O aeroporto que marcou a história da aviação no Rio Grande do Norte
Por décadas, o Aeroporto Augusto Severo foi a principal porta de entrada aérea do Rio Grande do Norte. Em 2014, os voos comerciais deixaram suas pistas e seguiram para o novo aeroporto de Natal. Mas a história daquele lugar não terminou: a antiga estrutura continua ligada à aviação e permanece sob utilização da Força Aérea Brasileira.
Durante grande parte do século XX e início do século XXI, quem chegava ao Rio Grande do Norte de avião quase sempre tinha um primeiro encontro com Natal ainda no Aeroporto Augusto Severo.
Localizado em Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, o aeroporto tornou-se muito mais do que uma pista de pouso e decolagem. Foi ponto de chegada de turistas, palco de despedidas, reencontros familiares e testemunha do crescimento econômico e urbano do estado.
Seu nome homenageia Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, pioneiro potiguar da aeronáutica e uma das figuras mais importantes da história da aviação brasileira.
A relação do local com a aviação, entretanto, começou muito antes da moderna estrutura aeroportuária que os potiguares conheceram durante décadas.
UM LUGAR NASCIDO PARA A AVIAÇÃO
A história aeronáutica de Parnamirim ganhou importância ainda durante a Segunda Guerra Mundial. A posição estratégica do Rio Grande do Norte, avançando em direção ao Atlântico e relativamente próximo da África, transformou a região em um ponto fundamental para as operações aéreas no Nordeste.
Foi nesse contexto que Parnamirim ganhou enorme importância militar. A área passou a receber instalações utilizadas por forças brasileiras e norte-americanas, tornando-se parte de uma das principais bases aéreas estratégicas do Atlântico Sul.
A posição geográfica era extraordinária.
A partir dali, aeronaves poderiam seguir em direção ao continente africano, fazendo do local uma espécie de ponte aérea entre a América e a África. A intensa movimentação de aviões durante o período rendeu à região um papel que ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Parnamirim entrou definitivamente para a história da aviação mundial.
Com o fim da guerra, a estrutura permaneceu ligada à atividade aeronáutica. Ao longo das décadas seguintes, o aeroporto passou por transformações, acompanhando o crescimento da aviação comercial brasileira e a expansão de Natal como destino turístico.
A PORTA DE ENTRADA DO TURISMO
A partir das últimas décadas do século XX, o Augusto Severo assumiu um papel ainda mais importante para a economia potiguar.
O crescimento do turismo transformou Natal em um dos principais destinos do Nordeste. Praias, dunas, sol praticamente durante todo o ano e a paisagem característica do litoral potiguar atraíam visitantes de diferentes regiões do Brasil e também do exterior.
E o primeiro contato de muitos desses turistas com o estado acontecia justamente no aeroporto.
Por suas pistas passaram aeronaves de companhias brasileiras e estrangeiras. O movimento cresceu junto com a cidade e com a consolidação de Natal no mapa turístico nacional.
Para muitos moradores, o aeroporto também faz parte da memória afetiva da cidade.
Foi ali que famílias receberam parentes depois de longas viagens. Foi dali que muitos potiguares partiram para estudar, trabalhar ou morar em outras cidades. Foi ali também que inúmeras histórias começaram — e outras chegaram ao fim.
Durante anos, dizer que alguém estava “chegando pelo Augusto Severo” era praticamente sinônimo de estar chegando a Natal.
QUANDO O AEROPORTO MUDOU DE ENDEREÇO
A transformação mais marcante da história recente aconteceu em 31 de maio de 2014.
Naquele dia, a operação comercial de passageiros foi transferida para o novo aeroporto construído em São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Natal.
A mudança foi planejada para ocorrer durante a madrugada, permitindo que o aeroporto antigo encerrasse suas operações e que o novo começasse a receber os voos comerciais em poucas horas.
Era o fim de uma era para o Augusto Severo.
O novo terminal havia sido construído com a promessa de atender à crescente demanda de passageiros e oferecer uma estrutura moderna para o futuro da aviação comercial potiguar.
