segunda-feira, 6 de julho de 2026

DO GELO À CERVEJA

 Como um abatedouro de porcos deu origem a uma das cervejas mais consumidas do Brasil

No final do século XIX, São Paulo vivia uma fase de intensa transformação econômica. O crescimento da cidade impulsionava novos negócios, mas poucos imaginavam que um empreendimento criado para abastecer um abatedouro de porcos daria origem a uma das marcas mais tradicionais da indústria cervejeira brasileira.

Tudo começou em 1885, quando foi fundada a Companhia Antarctica Paulista, inicialmente voltada para a produção de gelo. O produto era essencial para conservar carnes em um grande frigorífico e abatedouro de suínos pertencente ao mesmo grupo empresarial. Na época, a refrigeração artificial ainda era novidade no Brasil, tornando o gelo um produto extremamente valioso.

Poucos anos depois, em 1888, os administradores perceberam que a fábrica de gelo possuía equipamentos que permaneciam ociosos durante parte do tempo. Aproveitando a estrutura existente e observando o crescimento do consumo de cerveja entre os imigrantes europeus que chegavam ao país, decidiram adaptar a fábrica para produzir cerveja.

A aposta parecia promissora. As primeiras cervejas Antarctica rapidamente conquistaram espaço no mercado paulista graças à qualidade da água, ao processo de fabricação inspirado nas cervejarias alemãs e ao investimento em tecnologia, algo raro para a época.

Entretanto, o sucesso inicial foi interrompido por dificuldades financeiras. A crise econômica do início da década de 1890 afetou diversas empresas brasileiras e, em 1893, a Antarctica chegou perto da falência.


A virada que mudou a história

Foi nesse momento que surgiu uma das figuras mais importantes da história da empresa: Antônio Zerrenner. Comerciante de origem alemã, ele assumiu o controle da cervejaria ao lado de sócios e iniciou uma profunda reestruturação administrativa e financeira.

Sob sua liderança, a Antarctica modernizou suas instalações, ampliou a capacidade de produção e fortaleceu sua distribuição. A empresa também passou a investir fortemente em publicidade, tornando sua marca conhecida em todo o país.

Nas décadas seguintes, a Antarctica lançou produtos que marcaram gerações de brasileiros, incluindo refrigerantes e cervejas que se transformaram em símbolos da cultura nacional.

Em 1999, outro capítulo histórico foi escrito: a Antarctica uniu-se à Brahma, formando a AmBev, uma das maiores empresas de bebidas do mundo. Posteriormente, a companhia faria parte da gigante global AB InBev, líder mundial do setor cervejeiro.

Mais de um século após sua fundação, a Antarctica continua sendo uma das cervejas mais consumidas do Brasil, carregando uma história curiosa e pouco conhecida: tudo começou com uma fábrica de gelo construída para atender um abatedouro de porcos.

Curiosidades

  • A Antarctica nasceu oficialmente em 1885 como Companhia Antarctica Paulista.
  • A produção de cerveja começou em 1888.
  • A fábrica de gelo existia para abastecer um frigorífico e conservar carnes.
  • Antônio Zerrenner foi decisivo para salvar e expandir a empresa após a crise de 1893.
  • Em 1999, Antarctica e Brahma deram origem à AmBev, hoje integrante da maior cervejaria do planeta.

De um simples sistema de produção de gelo para conservar carne à criação de uma marca centenária, a Antarctica tornou-se um dos maiores símbolos da história da indústria cervejeira brasileira.

O mistério do Jeep Willys: por que ninguém sabia para onde as rodas estavam apontando?

 Poucos veículos carregam tanto simbolismo quanto o lendário Jeep Willys. Criado para enfrentar os desafios da Segunda Guerra Mundial, ele conquistou soldados, agricultores, aventureiros e colecionadores ao redor do mundo. Sua robustez e simplicidade mecânica o transformaram em um dos automóveis mais icônicos da história.


