A FOTO QUE RENDEU TIROS
O dia em que a caça ao protótipo do Volkswagen Brasília terminou com perseguição, revólveres, câmera destruída e um filme escondido dentro do tênis
Hoje, fotografar um carro antes de seu lançamento parece uma tarefa relativamente simples. Na década de 1970, porém, descobrir um novo automóvel em testes era uma verdadeira operação de investigação.
As montadoras guardavam seus futuros lançamentos como segredos industriais. Os protótipos circulavam camuflados, acompanhados por equipes de segurança, e os fotógrafos especializados em automóveis precisavam literalmente sair à caça das novidades.
Foi nesse cenário que, em 1973, o fotógrafo Cláudio Larangeira e o repórter Nehemias Vassão, da revista Quatro Rodas, partiram em busca de um dos maiores segredos da Volkswagen do Brasil: o futuro Volkswagen Brasília.
O que eles não imaginavam era que aquela reportagem terminaria com tiros.
UMA MISSÃO CONTRA O RELÓGIO
A Quatro Rodas precisava conseguir uma fotografia exclusiva do novo Volkswagen. O carro ainda não havia sido apresentado oficialmente ao público e a montadora fazia de tudo para impedir que imagens do modelo chegassem às bancas antes da hora.
Larangeira era fotógrafo freelancer e já estava acostumado à perseguição dos chamados "segredos automotivos". Depois de procurar o protótipo em diferentes regiões, ele e Vassão receberam uma informação que os levou à Estrada Velha de Santos, no litoral paulista.
Era exatamente onde deveriam estar.
Durante os testes, apareceu uma comitiva da Volkswagen. Entre os veículos estava o futuro Brasília.
O carro, ainda secreto, circulava acompanhado por veículos de apoio e segurança. O momento era perfeito: finalmente, o fotógrafo tinha diante das lentes aquilo que a Volkswagen queria manter longe das câmeras.
Larangeira começou a fotografar.
E foi aí que a história tomou outro rumo.
A PERSEGUIÇÃO
Depois dos primeiros cliques, os jornalistas perceberam que estavam sendo seguidos.
Os veículos da segurança da Volkswagen partiram atrás do Fusca utilizado pela dupla. A perseguição se estendeu por vários quilômetros — relatos publicados posteriormente apontam mais de sete quilômetros.
A situação rapidamente deixou de ser uma disputa entre fotógrafo e segurança.
Os homens da Volkswagen estavam armados.
Segundo os relatos de Larangeira, houve disparos contra o carro dos jornalistas. Um dos tiros atingiu a região da placa dianteira do Fusca.
Finalmente, o veículo foi obrigado a parar.
O fotógrafo estava com a câmera nas mãos e o material que poderia revelar, antes do lançamento, a aparência do novo Volkswagen.
Os seguranças tomaram a câmera e a destruíram.
Mas havia um detalhe que eles desconheciam.
O SEGREDO ESTAVA NO TÊNIS
No meio da confusão, Larangeira percebeu que precisava salvar o filme.
Rapidamente, retirou o filme da câmera e o escondeu dentro do tênis, entre o pé e o calçado.
Para os seguranças, o material havia sido retirado da câmera.
Eles destruíram o equipamento e levaram o filme que estava dentro dela.
Mas o verdadeiro filme — aquele que continha as fotografias do Brasília — continuava escondido nos pés do fotógrafo.
A polícia rodoviária chegou ao local e os envolvidos foram encaminhados para uma delegacia em São Bernardo do Campo.
A situação ganhou repercussão na imprensa. O episódio aconteceu durante o regime militar brasileiro, em uma época em que a presença de profissionais de segurança armados era comum em algumas montadoras.
Depois de toda a confusão, Larangeira conseguiu sair com aquilo que realmente importava:
as fotografias do Brasília.
"A FOTO, APESAR DO TIRO"
A Quatro Rodas não desperdiçou o furo.
As imagens foram publicadas na edição de maio de 1973, com uma chamada que entrou para a história do jornalismo automotivo:
"Brasília: a foto apesar do tiro."
A revista havia conseguido aquilo que parecia impossível: mostrar ao público o novo Volkswagen antes de sua apresentação oficial.
A história foi tão impactante que a própria Quatro Rodas posteriormente relembrou o episódio como um dos grandes momentos de sua trajetória.
