domingo, 21 de junho de 2026

ENCOL: A FALÊNCIA QUE MUDOU O MERCADO IMOBILIÁRIO BRASILEIRO

 Quando o sonho da casa própria virou um pesadelo nacional


Durante décadas, comprar um imóvel na planta foi visto como uma das formas mais acessíveis de conquistar a casa própria. Parcelas menores, condições facilitadas e a promessa de valorização atraíam milhares de brasileiros.

Mas, no fim dos anos 1990, um dos maiores colapsos empresariais da história do país mostrou que o sonho também podia se transformar em um enorme pesadelo.

A história da construtora Encol ainda é lembrada como um dos casos mais dramáticos do mercado imobiliário nacional. Considerada a maior construtora do Brasil em seu auge, a empresa entrou em colapso financeiro e deixou um rastro de obras paralisadas, famílias endividadas e milhares de apartamentos que jamais foram entregues.

A falência da Encol não afetou apenas compradores. Ela abalou a confiança de todo o setor da construção civil e levou o governo a criar mecanismos de proteção que mudaram para sempre a forma como os empreendimentos imobiliários são financiados.

O império que parecia inabalável

Fundada em 1961, em Goiânia, a Encol cresceu de forma impressionante durante as décadas seguintes.

No auge de suas operações, a empresa estava presente em diversas cidades brasileiras, empregava milhares de trabalhadores e acumulava centenas de empreendimentos residenciais e comerciais.

Sua marca era sinônimo de confiança para muitos consumidores.

No entanto, por trás da expansão acelerada existia um problema estrutural que, com o passar do tempo, se tornaria insustentável.

A construtora dependia de um modelo financeiro altamente arriscado. Recursos arrecadados com novos empreendimentos eram frequentemente utilizados para financiar obras mais antigas. Enquanto as vendas continuavam em ritmo acelerado, o sistema parecia funcionar.

Mas bastou uma desaceleração econômica para que toda a engrenagem começasse a falhar.

A queda que surpreendeu o Brasil

Em 1999, a situação chegou ao limite.

A empresa acumulava dívidas gigantescas, enfrentava dificuldades para concluir empreendimentos e já não conseguia manter o fluxo de caixa necessário para sustentar suas operações.

Quando a falência foi decretada, milhares de compradores descobriram que seus apartamentos não seriam entregues.

Muitas famílias haviam investido todas as economias da vida em imóveis ainda em construção. Algumas continuaram pagando parcelas mesmo sem qualquer garantia de receber as chaves.

Outras precisaram recorrer à Justiça e enfrentaram anos de batalhas judiciais.

O impacto social foi enorme.

Canteiros de obras foram abandonados em várias regiões do país, trabalhadores perderam seus empregos e investidores ficaram sem respostas.

A quebra da Encol tornou-se um símbolo dos riscos existentes no mercado imobiliário quando não há mecanismos adequados de proteção para os compradores.

O que mudou depois da tragédia?

A grande lição deixada pela falência foi simples:

Os recursos de um empreendimento não deveriam ser utilizados para financiar outro.

Para corrigir essa vulnerabilidade, foi criada a Lei nº 10.931/2004, que introduziu um instrumento fundamental para a segurança do setor: o patrimônio de afetação.

Esse mecanismo determina que os recursos financeiros de determinado empreendimento fiquem vinculados exclusivamente àquela obra.

Na prática, o dinheiro pago pelos compradores de um edifício deve ser utilizado apenas na construção daquele projeto específico.

Assim, caso a construtora enfrente dificuldades financeiras, os recursos destinados à obra permanecem protegidos e não podem ser desviados para outros empreendimentos ou para cobrir dívidas gerais da empresa.

A medida trouxe muito mais segurança para consumidores, investidores e instituições financeiras.

O detalhe que poucos compradores verificam

Mesmo mais de duas décadas após a falência da Encol, muitos compradores ainda não sabem da existência do patrimônio de afetação.

Antes de assinar um contrato de compra de imóvel na planta, especialistas recomendam verificar:

Se o empreendimento possui patrimônio de afetação registrado;

A reputação da construtora;

O histórico de entregas da empresa;

A situação jurídica do empreendimento;

O registro da incorporação imobiliária;

A documentação disponibilizada ao comprador.


Embora nenhum investimento seja totalmente livre de riscos, essas verificações ajudam a reduzir significativamente a possibilidade de problemas futuros.

