Do glamour da “praia de São Paulo” às ruínas da Guarapiranga
SANTAPAULA IATE CLUBE
Durante algumas décadas, a Represa de Guarapiranga foi muito mais do que um importante reservatório de água para São Paulo. Para milhares de paulistanos, suas margens representavam lazer, esporte, música, encontros e uma espécie de praia particular dentro da própria cidade.
Foi nesse cenário que surgiu um dos mais emblemáticos espaços de lazer da Zona Sul paulistana: o Santapaula Iate Clube.
Hoje, quem passa pela Avenida Atlântica, na região de Interlagos, encontra uma paisagem completamente diferente daquela que marcou os anos de ouro do clube. O concreto envelhecido, as estruturas deterioradas e a vegetação tomando conta de antigos espaços de convivência revelam o abandono de um patrimônio que já foi símbolo de modernidade e sofisticação.
Mas, antes de se transformar em ruína, o Santapaula foi um dos grandes centros de lazer da Guarapiranga.
UM PROJETO QUE NASCEU DE UMA OBRA ABANDONADA
A história do clube começa ainda antes de sua existência.
Na década de 1950, havia naquele terreno um ambicioso projeto para a construção do Grande Hotel Interlagos, que deveria contar com vários andares, cassino e espaços destinados à hospedagem e ao entretenimento. A obra, porém, acabou interrompida antes de ser concluída.
No início dos anos 1960, a área passou para a Santapaula Melhoramentos S.A., ligada ao empresário Adelino Boralli. A ideia então mudou completamente: em vez de um hotel, surgiria um grande complexo destinado ao lazer náutico.
Para transformar a estrutura existente, foram chamados dois nomes importantes da arquitetura brasileira: João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi.
O trabalho não se limitou a reformar o antigo edifício. Os arquitetos criaram um conjunto arquitetônico integrado à paisagem da represa, incluindo a sede social e uma garagem de barcos localizada do outro lado da avenida.
As duas áreas eram conectadas por um túnel subterrâneo.
A garagem náutica, com seu grande vão livre e linguagem brutalista, tornou-se uma das partes mais marcantes do projeto. A arquitetura utilizava o concreto de maneira expressiva, característica que posteriormente seria associada a importantes obras de Artigas.
A “PRAIA” DOS PAULISTANOS
Naquele período, chegar ao litoral paulista podia significar horas de viagem. A Guarapiranga oferecia uma alternativa muito mais próxima.
Por isso, a represa ganhou o apelido de “praia de São Paulo”.
O Santapaula aproveitou essa vocação e se transformou rapidamente em ponto de encontro da elite e da classe média paulistana.
O complexo reunia piscinas, restaurantes, áreas sociais, espaços para festas, atividades esportivas e uma completa estrutura náutica. Havia ainda salão de jogos, boliche, saunas e áreas destinadas aos associados.
A localização estratégica, às margens da represa, permitia que os frequentadores chegassem ao clube para passar o dia praticando esportes aquáticos, navegando ou simplesmente aproveitando as piscinas e a paisagem.
Era uma São Paulo muito diferente da atual.
A região da Guarapiranga ainda tinha forte vocação de lazer e turismo, e diversos clubes náuticos ajudavam a movimentar suas margens.
O Santapaula se tornou um dos principais símbolos dessa época.
SHOWS, ESPORTES E GRANDES EVENTOS
O clube não vivia apenas de esportes náuticos.
Durante seus anos de funcionamento, o Santapaula recebeu grandes eventos e apresentações musicais. Entre os artistas que passaram pelo local esteve Roberto Carlos, que se apresentou no clube em 1973.
Competições náuticas também faziam parte da programação, reforçando a vocação esportiva do complexo.
A própria Guarapiranga vivia um momento especial. Em 1963, a represa recebeu modalidades náuticas dos Jogos Pan-Americanos realizados em São Paulo, ajudando a consolidar a região como um dos principais polos de esportes aquáticos da cidade.
Por alguns anos, parecia que o futuro da Guarapiranga seria grandioso.
E o Santapaula estava no centro desse projeto.
QUANDO A PAISAGEM COMEÇOU A MUDAR
O auge, entretanto, não duraria para sempre.
