A cidade nasceu em 25 de dezembro de 1599. O problema é que, mais de quatro séculos depois, ninguém consegue apontar com absoluta certeza quem colocou seu nome na história como fundador.
A cidade tem data de nascimento.
Tem lugar de nascimento.
Tem uma fortaleza que testemunhou os primeiros capítulos de sua história.
Tem registros sobre os primeiros moradores e sobre os acontecimentos que marcaram seus primeiros anos.
Mas existe uma pergunta aparentemente simples que continua sem resposta definitiva:
quem fundou Natal?
A cidade foi oficialmente estabelecida em 25 de dezembro de 1599, às margens do rio Potengi, em uma área que corresponde hoje à Cidade Alta. A fundação aconteceu pouco depois da construção da Fortaleza dos Reis Magos, erguida em 1598 como parte da estratégia portuguesa de ocupação e defesa do território.
O curioso é que a história preservou a data.
Mas não preservou, de maneira incontestável, o nome do responsável.
E é aí que começa um dos maiores mistérios da história potiguar.
UMA CIDADE NASCIDA NO DIA DE NATAL
O nome não foi uma coincidência.
A fundação ocorreu justamente no dia 25 de dezembro, data comemorativa do nascimento de Cristo. O pequeno núcleo urbano surgiu a alguma distância da Fortaleza dos Reis Magos, em uma área elevada e próxima ao Potengi.
A povoação cresceria lentamente.
Durante os primeiros anos, Natal era pouco mais que um pequeno núcleo colonial. Documentos posteriores descrevem uma população reduzida e poucas casas. Em 1614, por exemplo, havia apenas 12 casas registradas.
Mas aquela pequena povoação tinha importância estratégica.
Portugal precisava consolidar sua presença na região, controlar o território e impedir que franceses, que já mantinham relações comerciais com indígenas na costa, continuassem disputando espaço.
A fortaleza protegia a entrada do rio.
A cidade dava suporte à ocupação.
E Natal começava sua longa história.
O MISTÉRIO DO FUNDADOR
Se a data é conhecida, por que o fundador não é?
Porque os documentos disponíveis não encerraram a discussão.
Ao longo dos séculos, diferentes historiadores analisaram os registros existentes e chegaram a conclusões diferentes.
Três nomes acabaram ocupando o centro da controvérsia:
Jerônimo de Albuquerque.
Manuel de Mascarenhas Homem.
João Rodrigues Colaço.
Durante muito tempo, a tradição historiográfica atribuiu a fundação a Jerônimo de Albuquerque. Tavares de Lyra, Vicente Lemos e Tarcísio Medeiros estavam entre os autores que defendiam essa interpretação.
Depois, novas leituras documentais colocaram João Rodrigues Colaço no centro da discussão.
Uma carta do Provincial Pero Rodrigues, publicada posteriormente pelo padre Serafim Leite, abriu espaço para uma nova interpretação. Moreira Brandão Castelo Branco, em 1950, defendeu que Colaço poderia ter sido o fundador. Seus argumentos chegaram a influenciar Câmara Cascudo.
Mas a história não parou aí.
Cascudo posteriormente passou a considerar outro nome: Manuel de Mascarenhas Homem.
E assim Natal passou a carregar três possibilidades históricas.
E OS HOLANDESES?
É aqui que a história ganha um capítulo ainda mais dramático.
A ocupação holandesa do Rio Grande, a partir de 1633, alterou profundamente a vida da cidade.
Natal chegou a ser rebatizada pelos holandeses como Nova Amsterdã, enquanto a Fortaleza dos Reis Magos passou a ser chamada de Castelo de Keulen. Os nomes portugueses só seriam retomados após a expulsão dos holandeses, em 1654.
A guerra e a ocupação provocaram destruição e perda de registros.
A própria documentação histórica produzida pela Prefeitura de Natal reconhece que muitos documentos importantes se perderam ou foram destruídos durante o período da invasão holandesa. Essa perda ajudou a tornar ainda mais difícil reconstruir com absoluta segurança os primeiros capítulos da cidade.
E existe uma ironia nisso tudo.
Os holandeses não levaram apenas uma parte do território.
A guerra também contribuiu para apagar pedaços da memória documental que poderiam ajudar a responder perguntas fundamentais sobre a origem de Natal.
TRÊS HOMENS. UMA CIDADE. NENHUMA CERTEZA ABSOLUTA.
Jerônimo de Albuquerque tem defensores.
Mascarenhas Homem também.
João Rodrigues Colaço possui argumentos históricos relevantes.
Cada hipótese nasceu de documentos, interpretações e diferentes leituras sobre quem efetivamente cumpriu as determinações de fundação da povoação.
E existe um detalhe fascinante:
a própria Prefeitura de Natal reconhece oficialmente que o nome do fundador permanece objeto de controvérsia entre historiadores.
Talvez nunca apareça um documento definitivo.
Talvez ele tenha existido e tenha sido perdido.
Talvez os documentos que sobreviveram simplesmente não sejam suficientes para encerrar a discussão.
E talvez seja justamente isso que torna a história tão interessante.
UMA CIDADE QUE CONHECE A DATA, MAS NÃO O AUTOR
Natal sabe quando nasceu.
25 de dezembro de 1599.
Sabe onde começou.
Às margens do Potengi, nas proximidades do núcleo que se transformaria na Cidade Alta.
Sabe que sua história está ligada à Fortaleza dos Reis Magos, à expansão portuguesa, às disputas coloniais e à ocupação holandesa.
Mas, quando chega a pergunta “quem fundou?”, a resposta muda conforme o historiador.
Jerônimo de Albuquerque?
João Rodrigues Colaço?
Mascarenhas Homem?
Mais de quatrocentos anos depois, três nomes continuam disputando um lugar que deveria pertencer a apenas um.
E talvez nunca saibamos com certeza.
O MISTÉRIO QUE SOBROU
A história de Natal mostra que cidades não são feitas apenas de prédios, ruas e monumentos.
São feitas também de documentos.
De cartas.
De relatos.
De memórias.
E, quando esses registros desaparecem, a cidade passa a carregar lacunas.
Natal nasceu no dia de Natal.
Cresceu às margens do Potengi.
Sobreviveu a invasões, guerras e transformações.
E chegou ao século XXI carregando uma pergunta que nenhum historiador conseguiu encerrar definitivamente:
quem foi, afinal, o homem que fundou Natal?
Talvez essa seja uma das poucas cidades brasileiras que conhecem perfeitamente seu aniversário — mas continuam procurando o nome de quem assinou sua certidão de nascimento.
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