A história de Anastasia “Ada” Saksman começou na tecnologia, passou por um aplicativo de relacionamentos e terminou levando-a aos campos de batalha. Depois de perder as duas pernas, ela decidiu voltar ao serviço usando próteses.
Antes da guerra, Anastasia Saksman trabalhava na área de tecnologia. Sua vida profissional estava distante do ambiente militar, das trincheiras e dos drones utilizados em combate. Mas a invasão em larga escala da Ucrânia mudou completamente seus planos. A partir de 2022, Anastasia começou a procurar uma maneira de entrar para as Forças Armadas e encontrar uma função na qual pudesse utilizar suas habilidades. O caminho que encontrou para chegar ao Exército, entretanto, foi tão incomum que acabou se tornando parte fundamental de sua história: o Tinder.
Anastasia, que passou a usar o codinome Ada, conta que já havia enviado currículos e procurado diretamente diferentes unidades militares, mas não recebia respostas. Em vez de desistir, passou a conversar também com militares que conhecia pelo aplicativo de relacionamentos. A intenção, segundo seu próprio relato, não era procurar um relacionamento, mas descobrir como poderia ingressar no Exército.
Em uma dessas conversas, um militar se interessou pelo currículo de Anastasia e acabou fazendo aquilo que os recrutadores anteriores não haviam feito: abriu uma porta para que ela pudesse integrar uma unidade. Em abril de 2023, ela finalmente entrou para as Forças Armadas da Ucrânia. A história que havia começado em um aplicativo de encontros transformava-se em uma nova vida profissional.
DA TECNOLOGIA AOS DRONES
A experiência anterior com tecnologia encontrou uma aplicação natural dentro da estrutura militar. Ada tornou-se operadora de veículos aéreos não tripulados, trabalhando inicialmente em funções de reconhecimento e posteriormente com drones FPV.
Seu trabalho a levou para diferentes regiões do leste da Ucrânia, incluindo áreas de intensa atividade militar. Segundo relatos publicados sobre sua trajetória, ela passou por setores como Siversk, Kupiansk, Avdiivka e a região de Vuhledar. O que antes era uma profissional da área de tecnologia passou a fazer parte de uma nova geração de militares que utiliza equipamentos eletrônicos, câmeras, comunicação digital e aeronaves remotamente controladas no campo de batalha.
Os drones transformaram profundamente a guerra moderna. Pequenos equipamentos controlados à distância passaram a ser utilizados para reconhecimento, observação e outras missões. Para operadores como Ada, a tecnologia tornou-se uma ferramenta diretamente ligada às operações militares.
Mas estar atrás dos controles de um drone não significava estar distante dos perigos do front.
Em 6 de setembro de 2024, durante um deslocamento para uma posição na região de Vuhledar, o veículo em que Ada estava passou sobre uma mina antitanque. A explosão aconteceu sob o automóvel e provocou ferimentos gravíssimos.
O DIA QUE MUDOU TUDO
O momento do acidente ficou marcado pela necessidade de tomar decisões rapidamente.
Ferida e presa dentro do veículo, Ada tentou controlar o sangramento utilizando um torniquete. O procedimento, porém, era muito mais complicado de executar nela mesma, em um espaço limitado e sob condições extremas. Um companheiro de unidade acabou ajudando-a.
A gravidade dos ferimentos exigiu atendimento médico imediato.
A perna esquerda precisou ser amputada naquele mesmo dia. A situação da perna direita também era extremamente grave, mas inicialmente os médicos tentaram preservá-la. Começava ali uma longa batalha que não terminaria no hospital.
A guerra havia deixado uma marca permanente em seu corpo.
Mas a história de Ada ainda estava longe de terminar.
TREZE CIRURGIAS PARA SALVAR UMA PERNA
Durante aproximadamente um ano, os médicos tentaram reconstruir e preservar a perna direita.
Foram 13 operações, segundo o relato da própria militar. A recuperação foi longa, dolorosa e cheia de incertezas. Mesmo depois dos procedimentos e da reabilitação, entretanto, a situação continuou a se deteriorar.
Ada precisou tomar uma decisão difícil.
A alternativa passou a ser uma segunda amputação.
Em vez de continuar submetendo o corpo a novas tentativas de reconstrução, ela decidiu aceitar a retirada da segunda perna para poder avançar para uma nova etapa: a adaptação às próteses e a recuperação da mobilidade.
A escolha não significava desistência.
Era, para ela, uma maneira de seguir adiante.
Depois das duas amputações, começou outro processo igualmente exigente: aprender novamente a caminhar, equilibrar o corpo, controlar as próteses e reconstruir uma rotina.
A RECUPERAÇÃO NÃO TERMINOU NO HOSPITAL
Para muitas pessoas, a amputação seria o ponto final de uma trajetória militar.
Para Ada, não.