Uma lição que continua atual

A história da Encol permanece como um dos episódios mais importantes da economia brasileira.

Ela mostrou que tamanho e reputação não garantem estabilidade financeira e que a proteção do consumidor precisa estar presente desde o início de qualquer negociação.

Milhares de famílias aprenderam essa lição da forma mais difícil possível.

Hoje, graças às mudanças implementadas após aquela crise, o mercado imobiliário é mais seguro do que era nos anos 1990.

Ainda assim, a melhor proteção continua sendo a informação.

Antes de comprar um imóvel na planta, vale fazer uma pergunta simples:

O dinheiro desta obra está realmente protegido?

A resposta pode fazer toda a diferença entre realizar um sonho ou enfrentar um problema que pode durar muitos anos.

sábado, 20 de junho de 2026

O PRIMEIRO SEDÃ DE SUCESSO DA FORD NO BRASIL

 Poucos carros conseguiram representar tão bem uma época quanto o Ford Corcel. Mais do que um automóvel, ele virou símbolo de mobilidade para milhares de brasileiros e ajudou a consolidar a presença da no país em um momento de transformação da indústria nacional.


Quando a montadora americana concluiu a compra da Willys-Overland do Brasil, em 1967, herdou estruturas, fábricas e projetos que ainda estavam em desenvolvimento. Entre eles estava justamente o veículo que se tornaria um dos maiores sucessos comerciais da empresa por aqui.

O nome escolhido foi Corcel, inspirado na tendência adotada pela marca após o lançamento do icônico Ford Mustang, reforçando a associação com força e velocidade.

Compacto, elegante e econômico, o primeiro Corcel caiu rapidamente no gosto do consumidor brasileiro. Seus faróis redondos, linhas equilibradas e mecânica confiável fizeram dele uma opção moderna e acessível para a época. O reconhecimento veio cedo: o modelo foi eleito Carro do Ano pela revista Autoesporte em 1969 e novamente em 1973.

Mas o mercado mudou depressa.

Na segunda metade da década de 1970, a concorrência apertou. Novos rivais disputavam espaço nas ruas brasileiras, como o Fiat 147, o Chevrolet Chevette e a Volkswagen Variant II.

A Ford precisava reagir.

Foi então que, em 1977, nasceu o Corcel II.

Visualmente, ele trazia linhas mais retas e modernas, acompanhando a tendência mundial do design automotivo. A carroceria ganhou aparência mais sofisticada e um estilo mais robusto, enquanto o interior buscava transmitir conforto e refinamento.

Sob o capô, o sedã mantinha a conhecida fórmula de equilíbrio: motor 1.4 aspirado de quatro cilindros, entregando 72 cavalos de potência e 11,5 kgfm de torque. Instalado na dianteira e ligado ao câmbio manual de quatro marchas, oferecia desempenho honesto e ótimo consumo — um ponto essencial em tempos de combustível caro e economia instável.

A cabine era compacta. Os 2,44 metros de entre-eixos limitavam o espaço interno, especialmente para quem viajava no banco traseiro. Em compensação, o porta-malas surpreendia: eram 380 litros de capacidade, um número bastante competitivo para a categoria.

Na versão GT, alguns detalhes chamavam atenção e davam personalidade ao carro, como o volante esportivo de três raios — um verdadeiro charme para os apaixonados por automóveis.

Mesmo com uma plataforma derivada de projetos Renault da década de 1960, que já mostrava sinais de envelhecimento no começo dos anos 1980, o Corcel II conseguiu se manter relevante.

A produção seguiu firme até 1986.

Ao deixar as linhas de montagem, abriu espaço para o Ford Verona. O sucessor, porém, não repetiu o mesmo impacto nas vendas nem conquistou a mesma conexão emocional com o público.

O Corcel deixou um legado raro.

Foi carro de família, de trabalho, de viagens longas e de muitas primeiras conquistas. Esteve presente em cidades grandes e pequenas, cruzou estradas de norte a sul e se tornou parte da memória afetiva de uma geração inteira.

Décadas depois, continua sendo lembrado com carinho por colecionadores e admiradores como um dos modelos mais importantes da história da Ford no Brasil.

