sábado, 8 de agosto de 2026

8/8/88 — O DIA EM QUE A TURMA DOS ENSELINOS APRENDEU A RESPEITAR

 Há 38 anos, numa tarde fria e chuvosa em São Paulo, uma turma da 4ª série do Prédio 2 dos Enselinos descobria, da maneira mais cansativa possível, que crescer também significava aprender a respeitar os outros.


Era 8 de agosto de 1988.

Uma data que, para muita gente, poderia ser apenas mais um dia no calendário. Mas, para nós, aquele segunda-feira — ou melhor, aquela lembrança que ficou marcada na memória — ganhou um significado especial.

Era o famoso 8/8/88.

Naquela época, éramos crianças, cheios de energia, coragem e, principalmente, daquela sensação de que éramos donos do mundo. A turma da 4ª série do Prédio 2 dos Enselinos tinha suas próprias regras, suas brincadeiras, suas provocações e aquela velha vontade de mostrar quem mandava.

E foi justamente aí que começou a confusão.

A IDEIA QUE PARECIA ENGRAÇADA

Em algum momento daquele dia, resolvemos mexer com os menores de outra turma.

Não havia, na nossa cabeça de crianças, a intenção de machucar ninguém. A ideia era simplesmente provocar, dar alguns tapas — daqueles que, na nossa visão infantil, serviriam apenas para colocar medo e mostrar que éramos os mais velhos.

Hoje, olhando para aquela história com quase quatro décadas de distância, é impossível não perceber como éramos crianças tentando entender os limites entre brincadeira, provocação e violência.

Naquele momento, entretanto, não pensávamos em nada disso.

Era só uma aventura de turma.

Só que criança também aprende rápido que toda aventura tem consequência.

E a nossa consequência tinha nome e sobrenome:

Professor Ivo.

QUANDO O PROFESSOR IVO APARECEU

A história chegou aos ouvidos do professor.

E quando o professor Ivo ficou sabendo do que tinha acontecido, resolveu nos fazer uma visita.

Não foi exatamente aquela visita que uma turma espera receber.

Ele chegou para conversar.

E conversou.

Aliás, conversou bastante.

Recebemos uma verdadeira lição de moral.

Professor Ivo não precisou gritar para deixar claro que tínhamos passado dos limites. Ele explicou que não era porque éramos maiores que poderíamos intimidar os menores.

Mas a parte mais importante daquela conversa veio quando ele resolveu nos mostrar o futuro.

Mais ou menos assim:

“Ano que vem, quando vocês forem para a Unidade 1, lá vocês serão os pequenos. Então vamos todos respeitar um a um.”

A frase ficou.

Talvez porque, naquele momento, nós ainda não tivéssemos maturidade para entender completamente o que ele queria dizer.

Mas entendemos uma coisa:

  • O mundo dá voltas.

  • Hoje você é o maior.

  • Amanhã pode ser o menor.

  • Hoje você assusta.

  • Amanhã pode ser você quem estará assustado.

  • E, principalmente, ninguém perde nada quando aprende a respeitar.

O CASTIGO

Depois da conversa veio a segunda parte da aula.

Porque nos Enselinos, aparentemente, a teoria precisava vir acompanhada de prática.

O castigo foi determinado:

  • 30 minutos correndo na quadra, durante oito semanas.

  • Trinta minutos.

  • Oito semanas. ( representando o mês de Agosto ).

  • Na cabeça de uma criança, aquilo parecia uma sentença interminável.

  • E não era simplesmente correr quando desse vontade.

  • Tinha fiscalização.

Havia inspetor acompanhando a turma para verificar se o castigo estava sendo cumprido.

Ou seja: não dava para diminuir uma volta, fingir que estava cansado ou simplesmente desaparecer atrás de algum canto da quadra.

Era correr.

E correr.

E correr.

Durante oito semanas.