Ainda durante a recuperação, ela manifestou o desejo de continuar servindo. Pediu que não fosse simplesmente retirada das Forças Armadas por causa dos ferimentos e queria ter a oportunidade de voltar à sua unidade quando estivesse em condições.
O caminho até lá exigiu fisioterapia, adaptação, treinamento e uma enorme mudança na maneira de realizar tarefas que antes eram automáticas.
Caminhar novamente com próteses é apenas uma parte do processo. O corpo precisa reaprender movimentos, desenvolver equilíbrio e encontrar novas formas de executar atividades cotidianas.
Para uma militar que pretendia voltar a uma unidade operacional, o desafio era ainda maior.
Não bastava andar.
Era preciso recuperar resistência.
DE VOLTA À UNIDADE
Depois da reabilitação e da adaptação às próteses, Ada conseguiu retornar aos companheiros.
A imagem de uma operadora de drones utilizando duas próteses sintetizava uma transformação extraordinária. Menos de um ano antes, ela havia sido gravemente ferida em uma explosão. Agora, estava novamente integrada à sua unidade.
O retorno, naturalmente, não significou que tudo havia voltado ao normal.
A própria Ada reconheceu que sua resistência e força física haviam diminuído em relação ao período anterior ao ferimento. As tarefas passaram a exigir mais esforço, e algumas atividades que antes eram simples tornaram-se difíceis.
Ainda assim, ela voltou.
Segundo relatos mais recentes, Ada chegou a retornar a posições de combate na direção de Pokrovsk, continuando seu trabalho militar mesmo depois das amputações. A própria experiência também trouxe uma nova percepção sobre a presença feminina nas Forças Armadas e sobre a necessidade de adaptação da estrutura militar às mulheres.
UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU COM UM “MATCH”
Poucas histórias militares começam de maneira tão improvável.
Não houve uma tradicional trajetória de academia militar.
Não houve uma longa carreira dentro das Forças Armadas.
Havia uma profissional de tecnologia tentando encontrar uma maneira de contribuir durante uma guerra.
E havia um aplicativo de relacionamentos.
O Tinder foi apenas a porta de entrada. A partir dali, Anastasia encontrou um contato, apresentou seu currículo, recebeu uma oportunidade e começou uma trajetória que a levaria às operações com drones e, posteriormente, a um dos momentos mais traumáticos de sua vida.
O detalhe curioso da história, entretanto, não deve esconder sua dimensão humana.
O mais importante não é apenas que ela entrou para o Exército através de um aplicativo.
É o que aconteceu depois.
Ela entrou como profissional de tecnologia.
Tornou-se operadora de drones.
Foi enviada para áreas de combate.
Sofreu uma explosão.
Perdeu uma perna.
Tentou salvar a outra durante um ano.
Passou por 13 cirurgias.
Perdeu também a segunda perna.
Aprendeu a usar próteses.
E pediu para voltar.
ENTRE A TECNOLOGIA E A GUERRA
A história de Anastasia Saksman também mostra como a guerra contemporânea modificou o perfil de algumas funções militares.
A presença de tecnologia tornou-se cada vez mais importante. Pessoas com experiência em programação, eletrônica, comunicação, análise de dados e operação de sistemas passaram a encontrar novas possibilidades dentro das estruturas militares.
Ada representa esse cruzamento entre dois mundos.
De um lado, a profissional de tecnologia.
Do outro, a soldado que passou a operar drones em zonas de combate.
Entre os dois momentos existe uma guerra que mudou completamente sua vida.
E existe também uma recuperação que exigiu mais do que procedimentos médicos.
Foi necessário reconstruir uma nova relação com o próprio corpo.
A VOLTA
A imagem de Ada retornando à unidade com duas próteses talvez seja o capítulo mais significativo dessa história.
Não porque apague o trauma.
Não porque elimine as limitações deixadas pelo ferimento.
E muito menos porque transforme uma tragédia em algo simples.
Mas porque mostra uma pessoa tentando recuperar algum controle sobre a própria vida depois de uma mudança física definitiva.
Sua história não é apenas sobre a guerra.
É também sobre adaptação.
Sobre tecnologia.
Sobre reabilitação.
Sobre escolhas.
E sobre a possibilidade de construir uma nova rotina depois de perder aquilo que parecia essencial para continuar fazendo o que se fazia antes.
Anastasia “Ada” Saksman entrou para o Exército ucraniano por uma porta improvável: um aplicativo criado para aproximar pessoas.
Anos depois, sua história passou a representar uma das faces mais duras da guerra moderna.
Entre o Tinder e o campo de batalha existe uma distância enorme.
Mas, na trajetória de Ada, os dois acabaram ligados por uma sequência de acontecimentos que mudou sua vida para sempre.
Ela perdeu as duas pernas, mas não abandonou a ideia de voltar.
E foi sobre duas próteses que Ada encontrou uma maneira de continuar caminhando.