E talvez esse seja seu maior feito:

mais do que vender bem, o Corcel conseguiu algo que poucos automóveis alcançam — tornou-se inesquecível.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O DETALHE QUE FEZ A TAM ENFRENTAR A VARIG

 Como o Comandante Rolim descobriu que a maior vantagem competitiva não estava no avião, mas na emoção do passageiro

Durante décadas, a aviação comercial brasileira teve uma gigante absoluta. A Varig era sinônimo de voar. Possuía uma marca forte, reconhecimento internacional e uma estrutura que parecia impossível de ser superada.

Enquanto isso, no interior de São Paulo, uma companhia menor começava a crescer silenciosamente. A TAM ainda estava longe de alcançar o tamanho da concorrente, mas tinha algo que faria toda a diferença: um líder disposto a observar aquilo que ninguém mais enxergava.

O comandante Rolim Amaro entendia que competir apenas com preço ou redução de custos seria uma batalha difícil. Em vez disso, decidiu fazer algo simples e ao mesmo tempo revolucionário: sentar-se entre os passageiros e observar.

Ele queria compreender a experiência real de quem voava.

Foi então que percebeu um momento que passava despercebido por quase todas as companhias aéreas.

Não era durante o voo.

Não era no desembarque.

Era nos poucos minutos entre o fechamento da porta da aeronave e o início da decolagem.

Naquele instante, muitos passageiros demonstravam ansiedade. Alguns apertavam os braços da poltrona. Outros respiravam profundamente. Havia quem observasse pela janela em silêncio e quem simplesmente tentasse disfarçar o medo de voar.

Rolim percebeu que aquele não era apenas um processo operacional.

Era um momento emocional.

E quem conseguisse cuidar da emoção do cliente conquistaria algo muito mais valioso do que uma venda: conquistaria confiança.

A partir dessa percepção nasceram diversas iniciativas que se tornaram marcas registradas da TAM. As famosas balinhas distribuídas a bordo, o tapete vermelho no embarque e o atendimento caloroso não eram apenas ações de marketing.

Eram ferramentas para reduzir a tensão, transmitir acolhimento e fazer o passageiro sentir que estava sendo tratado como alguém especial.

O avião podia ser semelhante ao da concorrência.

O trajeto podia ser o mesmo.

Mas a sensação era completamente diferente.A LIÇÃO QUE VALE PARA QUALQUER NEGÓCIO

A história do comandante Rolim continua atual porque mostra uma verdade que muitos empresários ainda ignoram.

Clientes raramente se lembram de processos.

Eles se lembram de sensações.

Em praticamente todo negócio existe um "momento invisível". Um instante que parece pequeno para a empresa, mas que pode ser enorme para quem está do outro lado.

Pode ser o tempo de espera antes de um atendimento.

A ansiedade antes da entrega de um produto.

A primeira ligação para solicitar um serviço.

A insegurança de quem está fechando um contrato.

Ou até mesmo o silêncio depois de uma compra importante.

São momentos que muitas vezes não aparecem nos relatórios, não geram indicadores diretos e dificilmente entram nas reuniões estratégicas. Porém, são justamente eles que definem a percepção do cliente.

Empresas que enxergam esses detalhes criam conexões mais profundas.

Elas deixam de vender apenas produtos e passam a oferecer experiências.

Foi exatamente isso que permitiu à TAM construir uma relação diferenciada com seus passageiros e, ao longo dos anos, transformar-se em uma das maiores companhias aéreas do país.

A grande lição deixada por Rolim é simples:

Nem sempre a inovação está em criar algo novo.

Às vezes, ela está em perceber aquilo que todos veem, mas ninguém observa.

Enquanto muitos concorrentes analisavam números, aeronaves e custos operacionais, ele estudava emoções.

E foi justamente esse olhar humano que ajudou uma empresa menor a desafiar uma gigante.

Talvez a próxima grande oportunidade do seu negócio também esteja escondida em um detalhe aparentemente insignificante.

A pergunta é:

Qual é o momento invisível que você ainda não percebeu?Título alternativo para capa:
"O Segredo de Rolim: Como Cinco Minutos Mudaram a História da TAM".

Edifício Washington: a curva elegante que desafia o concreto no coração de São Paulo

 Quem caminha pelo Minhocão aos finais de semana talvez nem perceba de imediato, entre tantos prédios e o movimento urbano, uma construção que parece fugir da rigidez da cidade. Em meio às linhas retas da Avenida São João, o Edifício Washington surge como uma espécie de gesto arquitetônico inesperado: sua fachada curva rompe com a paisagem tradicional e cria um desenho fluido, quase orgânico, em pleno centro paulistano.