SÃO PAULO, FRIO, CHUVA E QUADRA

A lembrança fica ainda mais curiosa quando colocamos aquela história no cenário de São Paulo de 1988.

Uma tarde fria.

Chuvosa.

Aquele clima paulistano em que o céu parece ficar cinza durante horas e o frio entra pela roupa.

Enquanto muita gente provavelmente queria estar protegida dentro de algum lugar quente, nós tínhamos um compromisso.

A quadra.

Trinta minutos.

E lá estávamos nós.

A turma que dias antes tinha se achado grande o suficiente para assustar os menores agora estava ali, correndo sob a vigilância do inspetor.

Talvez tenha sido justamente esse contraste que fez a lição ficar tão marcada.

Nós queríamos demonstrar força.

Recebemos disciplina.

Queríamos colocar medo.

Aprendemos sobre respeito.

Queríamos mostrar que éramos os maiores.

E ouvimos que, no ano seguinte, seríamos os pequenos.

38 ANOS DEPOIS

Passaram-se 38 anos.

O mundo mudou.

São Paulo mudou.

Os Enselinos mudaram.

Nós crescemos.

Aquela turma da 4ª série deixou de ser criança. Cada um seguiu seu caminho, construiu sua própria história, enfrentou problemas, comemorou conquistas e descobriu que a vida adulta é muito mais complicada do que parecia quando tínhamos idade para acreditar que uma corrida de 30 minutos era o pior castigo do mundo.

Hoje, olhando para trás, a história provoca risadas.

Aquela confusão, os tapas, a chegada do professor Ivo, a bronca, o castigo e as oito semanas de corrida fazem parte de um álbum de memórias que não está guardado em nenhuma gaveta.

Está guardado na cabeça.

E talvez seja justamente isso que torna essas histórias tão importantes.

Não lembramos apenas do que aconteceu.

Lembramos de quem éramos.

A LIÇÃO QUE FICOU

Naquela época, talvez o que mais importasse fosse escapar da bronca, sobreviver aos 30 minutos de corrida e esperar finalmente terminar aquelas oito semanas.

Mas o tempo tem uma maneira interessante de ensinar.

Algumas lições só são completamente compreendidas muitos anos depois.

A frase do professor Ivo — “ano que vem vocês serão os pequenos” — talvez tenha sido a parte mais importante daquele castigo.

Porque a vida inteira funciona mais ou menos assim.

Os papéis mudam.

Quem está por cima pode ficar por baixo.

Quem ensina também aprende.

Quem é forte em determinado momento pode precisar da ajuda de alguém amanhã.

E é por isso que respeito nunca deveria depender de tamanho, idade, posição ou força.

Respeito deve ser regra.

Um por um.

O FAMOSO 8/8/88

Hoje, quando alguém fala em 8 de agosto de 1988, talvez a maioria das pessoas não tenha nenhuma lembrança especial.

Para nós, porém, aquela data tem cheiro de chuva, frio de São Paulo, quadra de escola, corrida, bronca e amizade.

Tem a voz do professor Ivo.

Tem a turma da 4ª série do Prédio 2.

Tem os menores que foram provocar.

Tem os maiores que acabaram aprendendo.

E tem uma história que, 38 anos depois, continua sendo contada.

No fim das contas, talvez aquele tenha sido um dos primeiros grandes ensinamentos da nossa infância:

não precisamos ser maiores para sermos respeitados. Precisamos aprender a respeitar.

E, convenhamos, se naquela época alguém tivesse nos contado que aquela simples frase do professor Ivo permaneceria viva na memória quase quatro décadas depois, provavelmente teríamos achado graça.

Hoje não achamos mais.

Hoje entendemos.

Naquele 8/8/88, entre uma travessura e outra, uma turma de crianças recebeu uma das primeiras grandes aulas da vida.

E o professor Ivo, com sua bronca e suas oito semanas de castigo, fez questão de que ninguém esquecesse.

Trinta minutos por dia.

Oito semanas.

Uma lição para a vida inteira.

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