E havia ainda uma consequência inesperada.
O escândalo ajudou a transformar aquelas fotografias em um enorme sucesso editorial. A Quatro Rodas comprou as imagens de Larangeira, então freelancer, e pouco tempo depois o fotógrafo seria contratado pela revista.
Para ele, aquela fotografia acabaria se tornando um marco profissional.
A VOLKSWAGEN PEDE DESCULPAS
A repercussão do episódio chegou à direção da Volkswagen.
Com a história ganhando espaço na imprensa, a empresa acabou se desculpando publicamente pelo comportamento de seus seguranças.
O que deveria ter sido apenas uma tentativa de proteger um lançamento acabou produzindo exatamente o efeito contrário.
O Brasil inteiro passou a ouvir falar daquele carro que a Volkswagen tentava esconder.
E quando finalmente chegou às lojas, em junho de 1973, o Brasília já não era um completo desconhecido.
O CARRO QUE NASCEU PARA SER POPULAR
O Volkswagen Brasília havia sido desenvolvido no Brasil com uma missão bastante clara: oferecer um automóvel compacto, mas com espaço interno e uma carroceria moderna para os padrões da época.
O projeto recebeu internamente o código Tipo 102 e foi desenvolvido pelo designer Marcio Piancastelli.
A ideia era aproveitar a robustez da mecânica Volkswagen, baseada na arquitetura do Fusca, mas apresentar um desenho mais moderno e funcional.
O resultado foi um hatch compacto, de linhas retas, grande área envidraçada e bom aproveitamento do espaço interno.
O motor era o conhecido boxer de quatro cilindros, refrigerado a ar, com 1.584 cm³ e aproximadamente 60 cv na configuração inicial.
A apresentação oficial aconteceu em junho de 1973, apenas um mês depois da chegada do Chevrolet Chevette, seu principal concorrente naquele momento.
DO ESCÂNDALO AO SUCESSO
A história dos tiros acabou criando uma publicidade involuntária para o novo Volkswagen.
A intenção da montadora era manter o Brasília longe dos olhos do público.
Mas a perseguição, os disparos e a câmera destruída transformaram o carro em assunto nacional antes mesmo de sua chegada às concessionárias.
A imprensa ganhou uma história extraordinária.
A Quatro Rodas ganhou uma capa histórica.
Cláudio Larangeira ganhou reconhecimento e, posteriormente, um emprego na própria revista.
E a Volkswagen ganhou algo que nenhuma campanha publicitária poderia planejar daquela maneira:
curiosidade.
O público queria conhecer o carro que havia provocado toda aquela confusão.
UM MILHÃO DE HISTÓRIAS
O episódio de 1973 acabou se tornando apenas o primeiro capítulo da história do Brasília.
O modelo permaneceu em produção no Brasil até 1982 e ultrapassou 1 milhão de unidades produzidas considerando o mercado brasileiro e as exportações, tornando-se um dos Volkswagen mais importantes desenvolvidos no país.
Seu desenho simples, a mecânica conhecida e o bom aproveitamento interno ajudaram a transformar o modelo em um dos grandes sucessos da indústria automobilística brasileira dos anos 1970.
Mas existe uma ironia nessa história.
A Volkswagen gastou dinheiro e mobilizou seguranças para impedir que uma fotografia chegasse às bancas.
No fim, conseguiu exatamente o contrário.
A fotografia chegou.
A história virou notícia.
O carro virou assunto.
E o episódio entrou para a memória do jornalismo automotivo brasileiro.
O FILME SOBREVIVEU
Décadas depois, Cláudio Larangeira ainda lembrava daquele dia como um dos momentos mais marcantes de sua carreira.
A câmera foi destruída.
O carro dos jornalistas foi atingido por um tiro.
Os fotógrafos foram parar na delegacia.
Mas o filme sobreviveu.
Estava escondido no lugar mais improvável possível:
dentro do tênis do fotógrafo.
E foi justamente aquele pequeno rolo de filme que revelou ao Brasil, antes da hora, o carro que a Volkswagen queria manter em segredo.
A Brasília ainda nem havia chegado às concessionárias.
Mas já tinha sua primeira grande história.
E ela começou com uma fotografia, terminou com tiros e entrou para a história com uma frase que resumiu perfeitamente aquele episódio:

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