Mas, além da fama de resistente, o Jeep Willys escondia uma curiosidade que intrigava seus motoristas: muitas vezes era praticamente impossível saber para que lado as rodas dianteiras estavam viradas.

Nos primeiros modelos, os pneus possuíam um desenho bastante simples e quase simétrico. Diferentemente dos pneus modernos, eles não apresentavam sulcos ou padrões que permitissem identificar facilmente a direção apenas com um rápido olhar. Como os para-lamas eram altos, largos e retos, grande parte dos pneus permanecia escondida, dificultando ainda mais a visualização.

Outro detalhe contribuía para essa situação: o sistema de direção. Sem assistência hidráulica, o volante era grande e exigia várias voltas completas de um extremo ao outro. Assim, a posição do volante nem sempre indicava de forma intuitiva para onde as rodas estavam apontadas, especialmente durante manobras em baixa velocidade.

Um hábito curioso que virou tradição

Essa combinação de fatores fazia com que muitos motoristas desenvolvessem um costume bastante peculiar. Antes de iniciar uma manobra, era comum colocar a cabeça para fora da janela ou até abrir a porta para olhar diretamente para a posição das rodas dianteiras.

A cena se repetia tanto entre militares quanto entre civis que utilizaram o Jeep Willys nas décadas seguintes. Em terrenos acidentados, trilhas, fazendas e estradas de terra, confirmar visualmente o alinhamento das rodas evitava erros de direção e facilitava o controle do veículo.

Hoje, esse detalhe é lembrado com carinho pelos colecionadores e apaixonados pelo modelo. O que antes era uma pequena dificuldade acabou se transformando em uma das histórias mais curiosas envolvendo o Jeep Willys, reforçando seu caráter rústico e autêntico.

Mesmo diante da evolução da tecnologia automotiva, poucos veículos despertam tanta admiração quanto esse clássico. Cada peculiaridade, inclusive a necessidade de "espiar" as rodas dianteiras, ajuda a contar a história de um automóvel que atravessou guerras, participou da reconstrução de países e permanece, mais de oito décadas depois, como um verdadeiro símbolo de resistência, simplicidade e aventura.

domingo, 5 de julho de 2026

Brasil cai novamente diante da Noruega: o que falta para quebrar esse tabu?

 Uma eliminação que reacende velhos questionamentos

A derrota do Brasil por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, voltou a despertar uma sensação conhecida entre torcedores e especialistas. Sempre que as duas seleções se encontram em Mundiais, o favoritismo brasileiro parece perder força diante da disciplina, da organização e da eficiência norueguesa.
Mais do que uma simples eliminação, o resultado levanta uma pergunta inevitável: por que o Brasil, dono de cinco títulos mundiais e reconhecido historicamente como o país do futebol, continua encontrando tantas dificuldades diante da Noruega?

A resposta passa por diversos fatores. O primeiro deles é o aspecto psicológico. Um histórico de confrontos desfavorável acaba influenciando jogadores e comissão técnica, principalmente quando a partida se torna equilibrada. O peso da camisa, que normalmente favorece a Seleção Brasileira, acaba se transformando em pressão.

Outro ponto importante é a falta de equilíbrio tático. Enquanto a Noruega aposta em um futebol organizado, compacto e extremamente disciplinado, o Brasil ainda demonstra dificuldades para enfrentar equipes que marcam forte, ocupam bem os espaços e exploram os contra-ataques com eficiência.

Além disso, a equipe brasileira voltou a apresentar um problema recorrente: pouca criatividade diante de defesas fechadas. O excesso de individualismo, aliado à baixa intensidade na circulação da bola, facilitou o trabalho da defesa norueguesa durante boa parte da partida.

Também chamou atenção a dificuldade nas bolas aéreas e na recomposição defensiva. A Noruega aproveitou exatamente essas fragilidades para construir sua classificação.

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O caminho para voltar ao topo

Quebrar esse tabu não depende apenas de uma geração talentosa. O Brasil precisa consolidar um projeto esportivo de longo prazo, priorizando continuidade no trabalho da comissão técnica, identidade de jogo e preparação específica para enfrentar diferentes estilos de adversários.

