A trajetória de uma indústria centenária, a persistência de uma família empreendedora e o nascimento de uma tradição que atravessou gerações. A história da Dore Refrigerantes começa na Paraíba, chega ao Rio Grande do Norte e se transforma em uma das lembranças mais marcantes da cultura popular potiguar. No meio dessa jornada, um nome se destaca: Sidney Clement Dore, o inglês que encontrou no Nordeste brasileiro um lugar para construir seu futuro.
Um inglês que encontrou no Nordeste seu novo lar
No final do século XIX, o Brasil ainda vivia profundas transformações econômicas e sociais. As ferrovias representavam o avanço da modernização, conectando cidades, facilitando o transporte de mercadorias e impulsionando o desenvolvimento regional. Foi nesse cenário que um jovem engenheiro inglês chamado Sidney Clement Dore desembarcou em território brasileiro.
Em 1898, Sidney estabeleceu-se em João Pessoa, então conhecida como Parahyba do Norte, capital da Paraíba. Engenheiro mecânico e químico industrial, ele chegou ao país para trabalhar a serviço da Great Western of Brazil Railway, companhia ferroviária que atuava na expansão da infraestrutura de transportes no Nordeste.
Sua formação técnica e seu espírito empreendedor fizeram com que enxergasse oportunidades além das atividades ferroviárias. Em uma região onde os refrigerantes ainda eram produtos relativamente pouco populares, Sidney percebeu que existia espaço para desenvolver uma indústria de bebidas gaseificadas.
O Nordeste, com suas particularidades climáticas, culturais e econômicas, oferecia um ambiente promissor para uma iniciativa inovadora. A ideia de produzir bebidas refrescantes, inspiradas nos modelos industriais europeus, começava a ganhar forma.
A fundação da Fábrica Anglo Brasileira de Águas Gasosas
Em 13 de junho de 1911, Sidney Clement Dore fundou, na Rua da Areia, em João Pessoa, a Fábrica Anglo Brasileira de Águas Gasosas. A pequena indústria foi o ponto de partida de uma história empresarial que atravessaria mais de um século.
Naquele período, o processo de fabricação de refrigerantes era bastante rudimentar quando comparado às modernas linhas industriais. Sidney importava da Inglaterra os vasilhames de vidro e utilizava tampas de louça fixadas por sistemas de pressão com molas de arame. Os aromas empregados na fabricação das bebidas também vinham de fornecedores especializados.
A produção inicial era destinada à capital paraibana, às cidades vizinhas e a localidades do interior. Os produtos eram bebidas gaseificadas com sabores artificiais de frutas, uma novidade que começava a conquistar consumidores.
O empreendimento exigia coragem. O mercado ainda era pequeno, a distribuição dependia de transportes limitados e a aceitação de novos produtos não acontecia de maneira imediata. Mesmo assim, Sidney apostou na qualidade e na capacidade de crescimento de sua fábrica.
A iniciativa colocou seu nome entre os pioneiros da indústria de bebidas gaseificadas no Nordeste brasileiro.
Natal entra no projeto do empresário inglês
O sucesso inicial da fábrica paraibana estimulou Sidney Dore a ampliar suas atividades. O Rio Grande do Norte, especialmente Natal, passou a fazer parte dos planos de expansão.
Em 1917, foi instalada uma segunda unidade de fabricação de águas gasosas na capital potiguar. A iniciativa representava uma aposta no desenvolvimento de um novo mercado e na possibilidade de levar os produtos da marca para além das fronteiras paraibanas.
A localização de Natal era estratégica. A cidade possuía importância crescente no comércio regional e apresentava condições para se tornar um ponto de distribuição de bebidas para o interior do estado.
Entretanto, os desafios eram maiores do que o esperado. As dificuldades logísticas, os custos de transporte das matérias-primas e a limitada aceitação dos produtos comprometeram o desempenho da unidade potiguar.
A fábrica acabou sendo desativada após um período de funcionamento. O projeto não alcançou inicialmente os resultados imaginados por Sidney, que precisou lidar com as dificuldades de um empreendimento pioneiro em uma economia regional ainda em desenvolvimento.
Mas o encerramento das atividades não representou o fim da história da Dore em Natal.
A experiência deixaria uma importante herança: a compreensão de que o mercado potiguar possuía potencial, mesmo que ainda não estivesse preparado para absorver plenamente aquela produção.
A segunda geração e a retomada do sonho
Décadas depois, a história ganharia um novo capítulo. Em 1952, os filhos de Sidney Clement Dore — Walter Byron Dore, James Wallace Dore e William Albert Dore — assumiram a condução dos negócios da família e retomaram as atividades da unidade de Natal.
A fábrica potiguar passou a funcionar como filial da indústria paraibana. A retomada representava mais do que uma decisão comercial: era a continuidade de um projeto que havia enfrentado dificuldades, mas que permanecia vivo na memória e nos planos da família.
