Fundado por um imigrante ucraniano, o tradicional armazém do bairro Uberaba atravessa gerações preservando receitas, móveis, costumes e a memória de uma Curitiba que resiste ao desaparecimento.
Em uma época em que supermercados modernos, lojas de conveniência e grandes redes comerciais dominam boa parte das cidades, existem lugares que parecem desafiar a passagem do tempo. São estabelecimentos que vão muito além da venda de produtos ou do serviço de alimentação: guardam histórias de famílias, lembranças de antigos moradores e tradições que continuam vivas graças à dedicação de quem se recusa a deixar o passado desaparecer.
Em Curitiba, no Paraná, um desses lugares é o Armazém Santa Ana, estabelecimento tradicional do bairro Uberaba que, segundo sua história familiar, foi inaugurado em 1934 pelo imigrante ucraniano Paulo Szpak. Há mais de nove décadas, o local mantém uma ligação especial com a comunidade e representa um capítulo da história comercial e gastronômica da capital paranaense.
O que torna o Santa Ana tão especial não é apenas sua longevidade. É a continuidade de uma tradição familiar que atravessou diferentes épocas, acompanhou as transformações da cidade e preservou elementos de um modo de vida que hoje desperta curiosidade e nostalgia.
Ao entrar em um armazém histórico como esse, o visitante encontra uma atmosfera diferente daquela dos estabelecimentos contemporâneos. A arquitetura, os móveis antigos, os objetos preservados e o ambiente tradicional ajudam a criar a sensação de que o tempo passou de maneira mais lenta naquele endereço.
É uma experiência que combina gastronomia, memória e identidade cultural, oferecendo aos clientes a oportunidade de conhecer um pouco da Curitiba de outras gerações.
A história de Paulo Szpak e o nascimento de uma tradição
A trajetória do Armazém Santa Ana está ligada à história da imigração e à formação dos bairros curitibanos. No início do século XX, famílias vindas de diferentes países europeus chegaram ao Paraná, trazendo idiomas, costumes, conhecimentos profissionais e tradições culinárias que ajudariam a compor a identidade cultural da região.
Entre essas histórias está a de Paulo Szpak, imigrante ucraniano que fundou o estabelecimento em 1934. Naquele período, Curitiba apresentava características muito diferentes das atuais. A cidade crescia, os bairros se desenvolviam e o comércio de proximidade desempenhava um papel fundamental na vida cotidiana.
Os armazéns tradicionais eram pontos importantes de abastecimento e convivência. Neles, moradores compravam alimentos e produtos de uso diário, conversavam sobre os acontecimentos da vizinhança e mantinham relações pessoais com os comerciantes. Diferentemente das grandes redes de hoje, muitos desses estabelecimentos construíam sua reputação com base na confiança, no atendimento próximo e na continuidade das relações com os clientes.
O Santa Ana nasceu nesse contexto histórico e permaneceu ligado a essa tradição. Ao longo dos anos, o estabelecimento atravessou mudanças econômicas, transformações urbanas e novas tendências de consumo, sem perder sua identidade de lugar tradicional.
A continuidade da família à frente do negócio representa um dos aspectos mais interessantes dessa história. Manter um empreendimento por tantas décadas exige muito mais do que preservar um endereço comercial: é necessário transmitir conhecimentos, cuidar do patrimônio e adaptar-se às necessidades de cada geração sem abandonar as características que tornaram o local reconhecido.
Essa combinação entre permanência e transformação ajuda a explicar por que estabelecimentos históricos despertam tanto interesse. Eles permitem observar, em escala humana, como uma cidade muda sem apagar completamente suas raízes.
Um patrimônio que pode ser visto e sentido
Um dos grandes atrativos do Armazém Santa Ana está na preservação de elementos que remetem às suas origens. Em vez de transformar completamente o ambiente para acompanhar as tendências da decoração comercial, o estabelecimento conserva parte de sua arquitetura, seus móveis e outros detalhes tradicionais.
Esses elementos têm um valor que vai além da aparência. Um balcão antigo, uma peça de mobiliário ou um detalhe arquitetônico pode funcionar como testemunha silenciosa de diferentes períodos da história do lugar.
Cada objeto preservado ajuda a construir uma narrativa sobre o cotidiano de outras épocas. É possível imaginar quantas pessoas passaram por aquele espaço, quantas conversas aconteceram entre suas paredes e quantas mudanças foram observadas por quem trabalhou ali ao longo das décadas.