Projetado em 1948 pelo arquiteto e construtor judeu-polononês Bernardo Rzezak, o edifício é um daqueles raros exemplos de arquitetura que conseguem envelhecer sem perder personalidade. Enquanto boa parte das construções ao redor segue o alinhamento reto da avenida, o Washington serpenteia discretamente, criando varandas e volumes que transformam a fachada em movimento. É uma presença elegante e ousada ao mesmo tempo.

Uma obra moderna antes do Minhocão

Quando Bernardo Rzezak desenhou o edifício, a região vivia outra realidade. O elevado ainda não existia. A Avenida São João era um dos símbolos da expansão urbana de São Paulo e reunia parte do que havia de mais vibrante no desenvolvimento da cidade.

Naquele período, a capital paulista consolidava sua transformação em metrópole. A arquitetura moderna começava a ganhar força e trazia novas ideias: funcionalidade, integração entre forma e espaço e uma estética mais livre das referências clássicas do passado.

O Edifício Washington nasceu exatamente nesse contexto. E trouxe consigo uma proposta visual diferente do que era comum na época. Sua fachada curva, incomum para os padrões paulistanos do final dos anos 1940, dava ao prédio uma identidade própria — quase como se anunciasse uma nova linguagem arquitetônica.

Outro detalhe chama atenção: as treliças aparentes que marcam a fachada. Mesmo não exercendo uma função estrutural evidente, elas ajudam a construir a personalidade visual do prédio e reforçam sua estética moderna.

Curvas que contam uma história

São Paulo possui alguns edifícios famosos pelas linhas sinuosas. O mais conhecido é o Edifício Copan, assinado por Oscar Niemeyer. Há também o Edifício Racy, outro exemplo lembrado por quem aprecia a arquitetura moderna da capital.

Mas o Washington tem personalidade própria.

Sua curva não busca monumentalidade. Ela dialoga diretamente com a escala da avenida e com quem observa o prédio do nível da rua ou do elevado. É uma arquitetura mais silenciosa, porém extremamente marcante.

Especialistas também enxergam relação entre a obra e experiências modernas pioneiras brasileiras, como o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho), no Rio de Janeiro. Assim como no Pedregulho, existe no Washington a ideia de movimento e adaptação do edifício à paisagem urbana.

Um detalhe raro: jardim sobre a cidade

Além da fachada, o prédio guarda uma característica pouco comum para sua época: a cobertura com teto-jardim.

Hoje essa ideia é valorizada como solução estética e ambiental, mas nos anos 1940 era uma proposta bastante avançada. Criar um espaço aberto e verde no topo de um edifício residencial era quase uma antecipação de conceitos urbanos que só ganhariam força décadas depois.

Esse elemento reforça o caráter visionário do projeto de Rzezak.

A Avenida São João como galeria de arquitetura

Observar o Edifício Washington também é uma oportunidade de olhar com mais atenção para a própria Avenida São João.

A região reúne diferentes fases da arquitetura paulistana.

Ali convivem construções ecléticas do início do século XX, edifícios de traços indefinidos, prédios residenciais e comerciais de diversas décadas e marcos históricos como o Edifício Martinelli, inaugurado no fim dos anos 1920, e o antigo Edifício do Banco do Estado de São Paulo, da década de 1940.

É quase uma linha do tempo em forma de avenida.

E dentro desse cenário, o Washington ocupa um lugar especial: não pelo tamanho ou pela imponência, mas pela capacidade de transformar concreto em linguagem.

Um patrimônio vivo

Mais de sete décadas depois, o Edifício Washington continua bem preservado.

São 10 pavimentos, 5.218 metros quadrados de área construída em um terreno de 532 metros quadrados. Mas os números contam apenas parte da história.

O valor real do prédio está no que ele representa: um capítulo importante da arquitetura moderna paulistana, uma assinatura singular de Bernardo Rzezak e um lembrete de que São Paulo guarda preciosidades em lugares onde muita gente passa sem perceber.

No meio do concreto, entre buzinas, trilhos e a pressa do centro, ele continua ali.

Curvo.

Elegante.

E impossível de ignorar para quem decide olhar para cima.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

AUSCHWITZ

 O lugar onde o mundo viu até onde o ódio pode chegar — e por que lembrar continua sendo necessário

The Holocaust não foi apenas um capítulo sombrio da história.