Com a reativação, a empresa começou a ampliar sua presença no mercado regional. Os refrigerantes Dore passaram a conquistar consumidores por meio de sabores como guaraná, laranja, uva e soda limonada.
A produção foi sendo modernizada, os equipamentos substituídos e as instalações ampliadas. A marca acompanhava as mudanças nos hábitos de consumo e o crescimento das cidades nordestinas.
A industrialização brasileira avançava, os meios de comunicação se popularizavam e os refrigerantes começavam a ocupar um espaço cada vez maior no cotidiano das famílias.
Natal também se transformava. O crescimento urbano, a expansão comercial e o desenvolvimento econômico criavam novas oportunidades para empresas locais. A Dore, que havia enfrentado dificuldades em sua primeira experiência potiguar, encontrava agora condições mais favoráveis para consolidar sua presença.
Grapette: o sabor que conquistou gerações
Entre os produtos que marcaram a trajetória da empresa, um refrigerante de sabor uva se tornaria especialmente conhecido: o Grapette.
Criado nos Estados Unidos por Benjamin Tyndle Fooks, o Grapette chegou ao Brasil em 1948. Sua expansão nacional ocorreu nos anos seguintes, e a bebida passou a ser comercializada em diferentes regiões por meio de fabricantes e distribuidores autorizados.
Na década de 1960, o refrigerante ganhou ainda mais popularidade graças a uma das frases publicitárias mais lembradas da história das bebidas no país: “Quem bebe Grapette, repete!”.
O slogan transformou-se em uma espécie de assinatura cultural da marca. A repetição da frase nas campanhas publicitárias ajudou a fixar o produto na memória de crianças, jovens e adultos.
Em Natal, o Grapette encontrou um público receptivo. A bebida de uva, com sua coloração característica e seu sabor adocicado, tornou-se presença em festas, reuniões familiares, lanchonetes e momentos de lazer.
Para muitos potiguares, lembrar do Grapette é voltar à infância. É recordar as garrafas de vidro, os refrigerantes gelados, os encontros com amigos e as pequenas celebrações que faziam parte da vida cotidiana.
O sucesso do produto ajudou a fortalecer a presença da Dore no mercado regional, tornando a marca parte da identidade afetiva de milhares de consumidores.
Uma tradição que atravessou o tempo
A trajetória da Dore Refrigerantes representa um exemplo de empreendedorismo familiar que conseguiu atravessar diferentes períodos da história brasileira.
A empresa acompanhou transformações políticas, econômicas e tecnológicas. Passou por dificuldades, mudanças de gestão, modernização industrial e expansão comercial.
Em 1961, a demanda crescente por refrigerantes em Natal e no interior dos estados vizinhos levou à ampliação das instalações da indústria, com a transferência para um prédio maior na Rua Sílvio Pélico. O crescimento demonstrava que o mercado potiguar havia se consolidado como uma importante área de atuação da empresa.
Ao longo das décadas seguintes, a marca continuou desenvolvendo novos produtos e modernizando sua estrutura. A história iniciada por Sidney Clement Dore em João Pessoa ganhou continuidade no Rio Grande do Norte, mantendo a ligação entre as duas cidades.
O empreendimento que começou com uma pequena fábrica de águas gasosas transformou-se em uma indústria regional de relevância, carregando consigo a memória de seu fundador e a dedicação de seus descendentes.
Quem bebe Grapette, repete: uma lembrança que permanece
A história de Sidney Dore não é apenas a trajetória de um empresário estrangeiro que fundou uma fábrica de refrigerantes. É também uma história de persistência, visão de futuro e capacidade de acreditar em um projeto mesmo diante das dificuldades.
Sua primeira experiência em Natal não prosperou como esperado. Porém, décadas depois, seus filhos retomaram a iniciativa e contribuíram para consolidar uma indústria que se tornaria parte da paisagem econômica e cultural potiguar.
O Grapette, por sua vez, ultrapassou os limites de uma simples bebida. Para muitas pessoas, tornou-se uma lembrança de uma época, um símbolo de infância e um sabor associado à convivência familiar.
Hoje, quando alguém pronuncia a famosa frase “Quem bebe Grapette, repete!”, não está apenas repetindo um slogan publicitário. Está evocando uma memória compartilhada por gerações.
Sidney Clement Dore talvez não pudesse imaginar, em 1911, que sua pequena fábrica de águas gasosas se transformaria em uma história centenária, atravessando fronteiras estaduais e conquistando um lugar especial na memória do Nordeste.
Mais de um século depois, seu legado continua presente.
E a pergunta permanece: quem nunca tomou um Grapette gelado e se lembrou de algum momento especial da vida?
Porque algumas marcas não sobrevivem apenas nas prateleiras. Elas sobrevivem na memória das pessoas.
Referências históricas: história institucional da Sidore/Dore Refrigerantes; estudo acadêmico da Intercom sobre a trajetória do Grapette e da indústria de refrigerantes no Rio Grande do Norte; registros históricos sobre a marca Grapette. sidore.com.br +2
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