sexta-feira, 3 de julho de 2026

Saudades Eternas de Nuna

 Há textos que parecem impossíveis de escrever. Não por falta de palavras, mas porque cada frase carrega um pedaço da alma. Este é um deles.


Demorei muito para conseguir colocar tudo isso no papel. Durante dias tentei escrever, apagava, começava novamente, desistia. A dor era maior que qualquer palavra. Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim dizendo que eu precisava contar essa história.

Talvez como forma de homenagear quem fez parte da minha vida. Talvez para aliviar um pouco o peso que carrego no peito. Ou simplesmente porque algumas lembranças merecem ser eternizadas.

Tudo começou muitos anos atrás.

Entre 2018 e 2021 vivemos uma história cheia de momentos inesquecíveis. Como todo relacionamento, tivemos dias maravilhosos, dias difíceis, alegrias, decepções, discussões, reconciliações e muito aprendizado.

É natural.

Duas pessoas de personalidade forte inevitavelmente discordam. Ambos éramos cabeça-dura. Brigávamos, discutíamos, mas também construíamos sonhos, dividíamos responsabilidades e criávamos memórias que jamais poderão ser apagadas pelo tempo.

Foi durante esse período que a Nuna entrou em nossas vidas. (2020)

No início, foi você quem a adotou. Depois, de alguma forma, ela deixou de ser apenas sua e passou a ser nossa. Tornou-se parte da família.

Pouco tempo depois, veio também a Gorda.

Nossa casa ganhou mais vida, mais alegria e mais amor.

Os dias passaram a ter outra rotina. Acordar, cuidar delas, brincar, observar suas manias, rir das travessuras e perceber como cada uma possuía uma personalidade completamente diferente.

A Nuna sempre foi especial.

Inteligente.

Observadora.

Muito ligada às pessoas que conhecia.

Ao mesmo tempo, extremamente desconfiada com quem não fazia parte do seu convívio.

Quando meu mudei para Campina Grande, elas foram junto comigo.

Era impensável deixá-las.

Levei a Nuna.

Levei a Gorda.

Elas enfrentaram comigo uma nova cidade, uma nova casa e uma nova rotina.

Depois veio o retorno para Natal.

Mais uma vez, as duas vieram comigo.

Elas nunca foram um peso.

Sempre foram companhia.

Família.

Durante todos esses anos, procurei cuidar delas da melhor maneira possível.

Veterinário.
Vacinas.

Alimentação.

Carinho.

Atenção.

Tudo aquilo que estava ao meu alcance.

Lembro perfeitamente do dia da castração da Nuna.

Você esteve ao lado dela.

Foi leva-la e buscá-la na clínica.

Ficou preocupada ao vê-la ainda sob efeito da anestesia.

Ela andava cambaleando pela casa, completamente sem equilíbrio, parecendo uma pessoa embriagada.

Foi impossível não rir daquela cena, mesmo sabendo que fazia parte da recuperação.

São lembranças simples e engraçadas.

Mas que hoje têm um valor imenso.

Com o passar do tempo, comecei a perceber algumas mudanças no comportamento da Nuna.

Ela sempre teve um jeito diferente.

Nunca gostou muito de visitas.

Pessoas desconhecidas dentro de casa a deixavam extremamente incomodada.

Era territorial.

Protetora.

Algumas vezes demonstrava agressividade.

Mas nada que parecesse completamente fora do normal.

Até que chegou o dia 13 de junho de 2026.

Jamais esquecerei essa data.

Naquela tarde, uma profissional veio realizar uma limpeza no apartamento.

Tudo aconteceu normalmente.

A Nuna permaneceu inquieta durante boa parte do tempo, como costumava acontecer quando havia pessoas estranhas em casa.

Perto da hora de a moça ir embora, porém, algo mudou completamente.

Foi como se ela tivesse se transformado.

Nunca havia visto aquele comportamento daquela forma.

Ela corria desesperadamente de um lado para o outro.

Rosnava.

Estava extremamente agitada.

Tentei conversar.

Fazer carinho.

Acalmar.

Chamá-la pelo nome.

Nada funcionava.

Recebi vários arranhões tentando impedir que ela se machucasse ou machucasse alguém.

Não me importava comigo.

Minha única preocupação era protegê-la.

A Gorda parecia sem entender o que estava acontecendo.

O ambiente inteiro havia mudado.

Era um momento de completo desespero.

Infelizmente existia uma única janela sem proteção.

A janela da cozinha.

Em um movimento muito rápido, tentando escapar daquele estado de agitação, a Nuna perdeu o equilíbrio.

Não conseguiu alcançar o corredor.

Não conseguiu voltar.

Caiu do sexto andar.

Tudo aconteceu em poucos segundos.

Mas aqueles segundos parecem durar até hoje dentro da minha memória.

Foi perto do primeiro jogo do Brasil, Copa do Mundo.

Enquanto muita gente comemorava o futebol, meu mundo simplesmente desabava.