Na prática, uma parte da rotina que havia se repetido durante décadas mudou de endereço de uma só vez.
Os passageiros que antes desembarcavam em Parnamirim passaram a chegar a São Gonçalo do Amarante.
As placas, os balcões de check-in, as filas, os carrinhos de bagagem e o movimento constante de turistas deixaram para trás o antigo terminal.
Para quem acompanhou a história do aeroporto, porém, aquela não era simplesmente uma mudança operacional.
Era o encerramento de um capítulo.
UMA DESPEDIDA SEM ABANDONO
Apesar de deixar de receber os voos comerciais regulares, o Augusto Severo não se transformou em um aeroporto abandonado.
As pistas e instalações permaneceram vinculadas à atividade aeronáutica militar, sob utilização da Força Aérea Brasileira.
Essa permanência é particularmente simbólica.
O local que ajudou a escrever capítulos importantes da aviação militar e comercial brasileira continuou exercendo uma função relacionada ao mesmo universo que marcou sua existência: a aviação.
Assim, enquanto os passageiros passaram a utilizar o novo aeroporto, aeronaves militares continuaram encontrando no antigo complexo uma estrutura estratégica.
A paisagem mudou, o movimento diminuiu e o cotidiano passou a ser completamente diferente daquele vivido durante os anos de intensa atividade comercial. Mas as pistas continuaram fazendo parte da história operacional da aviação brasileira.
DO PASSADO PARA O FUTURO
O Augusto Severo representa uma característica curiosa da história dos grandes aeroportos: alguns deixam de ser portas de entrada para passageiros, mas continuam importantes por razões que vão muito além do transporte comercial.
Sua trajetória está diretamente ligada à posição estratégica do Rio Grande do Norte, à Segunda Guerra Mundial, ao desenvolvimento da aviação brasileira e à transformação de Natal em um importante destino turístico.
Também é uma história sobre mudanças.
Durante décadas, o aeroporto acompanhou a evolução das aeronaves, das companhias aéreas e do próprio estado. Viu aviões cada vez maiores chegarem às suas pistas, acompanhou a popularização das viagens aéreas e testemunhou o crescimento de uma cidade que passou a receber visitantes de todo o país.
Em 2014, quando os voos comerciais partiram definitivamente, parecia que uma parte daquela história estava sendo encerrada.
Mas não estava.
O Augusto Severo simplesmente mudou de função.
Hoje, quando um avião cruza os céus de Parnamirim e a movimentação aeronáutica volta a chamar a atenção para aquela área, fica uma lembrança importante: as pistas que durante décadas receberam passageiros continuam pertencendo à história da aviação.
E talvez seja justamente essa a maior marca do antigo aeroporto.
Ele não desapareceu.
Apenas deixou de ser a porta de entrada do Rio Grande do Norte para se tornar parte permanente da memória — e da própria estrutura — da aviação brasileira.
UM NOME QUE PERMANECE
A homenagem a Augusto Severo também ajuda a compreender a importância simbólica do local.
Nascido no Rio Grande do Norte, o pioneiro dedicou-se aos estudos e experimentos aeronáuticos em uma época em que voar ainda era um dos grandes desafios tecnológicos da humanidade.
Sua trajetória terminou tragicamente em Paris, em 1902, quando o dirigível Pax, desenvolvido por ele, sofreu um acidente durante uma demonstração.
Mais de um século depois, seu nome permanece associado à história da aviação.
Em Parnamirim, o aeroporto que levou seu nome tornou-se parte da memória coletiva de várias gerações.
Para quem viveu a época de intenso movimento comercial, o Augusto Severo representa lembranças de viagens, chegadas e partidas.
Para a história militar, representa a importância estratégica de Parnamirim.
Para a aviação brasileira, representa uma trajetória de mais de um século de transformações.
E para o Rio Grande do Norte, permanece como um daqueles lugares que ajudam a explicar como o estado se conectou ao Brasil e ao mundo.
O terminal comercial mudou. Os passageiros mudaram de endereço. Mas as pistas permaneceram. E, enquanto houver aviões cruzando os céus de Parnamirim, o nome Augusto Severo continuará voando.



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