A partir do final dos anos 1970 e, principalmente, durante a década de 1980, uma combinação de fatores começou a afetar os antigos clubes da região.
O crescimento desordenado das áreas próximas à represa, as dificuldades financeiras enfrentadas por clubes sociais, as mudanças nos hábitos de lazer dos paulistanos e a própria expansão do acesso ao litoral contribuíram para diminuir a importância daquele modelo de entretenimento.
O Santapaula começou a perder força.
No início dos anos 1980, suas atividades chegaram ao fim.
E aquilo que durante anos havia sido sinônimo de festas, esportes, música e encontros passou a permanecer fechado.
O abandono foi progressivo.
Piscinas deixaram de receber frequentadores. Salões ficaram vazios. A garagem de barcos perdeu sua função. A estrutura arquitetônica, projetada para ser admirada e utilizada, começou a sofrer com infiltrações, vandalismo e falta de manutenção.
A paisagem que antes representava modernidade passou a representar esquecimento.
UMA OBRA DE ARTIGAS À ESPERA DE UM NOVO FUTURO
Apesar da deterioração, o Santapaula nunca deixou de ser reconhecido por seu valor histórico e arquitetônico.
O conjunto passou por processo de tombamento no âmbito do patrimônio histórico municipal, e a garagem de barcos tornou-se especialmente importante para a preservação da memória da arquitetura moderna brasileira.
O problema é que o tombamento não interrompe o tempo.
Sem conservação adequada, o concreto sofre, as ferragens ficam expostas e as infiltrações avançam.
Em reportagens publicadas nos últimos anos, o antigo clube aparece como um dos principais exemplos de abandono às margens da Guarapiranga.
Ao mesmo tempo, surgiram diversas propostas para devolver alguma função ao espaço.
Uma das iniciativas mais recentes envolve a criação de um projeto de recuperação do antigo Santapaula dentro de uma proposta de parceria público-privada. A ideia prevê a conservação, restauração e reforma do conjunto, com abertura do equipamento ao público e criação de novas estruturas de caráter cultural, educacional, turístico e de lazer.
DO CLUBE PRIVADO AO PATRIMÔNIO DE TODOS
Existe uma ironia na história do Santapaula.
O espaço nasceu como um clube privado, destinado principalmente aos seus associados. Décadas depois, sua recuperação pode representar justamente a transformação do antigo clube em um equipamento de uso público.
Projetos discutidos ao longo dos anos já imaginaram no local centros culturais, espaços educacionais, equipamentos esportivos, restaurantes, atividades náuticas e áreas de convivência.
A localização continua privilegiada.
De um lado, a Avenida Atlântica.
Do outro, a Represa de Guarapiranga.
E, entre os dois, uma obra arquitetônica que carrega parte importante da história da São Paulo moderna.
UMA RUÍNA QUE AINDA CONTA HISTÓRIA
Hoje, o Santapaula Iate Clube pode causar estranhamento a quem nunca conheceu sua história.
Para alguns, são apenas prédios abandonados.
Para quem conhece sua trajetória, entretanto, aquelas estruturas de concreto contam uma história muito maior: a história de uma época em que São Paulo descobriu que não precisava necessariamente viajar até o litoral para encontrar lazer à beira d’água.
Ali estiveram famílias, esportistas, músicos, empresários e frequentadores que ajudaram a transformar a Guarapiranga em um dos principais destinos de lazer da capital.
O concreto envelheceu.As piscinas perderam o brilho.Os barcos desapareceram.Os salões ficaram silenciosos.Mas a arquitetura permanece.
E talvez seja justamente essa a maior força do antigo Santapaula: mesmo abandonado durante décadas, ele continua lembrando que a cidade já teve uma relação muito diferente com suas águas.
Entre as ruínas e a represa, permanece a possibilidade de um novo capítulo.
Não necessariamente o retorno do antigo iate clube, mas a recuperação de um patrimônio que pertence à memória arquitetônica e cultural de São Paulo.
O Santapaula já foi símbolo de futuro.
Hoje, é símbolo de abandono.
E amanhã, se os projetos de recuperação avançarem, poderá novamente ser símbolo de transformação.
Porque algumas ruínas não representam apenas o fim de uma história.
Às vezes, elas são o lugar onde uma nova história começa.
.jpeg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário