A história real por trás de “Fuga para a Vitória”
Em 1981, dois mundos que pareciam completamente diferentes se encontraram em um campo de futebol na Hungria. De um lado, Pelé, o maior jogador de futebol de sua geração. Do outro, Sylvester Stallone, astro de Hollywood que havia conquistado o mundo interpretando Rocky Balboa.
O encontro aconteceu durante as filmagens de “Fuga para a Vitória”, dirigido por John Huston, um dos grandes nomes do cinema americano. O filme contava uma história ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, na qual prisioneiros de guerra aliados eram obrigados a enfrentar uma equipe alemã em uma partida de futebol usada como instrumento de propaganda nazista.
Para tornar o filme convincente, Huston reuniu um elenco incomum: Michael Caine, Max von Sydow e Stallone dividiam a tela com verdadeiras lendas do futebol, entre elas Pelé, Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna, Paul Van Himst e Mike Summerbee.
O resultado foi uma produção que, décadas depois, continua sendo lembrada como um dos grandes filmes de futebol do cinema.
STALLONE ERA UM GOLEIRO — MAS NÃO ERA JOGADOR
Stallone interpretava o capitão Robert Hatch, um americano que acaba assumindo a função de goleiro da equipe dos prisioneiros.
O problema era simples: Stallone não era goleiro.
Para prepará-lo, a produção contou com ninguém menos que Gordon Banks, lendário goleiro da seleção inglesa campeã mundial em 1966. Stallone recebeu treinamento específico para aprender os movimentos, as quedas e as defesas necessárias para as cenas.
Mas enfrentar jogadores profissionais era outra história.
Durante as filmagens, Stallone precisou participar de diversas sequências futebolísticas ao lado de atletas que haviam passado a vida inteira fazendo aquilo. Pelé, por sua vez, não estava apenas no elenco: ajudou a organizar e coreografar boa parte das cenas de futebol.
As equipes chegaram a realizar partidas e treinamentos para que Huston pudesse selecionar os melhores momentos. Segundo relatos sobre a produção, as sequências de futebol foram testadas durante semanas, justamente para conseguir imagens convincentes para o filme.
E foi nesse processo que aconteceu um dos episódios mais curiosos da produção.
O CHUTE DE PELÉ
Stallone descobriu da maneira mais dolorosa possível que uma finalização de Pelé não era algo simples de defender.
Durante uma das cenas de treinamento, o ator tentou impedir uma bola chutada pelo brasileiro e acabou lesionando a mão. O relato mais conhecido diz que Stallone quebrou um dos dedos ao tentar defender uma finalização de Pelé. A história é registrada em fontes sobre o filme e também aparece associada à famosa sequência do pênalti.
Mais tarde, o próprio episódio ganhou contornos quase lendários: o astro de “Rocky”, acostumado a interpretar personagens que suportavam golpes impossíveis, acabava derrotado por uma bola chutada pelo Rei do Futebol.
E havia uma razão para Stallone ter sofrido tanto.
Pelé ainda possuía uma capacidade extraordinária de controlar a bola e executar movimentos que pareciam impossíveis. Embora tivesse deixado o futebol competitivo, ele continuava sendo Pelé.
O GOL QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA
Se existe uma cena que resume “Fuga para a Vitória”, é aquela em que Pelé marca um gol de bicicleta.
Na história, o time dos aliados está perdendo por 4 a 3 quando Luis Fernandez, personagem interpretado por Pelé, recebe a oportunidade de mudar o destino da partida.
O brasileiro sobe e executa uma bicicleta espetacular.
A imagem se tornou a cena mais lembrada do filme.
E há um detalhe impressionante: segundo John Wark, ex-jogador profissional que participou da produção, Pelé precisou de apenas uma tomada para acertar a famosa bicicleta.
Não era apenas uma cena de cinema.
Era Pelé fazendo aquilo que havia feito durante toda a carreira: transformar uma situação impossível em espetáculo.
A sequência foi filmada em câmera lenta e recebeu diferentes ângulos para valorizar o movimento. Décadas depois, o lance continua sendo reproduzido quando se fala nos grandes momentos cinematográficos envolvendo futebol.
Até as chuteiras usadas por Pelé naquele filme ganharam importância histórica. Em 2016, um par utilizado durante “Fuga para a Vitória” foi colocado em leilão em Londres e vendido por £ 8.025.
UMA SELEÇÃO DE CRAQUES
O grande diferencial do filme estava justamente na quantidade de jogadores profissionais envolvidos.
Além de Pelé e Bobby Moore, capitão da Inglaterra campeã mundial de 1966, estavam no elenco nomes como Osvaldo Ardiles, campeão mundial pela Argentina em 1978, Kazimierz Deyna, Paul Van Himst, Mike Summerbee, Hallvar Thoresen e Werner Roth.
Jogadores do Ipswich Town também participaram da produção.
Era praticamente uma seleção internacional disfarçada de elenco cinematográfico.
Para muitos deles, a experiência era completamente diferente de uma partida profissional. Mike Summerbee contou posteriormente que recebeu o convite de Bobby Moore imaginando inicialmente que participaria de algo parecido com um documentário. Acabou viajando para a Hungria e passando cerca de seis semanas em Budapeste para as filmagens.
BUDAPESTE VIROU PARIS
Embora a história aconteça em Paris, grande parte das filmagens foi realizada na Hungria.
O estádio utilizado para representar o estádio Colombes, em Paris, foi o antigo MTK Stadium, em Budapeste. A escolha tinha uma justificativa cinematográfica: os produtores procuravam um estádio que não tivesse iluminação artificial moderna e que tivesse aparência compatível com a Europa dos anos 1940.
O campo acabou se transformando no cenário da partida decisiva.
As cenas do campo de prisioneiros também foram filmadas na região de Budapeste, enquanto outros locais da cidade foram utilizados para representar diferentes partes da história.
QUANDO HOLLYWOOD ENCONTROU O REI
“Fuga para a Vitória” é, acima de tudo, um filme.
A história não deve ser confundida com uma reprodução fiel de acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. O roteiro foi inspirado em histórias relacionadas a partidas disputadas durante a ocupação alemã, especialmente no imaginário da chamada “Partida da Morte”, mas a realidade histórica foi muito mais complexa do que a apresentada pelo cinema.
Ainda assim, Hollywood conseguiu criar algo que permanece especial.
Pelé não precisava interpretar um grande jogador.
Ele simplesmente precisava jogar.
Stallone, por outro lado, precisou aprender a ser goleiro diante de alguns dos melhores jogadores do mundo.
E Michael Caine fazia a ponte entre esses dois universos.
No final, a mistura funcionou.
O LEGADO
Lançado em 1981, “Fuga para a Vitória” não se tornou apenas um filme de guerra. Transformou-se em uma peça importante da cultura futebolística.
Hoje, mais de quatro décadas depois, muitas pessoas talvez não se lembrem de todos os detalhes da trama. Mas lembram de Pelé.
Lembram da bicicleta.
Lembram de Stallone no gol.
E lembram da improvável combinação entre cinema de Hollywood e futebol de alto nível.
O episódio do dedo quebrado resume perfeitamente essa mistura.
Stallone entrou em campo como ator para interpretar um goleiro.
Pelé entrou como uma lenda do futebol.
E, durante as filmagens, a realidade acabou se impondo à ficção: uma bola de Pelé foi suficiente para machucar o homem que havia sobrevivido a tantos golpes como Rocky Balboa.
Talvez seja justamente por isso que “Fuga para a Vitória” tenha atravessado gerações.
Porque naquele campo não estavam apenas personagens.
Estavam Stallone, Michael Caine, Bobby Moore e Pelé.
Hollywood tinha suas estrelas.
O futebol tinha as suas.
E, por alguns meses, as duas galáxias jogaram no mesmo time.

Nenhum comentário:
Postar um comentário