Foi uma ruptura.

Um momento em que a humanidade precisou encarar, sem metáforas, até onde pode chegar quando o preconceito deixa de ser discurso e passa a virar sistema.

Entre todos os símbolos daquele período, nenhum se tornou tão marcante quanto Auschwitz concentration camp.

Mais do que um campo de concentração.

Mais do que um lugar cercado por arame farpado.

Auschwitz se tornou o retrato mais brutal do que acontece quando o ódio é transformado em política de Estado — e a vida humana passa a ser tratada como algo descartável.

Janeiro de 1945: o portão que revelou o impossível

Era janeiro de 1945.

O inverno cobria a Polônia ocupada.

Quando tropas soviéticas avançaram até Auschwitz, esperavam encontrar uma instalação militar abandonada.

Mas o que viram parecia impossível de compreender.

Barracões vazios.

Fumaça ainda subindo ao longe.

Corpos espalhados.

Objetos abandonados.

E sobreviventes em estado extremo de fome e exaustão.

Crianças esqueléticas.

Adultos sem forças para ficar de pé.

Pessoas que ainda respiravam — mas carregavam no olhar algo impossível de descrever.

O silêncio do lugar impressionou tanto quanto a destruição.

Porque ali a violência tinha deixado marcas físicas.

E também um vazio que nenhum sobrevivente esqueceria.

Como Auschwitz se tornou uma máquina de morte

No início, Auschwitz foi criado pelos nazistas como campo de prisioneiros políticos na Polônia ocupada.

Mas o complexo cresceu.

E rapidamente deixou de ser apenas uma prisão.

Virou uma engrenagem de extermínio.

O maior símbolo da política genocida comandada pelo regime de Adolf Hitler.

Os trens chegavam sem parar.

Vagões lotados.

Homens, mulheres, idosos e crianças viajavam durante dias sem água e sem comida.

Sem saber exatamente para onde estavam indo.

Ao desembarcarem, tudo era decidido em segundos.

Uma fila.

Um olhar.

Um gesto.

De um lado, trabalho forçado temporário.

Do outro, a morte imediata.

Muitas famílias eram separadas naquele instante.

E nunca mais se viam.

Dentro do campo, nomes deixavam de existir.

Cada pessoa virava um número tatuado na pele.

Cabelos eram raspados.

Pertences confiscados.

Roupas retiradas.

A identidade apagada aos poucos.

Até restar apenas sobrevivência.

Eficiência usada para destruir

Talvez um dos aspectos mais perturbadores de Auschwitz tenha sido justamente a organização.

Nada ali era improvisado.

A estrutura funcionava com uma lógica fria e precisa.

Transporte.

Capacidade.

Horários.

Controle.

Registro.

Cada detalhe era calculado.

Os nazistas aplicaram planejamento industrial à morte.

Usaram infraestrutura ferroviária, tecnologia e burocracia para exterminar pessoas em escala gigantesca.

Era administração voltada para eliminar vidas humanas.

Uma eficiência construída para destruir.

E é isso que torna Auschwitz ainda mais difícil de compreender.

Porque o horror não veio do caos.

Veio da organização.

Do planejamento.

Da normalização do absurdo.

Resistir mesmo quando tudo parecia perdido

Mesmo naquele ambiente extremo, ainda havia resistência.

Prisioneiros escondiam relatos.

Escreviam em segredo.

Desenhavam.

Guardavam nomes.

Dividiam pequenos pedaços de pão.

Compartilhavam informação.

Protegiam crianças quando conseguiam.

E preservavam algo fundamental: a lembrança de que ainda eram humanos.

Pequenos gestos que pareciam mínimos.

Mas que se tornaram enormes diante da brutalidade diária.

Quando a Alemanha começou a perder a guerra, os nazistas tentaram apagar provas.

Documentos foram destruídos.

Estruturas explodidas.

Milhares de presos foram forçados a caminhar em marchas no frio intenso — trajetos que ficaram conhecidos como marchas da morte.

Muitos morreram antes de chegar ao destino.

O que Auschwitz deixou para o mundo

Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas em Auschwitz.

A maioria judeus.

Mas também prisioneiros políticos, ciganos, pessoas com deficiência e outras vítimas perseguidas pelo regime nazista.

Poucos sobreviveram.

E foi por meio desses sobreviventes que o mundo entendeu a dimensão real do que havia acontecido.

