Um brasileiro com alma italiana
Brasil → Itália → Brasil: a viagem internacional de um dos conversíveis mais desejados dos anos 1990
Nos anos 1990, ter um carro conversível no Brasil era algo especial. O mercado ainda era fechado aos importados e modelos desse tipo eram raros, caros e cercados por uma aura de exclusividade.
Foi nesse cenário que surgiu o Chevrolet Kadett GSi Conversível, um dos automóveis mais interessantes produzidos pela indústria brasileira naquela década. E havia uma curiosidade que tornava sua história ainda mais extraordinária: embora fosse vendido como um Chevrolet brasileiro, parte de sua transformação acontecia a milhares de quilômetros de distância, na Itália.
A trajetória era digna de um carro de luxo europeu: Brasil → Itália → Brasil.
O Kadett chegava à linha de produção brasileira e tinha sua estrutura parcialmente fabricada por aqui. Depois, essa estrutura era embarcada para a Itália, onde entrava em cena uma das empresas mais famosas do mundo do design automotivo: a Bertone.
Era ali que o Kadett deixava de ser um hatch convencional para ganhar sua configuração conversível.
A assinatura de Bertone
A história do Kadett conversível, porém, começou antes de sua chegada ao Brasil.
Na Europa, a Opel apresentou a quinta geração do Kadett em 1984. Pouco depois, surgiu a ideia de transformar o modelo em um conversível. A Opel recorreu ao estúdio de Nuccio Bertone, um dos grandes nomes do design automobilístico italiano.
A produção do Kadett Cabriolet começou na Europa em 1987, criando a base para aquilo que mais tarde seria adaptado ao mercado brasileiro.
Quando a versão brasileira foi desenvolvida, a General Motors aproveitou essa experiência. O projeto tinha uma característica incomum para um automóvel nacional: não era simplesmente um carro fabricado no Brasil e transformado por uma empresa local.
A estrutura metálica do Kadett era produzida parcialmente no país e enviada para a Itália.
Segundo registros da época, o assoalho e a parte dianteira da carroceria eram estampados no Brasil. Depois, a estrutura era colocada em um navio e seguia viagem para a Carrozzeria Bertone. A travessia podia levar aproximadamente um mês.
Na Itália começava uma verdadeira operação artesanal.
De hatch a conversível
Transformar um automóvel fechado em conversível não significava simplesmente cortar o teto.
Ao retirar o teto, a carroceria perde parte de sua rigidez estrutural. Por isso, era necessário modificar e reforçar a estrutura, além de criar todo o sistema que permitiria ao carro funcionar corretamente sem a cobertura metálica.
Na Bertone, a carroceria recebia os elementos necessários para assumir a configuração aberta. Portas, partes traseiras, tampa do porta-malas, estrutura da capota e outros componentes eram incorporados ao projeto.
O trabalho era complexo e envolvia muita mão de obra. Até mesmo o mecanismo da capota era uma pequena obra de engenharia: eram 69 componentes montados manualmente.
Depois de transformado, o Kadett fazia novamente o caminho inverso.
A carroceria voltava para o Brasil, onde a General Motors realizava a etapa final de montagem.
Era aqui que recebia pintura, motor, câmbio, direção, suspensão, acabamento interno e os demais componentes necessários para se transformar em um automóvel pronto para as ruas.
Um carro brasileiro, portanto, com uma etapa fundamental de sua fabricação realizada na Itália.
UMA VIAGEM QUE CUSTAVA CARO
O Kadett GSi Conversível chegou em um momento especial do mercado brasileiro
O lançamento aconteceu no final de 1991, justamente quando o mercado brasileiro começava a viver uma transformação importante.
A abertura econômica aproximava o consumidor brasileiro de automóveis estrangeiros. BMW, Mercedes-Benz, Alfa Romeo e outros fabricantes começavam a disputar espaço nas ruas brasileiras.
Nesse ambiente, o Kadett GSi tinha uma missão interessante: oferecer esportividade, tecnologia e exclusividade sem deixar de ser um produto produzido pela indústria nacional.
A versão GSi substituiu o antigo GS e ganhou um importante diferencial: a injeção eletrônica multiponto.
