sobrevivem ao tempo justamente por terem encontrado uma maneira própria de enxergar o mundo. E Juarez Machado encontrou a sua.

Uma obra inconfundível. Um humor particular. Uma trajetória que atravessou gerações.

E agora, diante da despedida, fica a certeza de que Juarez Machado continuará presente exatamente onde sempre esteve: nas imagens, nas histórias e no olhar de quem aprendeu a enxergar a vida com um pouco mais de ironia, sensibilidade e irreverência.