Entrei em choque.

Não conseguia acreditar.

Nada fazia sentido.

Desci desesperado.

E encontrei a cena que jamais sairá da minha cabeça.

Ver a Nuna sem vida foi uma das experiências mais dolorosas que já vivi.

Nenhuma palavra consegue explicar aquele momento.

É uma imagem que permanece gravada na alma.

Uma dor silenciosa.

Profunda.

Inexplicável.

Muitas pessoas enxergam apenas um animal de estimação.

Quem nunca teve esse vínculo dificilmente compreenderá.

Mas quem ama sabe.

Eles não são apenas animais.

São filhos.

São companheiros.

São parte da família.

Cada canto da casa passou a lembrar a Nuna.

O lugar onde ela dormia.

Onde esperava pela comida.

Onde tomava sol.

Onde corria quando eu chegava.

Durante anos fui recebido por ela na porta.

Ela vinha correndo.

Miava.

Pedia carinho.

Era como se dissesse:

"Você voltou."

Hoje abro a porta.

E o silêncio responde.

A ausência pesa.

Machuca.

A Gorda também sentiu.

Ela sempre foi muito ligada à Nuna.

E depois daquele dia passou a ficar ainda mais próxima de eu.

Hoje ela praticamente não desgruda.

Segue meus passos pela casa.

Deita ao meu lado.

Parece perceber que ambos estamos tentando aprender a viver com essa ausência.

É como se estivéssemos consolando um ao outro.

Ela perdeu uma companheira.

Eu perdi uma filha.

Desde o dia 13 de junho 2026, sábado, minha vida mudou completamente.

Perdi parte da alegria.

Perdi parte da rotina.

Perdi um pedaço importante do meu coração.

Ainda assim, preciso continuar.

Porque a Gorda continua aqui.

Ela precisa de eu.

E eu preciso dela.

Prometi para mim mesmo que terei ainda mais cuidado.

Proteção redobrada.

Mais atenção.

Mais carinho.

Ela merece.

Talvez um dia, quando Deus preparar meu coração, eu possa abrir espaço para adotar um novo irmão ou uma nova irmã para fazer companhia à Gorda.

Não para substituir a Nuna.
Porque isso é impossível.

Cada animal possui sua própria personalidade.

Seu próprio jeito.

Seu próprio espaço dentro do nosso coração.

Ninguém substitui ninguém.

O amor apenas encontra espaço para crescer novamente.

Escrevo tudo isso também porque senti que precisava compartilhar essa notícia com você, Roberta.

Você esteve presente em momentos importantes da vida da Nuna.

Mesmo que os caminhos tenham seguido direções diferentes e que o tempo tenha afastado nossas vidas, achei que era justo contar o que aconteceu.

Não por obrigação.

Mas por respeito à história que todos nós vivemos.

Talvez você nunca mais tenha perguntado por ela.

Talvez a vida tenha seguido outro rumo.

Tudo bem.

Ainda assim, achei que você deveria saber.

Não escrevo procurando respostas.

Nem justificativas.

Muito menos culpa.

Escrevo apenas porque algumas histórias precisam ser encerradas com verdade.

Nos últimos dias tenho tido sonhos repetitivos.

Como se algo insistisse para que eu contasse essa história.

Talvez seja apenas meu coração tentando encontrar paz.

Talvez seja Deus mostrando que guardar tudo isso apenas dentro de mim estava tornando a dor ainda maior.

Hoje consigo lembrar da Nuna, chorando.

Mas também sorrindo.

Lembro das brincadeiras.

Das corridas pela casa.

Das travessuras.

Do jeito único de olhar.

Das manias.

Do carinho.

Da companhia silenciosa em tantos momentos da minha vida.

Nada disso será apagado.

A saudade continuará existindo.

Mas também permanecerá a gratidão.

Obrigado, Nuna.

Obrigado Roberta.

Obrigado por cada dia.

Por cada momento.

Por cada demonstração de carinho.

Você fez parte da minha vida de uma forma que poucas pessoas conseguiram.

Hoje acredito que Deus está no comando de todas as coisas.

Mesmo quando não entendemos seus planos.

Mesmo quando a dor parece maior que nossa capacidade de suportá-la.

Tenho fé de que um dia toda lágrima encontrará consolo.

E gosto de imaginar a Nuna correndo livre, saudável e feliz, como uma estrela brilhando no céu.

Enquanto isso, aqui na Terra, continuo ao lado da Gorda.

Meu grude.

Minha companheira.

Aquela que continua me seguindo por onde vou.

Ela me lembra diariamente que o amor permanece.

Que a vida continua.

E que cuidar de quem ficou também é uma forma de honrar quem partiu.

Nuna jamais será esquecida.

Ela viverá em cada lembrança.

Em cada fotografia.

Em cada canto da casa.

E, principalmente, dentro do meu coração.

Saudades eternas de Nuna.

Que Deus continue guiando nossos caminhos.

E que Sua paz seja maior do que toda dor.

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