É necessário investir ainda mais na formação de jogadores capazes de atuar coletivamente, sem depender apenas do brilho individual. As grandes seleções do futebol moderno combinam talento com organização tática, intensidade física e inteligência estratégica.

Outro aspecto fundamental é o fortalecimento psicológico. Em torneios de tiro curto, controlar a pressão faz tanta diferença quanto a qualidade técnica.

A Noruega mostrou, mais uma vez, que disciplina, planejamento e eficiência podem superar o favoritismo. O Brasil continua possuindo enorme talento, tradição e uma das maiores escolas de futebol do planeta, mas precisará transformar essas qualidades em um modelo de jogo consistente para voltar a conquistar o mundo.

A eliminação de 2026 certamente ficará marcada como mais um capítulo frustrante dessa rivalidade. Ao mesmo tempo, ela pode representar o ponto de partida para uma profunda reflexão sobre os rumos da Seleção Brasileira.

O talento nunca deixou de existir. O grande desafio agora é transformar potencial em desempenho coletivo. Somente assim o Brasil poderá encerrar o incômodo tabu diante da Noruega e recuperar o protagonismo nas próximas Copas do Mundo.

TRAMPOLIM DA VITÓRIA

 Como Parnamirim se tornou uma base estratégica na Segunda Guerra Mundial e deu origem à primeira fábrica da Coca-Cola no Brasil

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma cidade do Nordeste brasileiro ganhou importância mundial. Localizada no Rio Grande do Norte, Parnamirim transformou-se em uma peça fundamental para os Aliados e passou a ser conhecida internacionalmente como o "Trampolim da Vitória".

Sua posição geográfica privilegiada, no ponto mais próximo da África, fez da cidade o local ideal para a instalação da maior base militar norte-americana fora dos Estados Unidos durante a guerra. Daquela pista partiram milhares de aviões carregando soldados, equipamentos, alimentos e combustível rumo aos campos de batalha na África e, posteriormente, na Europa.

A presença dos militares americanos mudou completamente a rotina da pequena cidade potiguar. Ruas foram abertas, novas construções surgiram, hospitais foram ampliados e milhares de trabalhadores brasileiros passaram a atuar na gigantesca estrutura militar instalada ao lado do aeroporto.

A antiga Base Aérea de Parnamirim tornou-se um dos principais centros logísticos da guerra. Entre 1942 e 1945, estima-se que dezenas de milhares de aeronaves tenham utilizado suas pistas, consolidando o Brasil como um importante aliado dos Estados Unidos no Atlântico Sul.

A COCA-COLA CHEGA AO BRASIL

Entre tantas mudanças trazidas pelos americanos, uma delas marcaria para sempre a história da indústria brasileira: a chegada da The Coca-Cola Company.

Os soldados norte-americanos estavam acostumados a consumir Coca-Cola diariamente, e a empresa considerava a bebida um importante símbolo de conforto para as tropas espalhadas pelo mundo. Para garantir o abastecimento constante, decidiu instalar uma pequena unidade de engarrafamento próxima à base militar de Parnamirim.

Assim nasceu, em 1942, a primeira fábrica de Coca-Cola em funcionamento no Brasil. Inicialmente, sua produção destinava-se quase exclusivamente aos militares americanos estacionados na região, mas logo a bebida despertou a curiosidade dos brasileiros.

Pela primeira vez, muitos moradores do Nordeste experimentavam um refrigerante que, até então, era praticamente desconhecido no país. O sucesso foi imediato e abriu caminho para a expansão da marca em território nacional após o fim da guerra.

O episódio transformou Parnamirim no ponto de partida da história da Coca-Cola no Brasil, décadas antes de a bebida se tornar uma das mais consumidas pelos brasileiros.