O ambiente também proporciona uma experiência diferente para os visitantes mais jovens, que podem conhecer características de um comércio anterior à popularização dos supermercados e dos estabelecimentos padronizados.
Para os moradores mais antigos, por outro lado, lugares assim podem despertar lembranças de uma Curitiba com outros ritmos, outras relações comerciais e uma vida de bairro mais presente no cotidiano.
Essa capacidade de conectar diferentes gerações transforma o armazém em algo semelhante a um pequeno museu vivo, embora sua função continue sendo a de um estabelecimento em atividade. Não se trata apenas de expor objetos antigos, mas de manter um espaço funcionando, recebendo pessoas e transmitindo suas tradições por meio da experiência cotidiana.
É justamente essa continuidade que torna o Santa Ana um exemplo interessante de preservação da memória urbana: a história não está somente nas fotografias ou nos documentos, mas também no próprio funcionamento do lugar.
Da venda de secos e molhados à gastronomia tradicional
Nos primeiros anos, o Armazém Santa Ana tinha uma função muito diferente daquela que exerce atualmente. O estabelecimento foi criado como uma taverna e, posteriormente, tornou-se um comércio de secos e molhados, vendendo produtos essenciais para as famílias da região.
Na década de 1930, a atual Avenida Senador Salgado Filho era uma importante estrada de ligação entre Curitiba e São José dos Pinhais, além de integrar o caminho em direção a Santa Catarina. Naquela época, o entorno do Uberaba tinha características rurais, e os deslocamentos podiam ser demorados.
O armazém tornou-se uma parada estratégica para agricultores, tropeiros e viajantes. Quem seguia para Curitiba podia descansar, dar água aos animais e comprar mantimentos. No retorno, o estabelecimento oferecia alimentação e produtos para levar para casa.
A família também produzia parte dos alimentos consumidos no local. Havia criação de animais e cultivo de uvas, além da preparação de embutidos, vinho e vinagre. Com o tempo, aquilo que inicialmente fazia parte da alimentação cotidiana da família passou a conquistar os clientes.
Essa relação entre a cozinha doméstica e o comércio ajudou a construir a identidade gastronômica do Santa Ana. As receitas foram transmitidas entre gerações, incorporando influências das tradições ucranianas, polonesas e da culinária regional paranaense.
Pierogi, carne de onça e sabores que atravessam gerações
Se a arquitetura ajuda a contar a história do lugar, a gastronomia é uma das principais responsáveis por manter essa história viva.
Entre os destaques do cardápio está o pierogi, uma preparação tradicional da Europa Central e Oriental, especialmente associada às cozinhas polonesa e ucraniana. O prato consiste em uma massa recheada, geralmente cozida, que pode receber diferentes acompanhamentos e combinações de ingredientes.
No Santa Ana, essa tradição ganhou espaço entre as especialidades da casa. Receitas familiares, como o pierogi recheado com ricota e linguiça Blumenau, são exemplos de como a herança culinária dos imigrantes continua presente na mesa dos clientes.
Outro clássico é a carne de onça, preparação tradicional de Curitiba feita com carne bovina crua e temperada, servida sobre broa de centeio e acompanhada de temperos, como cebola e cheiro-verde. Apesar do nome curioso, o prato não leva carne de onça: trata-se de uma especialidade regional que se tornou parte da identidade gastronômica da capital paranaense.
A combinação entre a carne de onça, os embutidos, os queijos e outras porções tradicionais faz do armazém um destino procurado por quem deseja conhecer sabores associados à cultura local.
Também merece destaque o eisbein, tradicional joelho de porco muito conhecido na culinária alemã, além de outras preparações que refletem a diversidade das influências europeias presentes na história familiar.
Esses pratos mostram que a preservação de uma tradição não depende apenas de manter uma receita escrita. É necessário conservar os métodos de preparo, escolher os ingredientes, respeitar os temperos e transmitir o conhecimento de quem aprendeu a cozinhar com as gerações anteriores.
No Santa Ana, a gastronomia funciona como uma forma de memória afetiva. Para alguns clientes, os sabores remetem à infância e às refeições em família; para outros, representam uma oportunidade de descobrir receitas que não aparecem com tanta frequência nos restaurantes contemporâneos.
