O juiz que transformou a arbitragem em espetáculo
Irreverente, extravagante e pioneiro, Jorge José Emiliano dos Santos virou uma das figuras mais marcantes do futebol brasileiro
Em um futebol acostumado a árbitros sérios, discretos e quase sempre distantes do espetáculo, um personagem decidiu fazer diferente.
Corria de maneira peculiar, gesticulava, fazia movimentos exagerados e comandava as partidas com uma personalidade que chamava a atenção de jogadores, torcedores e jornalistas.
Seu nome era Jorge José Emiliano dos Santos.
Mas o Brasil inteiro o conheceu como Margarida.
Carioca, nascido em 19 de março de 1954, Jorge Emiliano começou a ter contato com a arbitragem ainda muito jovem. Aos 13 anos, já observava e apitava partidas de futebol de praia no Rio de Janeiro. Seu estilo irreverente começou a aparecer justamente naquele ambiente, muito antes de chegar aos grandes estádios.
Durante os anos seguintes, aquele jeito peculiar de conduzir uma partida passou a fazer parte de sua identidade.
Até que, em 1988, Margarida chegou ao futebol profissional.
Sua estreia aconteceu em uma partida entre Flamengo e Volta Redonda, na Gávea, válida pela Taça Guanabara. A partir daquele momento, o árbitro deixou de ser apenas o homem responsável por aplicar as regras e passou a ser também uma atração à parte.
O ÁRBITRO QUE ROUBAVA A CENA
Margarida tinha uma maneira completamente diferente de interpretar o papel de árbitro.
Se outros juízes procuravam desaparecer durante a partida, ele fazia exatamente o contrário.
Seus gestos eram amplos. Sua corrida era característica. As marcações de falta ganhavam movimentos próprios. Cartões e advertências eram acompanhados de uma teatralidade que rapidamente conquistou o público.
Mas havia uma diferença fundamental: por trás do personagem irreverente existia um árbitro que levava sua profissão a sério.
Em campo, Margarida fazia questão de deixar claro que a personalidade não significava falta de autoridade.
Sua trajetória aconteceu em uma época em que o futebol brasileiro era marcado por forte preconceito contra homossexuais. Em 1988, Jorge Emiliano tornou pública sua homossexualidade e passou a enfrentar abertamente a discriminação dentro e fora dos estádios.
A estreia na elite, inclusive, foi acompanhada por manifestações homofóbicas vindas das arquibancadas.
Mesmo assim, Margarida continuou.
E, em pouco tempo, sua fama ultrapassou os limites do futebol.
DA ARBITRAGEM PARA A TELEVISÃO
O personagem Margarida era tão marcante que passou a frequentar programas de televisão.
Ele apareceu em atrações populares como Hebe, Viva a Noite, Passa ou Repassa, A Praça é Nossa e Os Trapalhões, além de ter apresentado o próprio programa, chamado “Papo de Margarida”, na TV Rio.
Também trabalhou como jurado e participou de programas de rádio como comentarista.
Era uma época em que personagens populares do futebol conseguiam facilmente ultrapassar as quatro linhas.
Margarida era um desses casos.
Sua imagem já não estava associada apenas ao apito.
O público reconhecia sua maneira de andar, correr, gesticular e falar.
O árbitro havia se transformado em personagem nacional.
QUANDO O ESPETÁCULO ESCONDE UMA HISTÓRIA DE CORAGEM
Por trás das brincadeiras, porém, existia uma história muito mais séria.
Jorge José Emiliano viveu em uma época em que assumir publicamente uma orientação sexual diferente da norma dominante significava enfrentar enormes barreiras sociais.
E ele fez isso justamente dentro de um dos ambientes tradicionalmente mais associados à masculinidade: o futebol.
Sua presença nos gramados ajudou a tornar visível uma discussão que o esporte brasileiro ainda evitava.
Pesquisas acadêmicas sobre futebol e diversidade destacam Jorge Emiliano como uma figura importante nesse processo, justamente por ter sido um árbitro assumidamente gay em um período de forte preconceito no futebol profissional.
Por isso, a história de Margarida não pode ser reduzida apenas aos seus trejeitos ou à sua maneira divertida de apitar.
Existe também a história de um homem que decidiu não esconder quem era.
E que fez isso em um dos ambientes mais conservadores do país.