UMA CIDADE TRANSFORMADA PELA GUERRA

A convivência entre brasileiros e americanos trouxe profundas mudanças culturais. Novos hábitos alimentares, estilos musicais, roupas, gírias e costumes passaram a fazer parte do cotidiano da população local.

Os cinemas exibiam filmes de Hollywood, clubes promoviam bailes com jazz e swing, enquanto produtos industrializados até então raros começaram a circular pela cidade.

Ao mesmo tempo, a movimentação econômica cresceu rapidamente. Hotéis, restaurantes, oficinas, armazéns e pequenos comércios prosperaram graças à intensa circulação de militares e trabalhadores.

Parnamirim deixou de ser uma pequena localidade para assumir protagonismo internacional durante aqueles anos.

O LEGADO DO "TRAMPOLIM DA VITÓRIA"

Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, a presença militar americana foi gradualmente reduzida. Ainda assim, a infraestrutura construída permaneceu e contribuiu para o desenvolvimento da aviação civil e militar brasileira.

A Base Aérea de Parnamirim continuou sendo um dos principais complexos aeronáuticos do país, enquanto o aeroporto da região manteve sua importância estratégica durante décadas.

Hoje, monumentos, museus e documentos históricos preservam a memória desse período em que uma cidade nordestina tornou-se protagonista de um dos maiores conflitos da humanidade.

Mais do que um ponto de apoio militar, Parnamirim entrou para a história por conectar continentes, aproximar culturas e servir de porta de entrada para um dos produtos mais famosos do planeta: a Coca-Cola.

O "Trampolim da Vitória" permanece como um símbolo da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e de como um pequeno município potiguar ajudou a mudar os rumos da história mundial, deixando um legado que ainda desperta orgulho entre seus habitantes e fascínio entre pesquisadores e visitantes.

sábado, 4 de julho de 2026

LEONEL BRIZOLA: 22 ANOS DE SAUDADE DE UM DOS MAIORES LÍDERES POLÍTICOS DO BRASIL

 Em 21 de junho de 2026, completaram-se 22 anos da morte de Leonel Brizola, um dos personagens mais marcantes da história política brasileira. Dono de uma trajetória intensa, marcada por grandes conquistas, enfrentamentos e forte defesa da democracia, Brizola deixou um legado que continua presente no debate político nacional.


Nascido em 22 de janeiro de 1922, em Carazinho, no Rio Grande do Sul, Brizola cresceu em uma família humilde e, desde cedo, desenvolveu interesse pelas questões sociais. Formado em Engenharia, ingressou na política inspirado pelas ideias trabalhistas de Getúlio Vargas e João Goulart, tornando-se um dos principais representantes desse movimento.

Sua ascensão política foi rápida. Foi prefeito de Porto Alegre, deputado estadual, deputado federal e, em 1958, foi eleito governador do Rio Grande do Sul. Durante sua gestão, promoveu uma ampla expansão da rede pública de ensino por meio da construção de milhares de escolas primárias, conhecidas popularmente como "Brizoletas". O objetivo era combater o analfabetismo e garantir que crianças de regiões rurais também tivessem acesso à educação.

Mas foi em 1961 que Brizola entrou definitivamente para a história. Após a renúncia de Jânio Quadros, setores militares tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart. Como governador gaúcho, Brizola liderou a histórica Campanha da Legalidade, mobilizando militares, políticos e a população em defesa da Constituição. Utilizando a Rádio Guaíba e a chamada Rede da Legalidade, fez pronunciamentos diários que incentivaram a resistência democrática. A mobilização foi decisiva para garantir a posse de Goulart e evitar um conflito de grandes proporções.

Com o golpe militar de 1964, Brizola tornou-se um dos principais opositores do novo regime. Cassado, teve seus direitos políticos suspensos e foi obrigado a deixar o país. Viveu no Uruguai, nos Estados Unidos e em Portugal durante cerca de quinze anos de exílio, mantendo intensa atuação política e denunciando internacionalmente a ditadura brasileira.