Os relatos mostraram não apenas a violência.

Mas a transformação gradual que permitiu aquilo.

Porque genocídios raramente começam de repente.

Eles crescem aos poucos.

Com propaganda repetida.

Com medo incentivado.

Com discursos de desumanização.

Com a ideia perigosa de que alguns grupos valem menos do que outros.

Auschwitz deixou uma verdade difícil — e necessária.

A de que civilizações avançadas também podem falhar moralmente.

E que lembrar não é apenas olhar para o passado.

É vigiar o presente.

Porque esquecer abre espaço para repetir.

E algumas cicatrizes da humanidade existem justamente para que nunca mais voltem a acontecer.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

LUIZ ANTÔNIO FLEURY FILHO: DO MINISTÉRIO PÚBLICO AO COMANDO DE SÃO PAULO

 A política paulista das últimas décadas do século XX foi marcada por líderes que exerceram papel fundamental na administração do maior estado brasileiro. Entre eles, Luiz Antônio Fleury Filho destacou-se por sua sólida formação jurídica, pela experiência na área da segurança pública e pela atuação como governador de São Paulo em um período de importantes desafios econômicos e sociais.

Nascido em 30 de março de 1949, na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, Fleury Filho construiu sua trajetória com base na dedicação ao serviço público. Formou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), uma das mais tradicionais instituições de ensino do país, e iniciou sua carreira como promotor de Justiça.

Sua atuação no Ministério Público paulista chamou a atenção pela firmeza e pelo comprometimento com as funções institucionais. Ao longo dos anos, acumulou experiência em áreas ligadas à administração pública e à segurança, o que contribuiu para sua projeção no cenário estadual.

O reconhecimento de seu trabalho levou-o a assumir funções de maior destaque no governo paulista. Em 1987, durante a gestão do governador Orestes Quércia, foi nomeado secretário da Segurança Pública. À frente da pasta, enfrentou desafios complexos relacionados ao crescimento urbano, à segurança da população e à modernização das estruturas policiais do estado.

A experiência adquirida nesse período fortaleceu sua imagem política e o credenciou para disputar cargos mais elevados. Em 1990, concorreu ao governo de São Paulo pelo PMDB e saiu vitorioso nas urnas, assumindo o comando do estado no início de 1991.

Sua eleição representou a continuidade de um importante grupo político que dominava o cenário paulista da época, consolidando Fleury Filho como uma das lideranças mais influentes do estado.UM GOVERNO DE INVESTIMENTOS E DESENVOLVIMENTO

Durante seu mandato como governador, entre 1991 e 1995, Luiz Antônio Fleury Filho conduziu uma administração voltada para investimentos em áreas estratégicas. Seu governo buscou ampliar a infraestrutura estadual, fortalecer programas habitacionais e promover melhorias nos setores de saúde e educação.

Entre as prioridades da gestão estavam obras destinadas à modernização da malha viária, ampliação de serviços públicos e incentivo ao crescimento econômico. O período também foi marcado por iniciativas que buscavam atender às necessidades de uma população cada vez maior e mais concentrada nos centros urbanos.

Na área habitacional, programas voltados à construção de moradias populares receberam atenção especial, enquanto na saúde e na educação foram desenvolvidas ações para ampliar o acesso da população aos serviços públicos essenciais. Essas iniciativas contribuíram para manter São Paulo como referência nacional em diversos indicadores econômicos e sociais.

Após concluir o mandato, Fleury Filho permaneceu ativo na vida pública. Foi eleito deputado federal, representando São Paulo no Congresso Nacional e participando de discussões relevantes sobre o futuro do país. Sua experiência administrativa e jurídica fez dele uma voz respeitada em diversos debates políticos.

Paralelamente à atuação parlamentar, continuou ligado ao universo jurídico e manteve presença constante nos meios políticos, acompanhando as transformações do cenário nacional ao longo das décadas seguintes.

Luiz Antônio Fleury Filho faleceu em 15 de novembro de 2022, na cidade de São Paulo, aos 73 anos. Sua trajetória permanece associada a um período importante da história paulista, marcado pela busca por modernização administrativa, expansão de investimentos públicos e fortalecimento das instituições estaduais.

Lembrado por sua combinação de conhecimento jurídico, experiência administrativa e atuação política, Fleury Filho deixou sua contribuição registrada na história de São Paulo, integrando a geração de líderes que ajudaram a conduzir o estado em uma fase de profundas transformações econômicas e sociais.

Por que chove tanto em Joinville?

 A explicação por trás do apelido “Chuville” e o que faz da maior cidade catarinense uma campeã em dias de chuva

Quem mora em Joinville já ouviu a brincadeira — e provavelmente já repetiu também: “em Joinville, se não está chovendo, está prestes a chover”. Não por acaso, a maior cidade de Santa Catarina ganhou ao longo dos anos um apelido curioso e bem-humorado: “Chuville”.

A fama não surgiu do nada. Joinville aparece com frequência entre os municípios com maior volume de chuva do Sul do Brasil, registrando precipitações elevadas ao longo do ano e um número impressionante de dias com chuva. Para moradores, guarda-chuva no carro ou na bolsa costuma ser quase item obrigatório.

Mas afinal: por que chove tanto em Joinville?

A resposta está em uma combinação poderosa entre geografia, relevo e clima — fatores que transformam a cidade em um verdadeiro ponto de encontro da umidade.

O litoral está logo ali

Um dos principais motivos é a localização privilegiada — ou, dependendo do ponto de vista, “molhada” — de Joinville.

A cidade fica próxima ao litoral norte catarinense e recebe constantemente a influência da umidade vinda do Oceano Atlântico. Os ventos carregados de vapor d’água avançam em direção ao continente e encontram na região as condições perfeitas para formar nuvens carregadas.

Esse ar úmido chega praticamente o ano inteiro, alimentando a atmosfera e favorecendo chuvas frequentes.

A Serra Dona Francisca entra em cena

Se o mar traz a umidade, a Serra Dona Francisca ajuda a transformá-la em chuva.

Quando os ventos úmidos vindos do oceano encontram a serra, são forçados a subir. À medida que o ar sobe, ele esfria. E ar frio retém menos vapor de água.

Resultado: o vapor se condensa, forma nuvens densas e a chuva cai com mais facilidade.

Esse fenômeno é conhecido como chuva orográfica, e é um dos principais responsáveis pelo alto índice de precipitação na cidade.

Rios, áreas úmidas e vegetação ajudam a manter a umidade

Joinville também tem uma característica natural que reforça ainda mais esse cenário: abundância de água.

A cidade possui rios, manguezais, áreas alagadiças e uma vegetação exuberante típica da Mata Atlântica.

Tudo isso contribui para manter a umidade do ar elevada durante boa parte do tempo.

A evaporação constante da água e a transpiração da vegetação alimentam o ambiente com ainda mais vapor, criando um ciclo natural que favorece a formação de nuvens.

Em outras palavras: a própria natureza local ajuda a “abastecer” a chuva.

Verão: a temporada dos temporais

Embora chova bastante ao longo do ano inteiro, é no verão que Joinville costuma mostrar sua força.

As altas temperaturas somadas ao ar úmido criam a receita clássica para pancadas intensas de fim de tarde e temporais rápidos — às vezes com raios e volumes expressivos em pouco tempo.

É aquele típico cenário conhecido pelos moradores: o céu estava aberto, o calor apertou… e de repente a água desaba.

Em muitos casos, a chuva chega intensa, dura pouco e vai embora tão rápido quanto apareceu.

E isso afeta a rotina?

Afeta — e bastante.

A chuva faz parte da identidade da cidade e influencia desde o trânsito até hábitos cotidianos.

Planejamento de eventos ao ar livre costuma levar o clima em consideração. Obras precisam considerar drenagem. E os moradores aprendem cedo a conviver com mudanças rápidas no tempo.

Ao mesmo tempo, toda essa umidade ajuda a manter a paisagem verde, vibrante e cheia de vida.

É um contraste curioso: a chuva pode atrapalhar a correria do dia a dia, mas também ajuda a construir a beleza natural que faz parte do charme joinvilense.

Mais que um apelido

No fim das contas, “Chuville” virou mais do que uma brincadeira.

O apelido resume uma característica marcante da cidade e mostra como a natureza molda a vida local de maneira muito particular.

Entre o mar e a serra, cercada de rios e vegetação abundante, Joinville reúne condições quase perfeitas para que a chuva apareça com frequência.

E para quem vive por lá, a previsão do tempo muitas vezes é apenas um detalhe.

Porque em Joinville todo mundo já sabe:
se o céu fechar, melhor não duvidar.