Dois engenheiros brasileiros desenvolveram, nos anos 1930, uma transmissão hidráulica que ajudaria a transformar para sempre a maneira de dirigir
Imagine entrar no carro, ligar o motor, selecionar a posição “D” e simplesmente acelerar. Sem pedal de embreagem, sem precisar escolher cada marcha e sem aquela sequência de movimentos que durante décadas fez parte da rotina de qualquer motorista.
Hoje, o câmbio automático é tão comum que parece ter existido desde sempre. Mas por trás dessa comodidade existe uma história pouco conhecida — e que tem dois brasileiros como protagonistas.
Em 1932, os engenheiros mecânicos José Braz Araripe e Fernando Iehly de Lemos desenvolveram nos Estados Unidos uma transmissão automática baseada em acionamento hidráulico. A solução dispensava o pedal de embreagem e permitia que as mudanças de marcha fossem realizadas automaticamente.
A invenção não surgiu do nada. Desde o começo do século XX, engenheiros de diferentes países tentavam encontrar uma maneira de eliminar a necessidade de o motorista trocar as marchas manualmente. Em 1921, o canadense Alfred Horner Munro havia desenvolvido uma transmissão automática pneumática, mas o sistema tinha limitações e não encontrou aplicação comercial significativa.
O grande avanço de Araripe e Lemos foi justamente utilizar fluido hidráulico em uma transmissão que se aproximava muito mais do conceito que posteriormente seria adotado pela indústria automobilística.
DE OFICINAS NAVAIS PARA DETROIT
A história dos dois brasileiros começou décadas antes de o câmbio automático se tornar um equipamento desejado pelos consumidores.
Araripe e Lemos haviam se mudado para os Estados Unidos na década de 1920 e trabalhavam ligados a oficinas de reparos navais. Durante anos, dedicaram-se ao desenvolvimento de soluções mecânicas e ao projeto de uma transmissão que pudesse tornar a condução dos automóveis mais simples.
O resultado foi apresentado em 1932.
José Braz Araripe levou o projeto até Detroit, então o grande centro da indústria automobilística americana, e apresentou a invenção à General Motors.
A gigante americana percebeu rapidamente o potencial da tecnologia.
E foi nesse momento que surgiu uma das histórias mais curiosas — e controversas — dessa invenção.
US$ 10 MIL OU US$ 1 POR CARRO?
Segundo a história contada pelo jornalista Fernando Morais na biografia O Mago, de Paulo Coelho, a General Motors teria apresentado aos inventores duas alternativas para adquirir a tecnologia.
A primeira: US$ 10 mil imediatamente.
A segunda: US$ 1 por cada automóvel vendido equipado com o sistema.
Araripe teria escolhido os US$ 10 mil.
Naquele momento, a quantia representava uma soma considerável. O que ninguém poderia prever era o tamanho do mercado que surgiria nas décadas seguintes.
Se a opção pelos royalties realmente tivesse sido feita, cada carro produzido com a tecnologia poderia representar uma pequena parcela de receita para os inventores.
Milhares de carros.
Depois, milhões.
A decisão transformaria uma negociação aparentemente vantajosa em uma das grandes ironias da história da tecnologia brasileira.
É importante destacar, porém, que há divergências nas fontes sobre a forma exata de remuneração dos inventores. Algumas reproduzem a versão dos US$ 10 mil; outras mencionam possibilidades de royalties. A própria narrativa ganhou notoriedade a partir da investigação de Fernando Morais sobre a história familiar de Paulo Coelho.
QUANDO A INVENÇÃO GANHOU AS RUAS
A General Motors não colocou imediatamente a transmissão nas ruas.
A empresa aperfeiçoou o projeto e desenvolveu aquilo que ficaria conhecido como Hydra-Matic.
Em 1940, a tecnologia chegou aos automóveis da divisão Oldsmobile, tornando-se um marco na história da indústria automobilística. O sistema era oferecido como opcional e custava cerca de US$ 70 — aproximadamente 10% do preço do automóvel naquela época.
A novidade representava uma mudança radical na experiência ao volante.
O motorista não precisava mais acionar a embreagem e selecionar constantemente as marchas. O automóvel fazia o trabalho sozinho.
E aquilo que inicialmente parecia luxo começaria a transformar a indústria.
DE LUXO A EQUIPAMENTO ESSENCIAL
Nos primeiros anos, uma transmissão automática era um equipamento sofisticado e caro. Mas a ideia de dirigir sem precisar trocar marchas manualmente tinha enorme potencial.
Nos Estados Unidos, onde a indústria automobilística crescia rapidamente e as estradas se multiplicavam, o conforto proporcionado pelo sistema encontrou um público receptivo.
A propaganda da época destacava justamente essa comodidade: o motorista poderia manter as duas mãos no volante e não precisaria se preocupar constantemente com as trocas de marcha.
A tecnologia também ajudou a mudar a própria relação das pessoas com o automóvel.