O RETORNO AO BRASIL E OS CIEPs

Com a anistia política em 1979, Brizola voltou ao Brasil e reorganizou o movimento trabalhista. Após uma disputa pelo controle da antiga legenda trabalhista, fundou o Partido Democrático Trabalhista, legenda que comandaria por toda a vida.

Em 1982, foi eleito governador do Rio de Janeiro, tornando-se o único político brasileiro eleito pelo voto popular para governar dois estados diferentes.

Sua principal marca no governo fluminense foi a implantação dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), idealizados em parceria com o antropólogo e educador Darcy Ribeiro e projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Os Cieps ofereciam ensino em tempo integral, alimentação, atendimento médico, atividades culturais e esportivas, buscando transformar a escola em um espaço completo de formação para crianças e adolescentes.

Embora o projeto tenha recebido críticas por seu alto custo e enfrentado dificuldades de continuidade em governos posteriores, tornou-se uma das iniciativas educacionais mais conhecidas da história do país e influenciou programas semelhantes em diversas regiões brasileiras.

Brizola também disputou duas eleições presidenciais, em 1989 e 1994. Na primeira, ficou em terceiro lugar, por pequena diferença de votos, em uma das campanhas mais disputadas da história democrática recente.

Conhecido pelo discurso firme, pela personalidade combativa e pela defesa intransigente da soberania nacional, da educação pública e dos direitos sociais, Brizola construiu admiradores e adversários ao longo de sua carreira, mas sempre ocupou posição de destaque no cenário político brasileiro.

Leonel Brizola faleceu em 21 de junho de 2004, aos 82 anos, no Rio de Janeiro, vítima de complicações cardíacas. Sua morte marcou o fim de uma das trajetórias mais influentes da política nacional.

Mais de duas décadas depois, seu nome permanece associado à luta pela democracia, ao fortalecimento da educação pública e ao trabalhismo brasileiro. Independentemente das posições políticas, sua atuação continua sendo estudada por historiadores e cientistas políticos como parte fundamental da história contemporânea do Brasil, mantendo vivo o legado de um líder que marcou gerações e ajudou a moldar os rumos do país.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Saudades Eternas de Nuna

 Há textos que parecem impossíveis de escrever. Não por falta de palavras, mas porque cada frase carrega um pedaço da alma. Este é um deles.


Demorei muito para conseguir colocar tudo isso no papel. Durante dias tentei escrever, apagava, começava novamente, desistia. A dor era maior que qualquer palavra. Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim dizendo que eu precisava contar essa história.

Talvez como forma de homenagear quem fez parte da minha vida. Talvez para aliviar um pouco o peso que carrego no peito. Ou simplesmente porque algumas lembranças merecem ser eternizadas.

Tudo começou muitos anos atrás.

Entre 2018 e 2021 vivemos uma história cheia de momentos inesquecíveis. Como todo relacionamento, tivemos dias maravilhosos, dias difíceis, alegrias, decepções, discussões, reconciliações e muito aprendizado.

É natural.

Duas pessoas de personalidade forte inevitavelmente discordam. Ambos éramos cabeça-dura. Brigávamos, discutíamos, mas também construíamos sonhos, dividíamos responsabilidades e criávamos memórias que jamais poderão ser apagadas pelo tempo.

Foi durante esse período que a Nuna entrou em nossas vidas. (2020)

No início, foi você quem a adotou. Depois, de alguma forma, ela deixou de ser apenas sua e passou a ser nossa. Tornou-se parte da família.

Pouco tempo depois, veio também a Gorda.

Nossa casa ganhou mais vida, mais alegria e mais amor.

Os dias passaram a ter outra rotina. Acordar, cuidar delas, brincar, observar suas manias, rir das travessuras e perceber como cada uma possuía uma personalidade completamente diferente.

A Nuna sempre foi especial.

Inteligente.

Observadora.

Muito ligada às pessoas que conhecia.

Ao mesmo tempo, extremamente desconfiada com quem não fazia parte do seu convívio.

Quando meu mudei para Campina Grande, elas foram junto comigo.