O motor 2.0 desenvolvia 121 cv, potência bastante respeitável para a época. No teste realizado pela Quatro Rodas em dezembro de 1991, o conversível atingiu 175,4 km/h e acelerou de 0 a 100 km/h em 10,7 segundos.
O desempenho era próximo ao do GSi fechado, mas havia uma explicação para a pequena diferença: o conversível era aproximadamente 85 kg mais pesado, principalmente por causa dos reforços estruturais necessários para compensar a ausência do teto metálico.
O duelo com o Escort XR3
Naquela época, o grande rival nacional era o Ford Escort XR3 Conversível.
O Ford tinha uma vantagem importante: sua transformação era realizada no Brasil, em parceria com a Karmann Ghia. O Kadett, por outro lado, tinha aquela complexa viagem internacional.
Mas o Chevrolet compensava com tecnologia e desempenho.
No comparativo de 1991, o Kadett GSi Conversível foi mais rápido que o XR3 1.8: fez 0 a 100 km/h em 10,7 segundos, contra 12,18 segundos do Ford, e atingiu 175,4 km/h, contra 168,4 km/h do concorrente.
Era uma disputa que simbolizava muito bem aquele Brasil dos primeiros anos da década.
De um lado, o Escort XR3, já consagrado como objeto de desejo. Do outro, um Kadett moderno, tecnológico e com uma inesperada assinatura italiana.
Um carro para poucos
Toda essa complexidade tinha um preço.
O processo de fabricação era demorado, caro e logisticamente complicado. Afinal, não era comum produzir uma parte do automóvel em São Paulo, atravessar o Atlântico, transformar a carroceria na Itália e depois trazer o veículo de volta para terminar sua montagem.
Essa logística ajudava a explicar por que o Kadett GSi Conversível era tão caro e exclusivo.
No início do Plano Real, em 1994, enquanto um GSi convencional era cotado em cerca de US$ 29 mil, o conversível chegava a aproximadamente US$ 39 mil.
Era dinheiro suficiente para colocá-lo em uma categoria bastante exclusiva dentro do mercado brasileiro.
Tecnologia e detalhes exclusivos
O interior do conversível também tinha suas particularidades.
Enquanto o Kadett GSi fechado utilizava interior em tom cinza, o conversível tinha acabamento interno sempre preto. As lanternas traseiras também eram diferentes e vinham do Kadett sedã, modelo que não foi produzido no Brasil.
Nos primeiros exemplares, a capota era acionada manualmente. A partir de 1993, passou a contar com acionamento elétrico, acrescentando ainda mais sofisticação ao modelo.
Tudo isso ajudava a construir a imagem de um carro especial.
Não era simplesmente um Kadett sem teto.
Era um GSi Conversível desenvolvido para ser diferente.
O fim de uma era
O Kadett GSi Conversível permaneceu como uma das versões mais exclusivas da família até meados dos anos 1990.
A chegada de novos importados e, posteriormente, do Astra, mudou completamente o cenário. O consumidor brasileiro passou a ter acesso a uma variedade cada vez maior de modelos sofisticados.
O Kadett, que havia sido símbolo de modernidade no final dos anos 1980 e início dos 1990, começou a perder espaço.
Mesmo assim, o conversível deixou uma marca especial.
Hoje, ele é lembrado não apenas pelo desenho, pelo motor 2.0 ou pelo painel digital, mas principalmente por sua história de fabricação incomum.
Poucos automóveis nacionais podem contar que foram produzidos em duas pontas do mundo.
O Kadett GSi Conversível era brasileiro na origem, italiano na transformação e novamente brasileiro na conclusão.
Brasil → Itália → Brasil.
Uma viagem de milhares de quilômetros para criar um dos conversíveis mais fascinantes da indústria automobilística brasileira.
E talvez seja justamente essa combinação que explique por que, décadas depois, o Kadett GSi Conversível continua despertando tanta admiração entre colecionadores e apaixonados por carros.
Ele não foi apenas um automóvel.
Foi um pequeno pedaço da Itália que atravessou o Atlântico — e voltou para as ruas brasileiras com a elegância de um verdadeiro carro europeu.

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