Um comércio onde se vende de tudo
O nome armazém também conserva seu significado original: um lugar em que diferentes produtos convivem no mesmo espaço.
Ao longo de sua história, o Santa Ana comercializou uma variedade de mercadorias que ultrapassava os alimentos. Ferramentas, utensílios domésticos, artigos para o trabalho rural, calçados tradicionais e objetos de uso cotidiano faziam parte da diversidade oferecida aos moradores.
Essa característica ainda contribui para a personalidade do estabelecimento. Objetos antigos, prateleiras, mercadorias expostas e peças que remetem ao comércio de outras décadas ajudam a compor um ambiente que desperta a curiosidade dos visitantes.
Em um supermercado moderno, os produtos costumam ser organizados por categorias, em corredores padronizados. Em um armazém tradicional, a disposição das mercadorias pode contar uma história própria, misturando itens de uso prático, produtos regionais e objetos que fazem parte da memória do negócio.
O resultado é um espaço em que comprar, comer e observar se tornam experiências complementares. Não é necessário ser um historiador ou um especialista em gastronomia para apreciar o valor desse patrimônio: basta prestar atenção aos detalhes.
A família Szpak e a continuidade de um legado
Manter um negócio familiar durante tantas décadas é um desafio que envolve trabalho diário, responsabilidade e capacidade de adaptação.
Após a geração fundadora, o filho Pedro Szpak assumiu papel importante na continuidade do estabelecimento, ao lado de sua esposa, Orlanda Peters. Ela contribuiu para a ampliação das tradições culinárias da casa, enquanto a família preservava o caráter comercial e a diversidade de produtos.
As gerações seguintes também participaram dessa trajetória. Reportagens sobre os 90 anos do armazém identificaram os irmãos Ana e Fábio Szpak como descendentes do fundador e responsáveis pela continuidade dos negócios familiares.
Essa sucessão ajuda a explicar a permanência do Santa Ana. Cada geração recebeu uma estrutura, um conjunto de conhecimentos e uma reputação construída ao longo dos anos. Ao assumir o estabelecimento, coube aos descendentes preservar o que era essencial e, ao mesmo tempo, encontrar maneiras de manter a atividade comercial relevante.
O desafio é especialmente significativo em um período no qual muitos pequenos negócios enfrentam mudanças nos hábitos de consumo, aumento dos custos e concorrência de grandes redes.
A história do Santa Ana mostra que a tradição também pode ser um diferencial. Em vez de competir apenas por preço ou conveniência, um estabelecimento histórico oferece algo difícil de reproduzir: autenticidade, vínculo com a comunidade e uma experiência que não pode ser separada de sua trajetória.
Um patrimônio vivo de Curitiba
O Armazém Santa Ana completou 90 anos em 2024 e chegou a outubro de 2026 com mais de 92 anos de história. Sua longevidade foi reconhecida publicamente, inclusive em reportagens que destacam a preservação da estrutura e a continuidade da administração familiar. <Cite refs={["turn516459search9"," turn516459search8"]}/>
O estabelecimento representa uma parte importante da memória comercial do bairro Uberaba e da transformação de Curitiba ao longo do século XX. Sua trajetória conecta a imigração europeia, o desenvolvimento das antigas estradas, o comércio de bairro e a gastronomia tradicional.
Mais do que conservar uma construção antiga, a família mantém uma atividade que continua recebendo clientes, servindo pratos e comercializando produtos. É essa combinação que transforma o local em um patrimônio vivo, capaz de reunir passado e presente sem deixar de cumprir sua função cotidiana.
Em tempos de mudanças rápidas, lugares como o Santa Ana lembram que modernização não precisa significar o desaparecimento de todas as tradições. Algumas histórias podem continuar sendo escritas justamente porque alguém decidiu preservar aquilo que as torna únicas.
**Visitar o Armazém Santa Ana é conhecer um pedaço da história de Curitiba, experimentar receitas transmitidas entre gerações e descobrir como um pequeno comércio pode se transformar em referência cultural para uma cidade inteira.**
---**SERVIÇO**- **Local:** Armazém Santa Ana- **Endereço:** Avenida Senador Salgado Filho, 4.460, bairro Uberaba, Curitiba — PR.- **Instagram:** @armazem_santa_ana*Antes de visitar, consulte o perfil oficial do estabelecimento para confirmar horários de funcionamento e opções atuais do cardápio.*
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