Era impensável deixá-las.

Levei a Nuna.

Levei a Gorda.

Elas enfrentaram comigo uma nova cidade, uma nova casa e uma nova rotina.

Depois veio o retorno para Natal.

Mais uma vez, as duas vieram comigo.

Elas nunca foram um peso.

Sempre foram companhia.

Família.

Durante todos esses anos, procurei cuidar delas da melhor maneira possível.

Veterinário.
Vacinas.

Alimentação.

Carinho.

Atenção.

Tudo aquilo que estava ao meu alcance.

Lembro perfeitamente do dia da castração da Nuna.

Você esteve ao lado dela.

Foi leva-la e buscá-la na clínica.

Ficou preocupada ao vê-la ainda sob efeito da anestesia.

Ela andava cambaleando pela casa, completamente sem equilíbrio, parecendo uma pessoa embriagada.

Foi impossível não rir daquela cena, mesmo sabendo que fazia parte da recuperação.

São lembranças simples e engraçadas.

Mas que hoje têm um valor imenso.

Com o passar do tempo, comecei a perceber algumas mudanças no comportamento da Nuna.

Ela sempre teve um jeito diferente.

Nunca gostou muito de visitas.

Pessoas desconhecidas dentro de casa a deixavam extremamente incomodada.

Era territorial.

Protetora.

Algumas vezes demonstrava agressividade.

Mas nada que parecesse completamente fora do normal.

Até que chegou o dia 13 de junho de 2026.

Jamais esquecerei essa data.

Naquela tarde, uma profissional veio realizar uma limpeza no apartamento.

Tudo aconteceu normalmente.

A Nuna permaneceu inquieta durante boa parte do tempo, como costumava acontecer quando havia pessoas estranhas em casa.

Perto da hora de a moça ir embora, porém, algo mudou completamente.

Foi como se ela tivesse se transformado.

Nunca havia visto aquele comportamento daquela forma.

Ela corria desesperadamente de um lado para o outro.

Rosnava.

Estava extremamente agitada.

Tentei conversar.

Fazer carinho.

Acalmar.

Chamá-la pelo nome.

Nada funcionava.

Recebi vários arranhões tentando impedir que ela se machucasse ou machucasse alguém.

Não me importava comigo.

Minha única preocupação era protegê-la.

A Gorda parecia sem entender o que estava acontecendo.

O ambiente inteiro havia mudado.

Era um momento de completo desespero.

Infelizmente existia uma única janela sem proteção.

A janela da cozinha.

Em um movimento muito rápido, tentando escapar daquele estado de agitação, a Nuna perdeu o equilíbrio.

Não conseguiu alcançar o corredor.

Não conseguiu voltar.

Caiu do sexto andar.

Tudo aconteceu em poucos segundos.

Mas aqueles segundos parecem durar até hoje dentro da minha memória.

Foi perto do primeiro jogo do Brasil, Copa do Mundo.

Enquanto muita gente comemorava o futebol, meu mundo simplesmente desabava.

Entrei em choque.

Não conseguia acreditar.

Nada fazia sentido.

Desci desesperado.

E encontrei a cena que jamais sairá da minha cabeça.

Ver a Nuna sem vida foi uma das experiências mais dolorosas que já vivi.

Nenhuma palavra consegue explicar aquele momento.

É uma imagem que permanece gravada na alma.

Uma dor silenciosa.

Profunda.

Inexplicável.

Muitas pessoas enxergam apenas um animal de estimação.

Quem nunca teve esse vínculo dificilmente compreenderá.

Mas quem ama sabe.

Eles não são apenas animais.

São filhos.

São companheiros.

São parte da família.

Cada canto da casa passou a lembrar a Nuna.

O lugar onde ela dormia.

Onde esperava pela comida.

Onde tomava sol.

Onde corria quando eu chegava.

Durante anos fui recebido por ela na porta.

Ela vinha correndo.

Miava.

Pedia carinho.

Era como se dissesse:

"Você voltou."

Hoje abro a porta.