Dirigir deixou de exigir uma sequência permanente de ações coordenadas entre acelerador, embreagem e alavanca de câmbio.
O carro passou a fazer parte da vida cotidiana de uma maneira diferente.
O “HIDRAMÁTICO” BRASILEIRO
No Brasil, a influência do Hydra-Matic deixou até uma marca na linguagem.
Durante décadas, era comum chamar qualquer carro equipado com transmissão automática de “hidramático”.
O nome veio justamente do sistema desenvolvido pela General Motors.
A expressão ficou tão conhecida que atravessou gerações e entrou no vocabulário popular brasileiro.
Pouca gente, entretanto, sabia que por trás daquela tecnologia existia o trabalho de dois engenheiros brasileiros.
E QUEM ERAM ELES?
José Braz Araripe nasceu em 1899 e morreu em 1972. Além de engenheiro mecânico, ficou conhecido posteriormente por ser tio-avô do escritor brasileiro Paulo Coelho.
Foi justamente essa ligação familiar que ajudou a resgatar a história décadas depois.
Segundo o relato publicado por Fernando Morais, a própria família de Araripe inicialmente desconfiava das histórias sobre suas invenções. Ele era conhecido entre os parentes como alguém que estava sempre criando e experimentando coisas novas.
A investigação de Morais, entretanto, encontrou documentação e relatos que deram sustentação à história da transmissão desenvolvida por Araripe e Fernando Lemos.
Fernando Iehly de Lemos também teve uma trajetória ligada à engenharia e à inovação. Os dois trabalharam durante anos no desenvolvimento da transmissão hidráulica que seria posteriormente adquirida pela General Motors.
UMA INVENÇÃO QUE SOBREVIVEU AOS INVENTORES
O mais impressionante nessa história é que a tecnologia não ficou presa aos automóveis dos anos 1940.
Ao longo das décadas, as transmissões automáticas evoluíram radicalmente.
Vieram novas engrenagens, conversores de torque mais sofisticados, controles eletrônicos, transmissões de múltiplas velocidades, sistemas continuamente variáveis e, mais recentemente, sofisticadas transmissões utilizadas em veículos híbridos e elétricos.
O princípio, entretanto, permanece ligado à mesma busca que motivou Araripe e Lemos:
fazer o automóvel trocar suas relações de transmissão sem depender diretamente da ação do motorista.
É uma evolução que passou por quase um século de engenharia.
O BRASIL QUE POUCOS CONHECEM
Existe uma tendência de associar grandes invenções automobilísticas exclusivamente às tradicionais potências industriais dos Estados Unidos, Alemanha, Itália, França ou Inglaterra.
A história de Araripe e Lemos mostra que essa visão pode ser incompleta.
Dois engenheiros brasileiros estavam envolvidos em uma das grandes transformações tecnológicas da indústria automobilística mundial em uma época em que o Brasil ainda estava muito distante de possuir uma indústria automotiva própria de grande escala.
Eles desenvolveram uma solução, levaram a ideia para Detroit e viram uma das maiores empresas do mundo reconhecer seu potencial.
Depois, a tecnologia ganhou as ruas.
O resto é história.
A IRONIA DOS US$ 10 MIL
Existe ainda uma última pergunta que torna essa história tão fascinante:
quanto teria valido a invenção se os criadores tivessem recebido participação em cada carro vendido?
É impossível saber.
A indústria automobilística cresceu em uma escala que provavelmente nenhum inventor dos anos 1930 poderia imaginar.
O que sabemos é que a General Motors transformou aquela tecnologia em um produto comercial e o Hydra-Matic ajudou a inaugurar uma nova era para os automóveis.
Enquanto isso, os nomes de José Braz Araripe e Fernando Iehly de Lemos permaneceram praticamente desconhecidos do grande público.
Hoje, quando alguém simplesmente coloca o câmbio em “D” e acelera, raramente pensa em quem tornou aquele gesto possível.
Mas existe uma história brasileira por trás dele.
E ela começou há quase um século, quando dois engenheiros tiveram uma ideia que parecia impossível:
fazer o carro trocar de marcha sozinho.
CURIOSIDADE
A transmissão automática não nasceu de uma única invenção. Houve diferentes experiências antes de Araripe e Lemos. O diferencial do projeto brasileiro foi o desenvolvimento de uma transmissão automática de acionamento hidráulico, tecnologia que se aproximou muito mais dos sistemas que posteriormente seriam adotados em larga escala pela indústria.
1932 — Desenvolvimento/patente do projeto brasileiro
1932 — Apresentação à General Motors
US$ 10 mil — Valor tradicionalmente associado à venda do projeto, embora existam divergências documentais sobre a remuneração
1940 — Hydra-Matic chega aos Oldsmobile
Décadas seguintes — A transmissão automática se espalha pelo mundoSugestão editorial: para a abertura da matéria, eu usaria uma foto de um Oldsmobile 1940 com Hydra-Matic, uma imagem de José Braz Araripe e um detalhe de uma transmissão antiga.


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