UM EPISÓDIO QUE MOSTROU O TEMPERAMENTO DE MARGARIDA
A irreverência de Jorge Emiliano não significava que ele aceitasse qualquer coisa dentro de campo.
Em 1989, durante uma partida de futebol feminino no Estádio Caio Martins, ocorreu um episódio que terminou em confusão. Depois de ser ofendido por uma jogadora, Margarida perdeu o controle e a agrediu, provocando um tumulto entre atletas e dirigentes.
Posteriormente, ele pediu desculpas à jogadora, inclusive entregando-lhe uma flor — um gesto que acabou se tornando mais uma das histórias curiosas envolvendo o árbitro.
O episódio também revela uma característica importante de sua personalidade: Margarida era um personagem, mas também era uma pessoa real, sujeita às emoções e contradições que fazem parte de qualquer trajetória humana.
O DECLÍNIO E O FIM DA CARREIRA
A vida de Jorge Emiliano, entretanto, teria um desfecho precoce.
A partir do início dos anos 1990, sua saúde começou a se deteriorar.
Doente, chegou a sofrer com tuberculose nos dois pulmões e teve seu estado de saúde agravado progressivamente. Mesmo enfrentando dificuldades, ainda tentou retornar aos gramados em 1994.
O retorno, porém, durou pouco.
A doença já não permitia que continuasse exercendo a profissão que havia transformado sua vida.
Em 21 de janeiro de 1995, no Rio de Janeiro, Jorge José Emiliano dos Santos morreu aos 40 anos.
A imprensa da época registrou que ele morreu em decorrência da Aids. O sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Era o fim de uma trajetória curta, mas extraordinariamente marcante.
MAS O NOME MARGARIDA NÃO DESAPARECEU
Curiosamente, a história não terminou com Jorge Emiliano.
Anos depois, outro árbitro passou a utilizar o mesmo apelido.
Clésio Moreira dos Santos, árbitro catarinense, criou uma personagem inspirada no primeiro Margarida e ficou conhecido nacionalmente pelo mesmo nome.
Seu estilo também era teatral e extravagante, com movimentos característicos e uma maneira muito particular de correr e sinalizar as infrações.
Foi assim que o nome Margarida ganhou uma segunda vida no futebol brasileiro.
Mas os dois não devem ser confundidos.
O primeiro Margarida foi Jorge José Emiliano dos Santos, carioca, árbitro profissional a partir de 1988 e uma das primeiras figuras assumidamente gays a ocupar espaço de destaque na arbitragem da primeira divisão brasileira.
O segundo foi Clésio Moreira dos Santos, que posteriormente adotou o personagem em homenagem ao antecessor.
UMA MEMÓRIA QUE CONTINUA
Margarida morreu há mais de três décadas, mas sua imagem permanece presente na memória do futebol brasileiro.
Parte dessa lembrança vem das cenas engraçadas, dos movimentos extravagantes e das histórias que protagonizou.
Outra parte vem do significado de sua presença.
Em uma época em que quase ninguém falava abertamente sobre diversidade sexual dentro do futebol, Jorge Emiliano ocupou o centro do palco.
Ele não foi apenas o árbitro que corria de maneira diferente.
Foi um personagem que desafiou expectativas, conquistou espaço e transformou sua própria maneira de ser em uma marca.
Seu nome continuou sendo usado por outro árbitro, seu estilo virou referência e sua história passou a ser lembrada em reportagens, livros e estudos sobre futebol e diversidade.
O HOMEM POR TRÁS DO PERSONAGEM
Talvez essa seja a melhor maneira de entender o legado de Margarida.
Ele não ficou conhecido apenas porque era engraçado.
Ficou conhecido porque era impossível ignorá-lo.
Em uma época em que o árbitro deveria ser praticamente invisível, Jorge José Emiliano dos Santos fez o contrário: entrou em campo, assumiu sua personalidade e transformou a arbitragem em espetáculo.
O futebol mudou.
Os uniformes mudaram.
A arbitragem mudou.
A televisão mudou.
Mas aquela figura correndo pelo gramado, fazendo seus gestos característicos e arrancando reações das arquibancadas continua viva na memória de quem acompanhou o futebol brasileiro dos anos 1980 e 1990.
Margarida morreu em 1995. O personagem, porém, nunca deixou completamente os gramados.
E talvez seja justamente essa a maior marca de Jorge José Emiliano dos Santos: décadas depois de sua última partida, o Brasil ainda sabe quem foi o árbitro Margarida.




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