E o silêncio responde.

A ausência pesa.

Machuca.

A Gorda também sentiu.

Ela sempre foi muito ligada à Nuna.

E depois daquele dia passou a ficar ainda mais próxima de eu.

Hoje ela praticamente não desgruda.

Segue meus passos pela casa.

Deita ao meu lado.

Parece perceber que ambos estamos tentando aprender a viver com essa ausência.

É como se estivéssemos consolando um ao outro.

Ela perdeu uma companheira.

Eu perdi uma filha.

Desde o dia 13 de junho 2026, sábado, minha vida mudou completamente.

Perdi parte da alegria.

Perdi parte da rotina.

Perdi um pedaço importante do meu coração.

Ainda assim, preciso continuar.

Porque a Gorda continua aqui.

Ela precisa de eu.

E eu preciso dela.

Prometi para mim mesmo que terei ainda mais cuidado.

Proteção redobrada.

Mais atenção.

Mais carinho.

Ela merece.

Talvez um dia, quando Deus preparar meu coração, eu possa abrir espaço para adotar um novo irmão ou uma nova irmã para fazer companhia à Gorda.

Não para substituir a Nuna.
Porque isso é impossível.

Cada animal possui sua própria personalidade.

Seu próprio jeito.

Seu próprio espaço dentro do nosso coração.

Ninguém substitui ninguém.

O amor apenas encontra espaço para crescer novamente.

Escrevo tudo isso também porque senti que precisava compartilhar essa notícia com você, Roberta.

Você esteve presente em momentos importantes da vida da Nuna.

Mesmo que os caminhos tenham seguido direções diferentes e que o tempo tenha afastado nossas vidas, achei que era justo contar o que aconteceu.

Não por obrigação.

Mas por respeito à história que todos nós vivemos.

Talvez você nunca mais tenha perguntado por ela.

Talvez a vida tenha seguido outro rumo.

Tudo bem.

Ainda assim, achei que você deveria saber.

Não escrevo procurando respostas.

Nem justificativas.

Muito menos culpa.

Escrevo apenas porque algumas histórias precisam ser encerradas com verdade.

Nos últimos dias tenho tido sonhos repetitivos.

Como se algo insistisse para que eu contasse essa história.

Talvez seja apenas meu coração tentando encontrar paz.

Talvez seja Deus mostrando que guardar tudo isso apenas dentro de mim estava tornando a dor ainda maior.

Hoje consigo lembrar da Nuna, chorando.

Mas também sorrindo.

Lembro das brincadeiras.

Das corridas pela casa.

Das travessuras.

Do jeito único de olhar.

Das manias.

Do carinho.

Da companhia silenciosa em tantos momentos da minha vida.

Nada disso será apagado.

A saudade continuará existindo.

Mas também permanecerá a gratidão.

Obrigado, Nuna.

Obrigado Roberta.

Obrigado por cada dia.

Por cada momento.

Por cada demonstração de carinho.

Você fez parte da minha vida de uma forma que poucas pessoas conseguiram.

Hoje acredito que Deus está no comando de todas as coisas.

Mesmo quando não entendemos seus planos.

Mesmo quando a dor parece maior que nossa capacidade de suportá-la.

Tenho fé de que um dia toda lágrima encontrará consolo.

E gosto de imaginar a Nuna correndo livre, saudável e feliz, como uma estrela brilhando no céu.

Enquanto isso, aqui na Terra, continuo ao lado da Gorda.

Meu grude.

Minha companheira.

Aquela que continua me seguindo por onde vou.

Ela me lembra diariamente que o amor permanece.

Que a vida continua.

E que cuidar de quem ficou também é uma forma de honrar quem partiu.

Nuna jamais será esquecida.

Ela viverá em cada lembrança.

Em cada fotografia.

Em cada canto da casa.

E, principalmente, dentro do meu coração.

Saudades eternas de Nuna.

Que Deus continue guiando nossos caminhos.

E que Sua paz seja maior do que toda dor.