Era por volta das duas horas da madrugada do dia 10 de junho de 2026.
O frio daquela noite parecia diferente. Não era apenas a temperatura baixa. Havia algo estranho no ar, uma sensação difícil de explicar, como se o próprio silêncio estivesse observando cada movimento.
Eu estava sozinho no apartamento.
A cidade dormia. Nenhum carro passava na rua. Nenhuma televisão podia ser ouvida através das paredes. Nem mesmo os cachorros do condomínio latiam.
A única companhia era um velho rádio ligado sobre a mesa da sala.
Uma estação tocava músicas baixas enquanto eu tentava vencer a insônia.
Foi então que a ventania começou.
Primeiro veio um assobio distante.
Depois, rajadas mais fortes passaram pelos corredores entre os blocos do condomínio.
As cortinas se moveram lentamente.
E o rádio...
O rádio simplesmente mudou de estação sozinho.
O som ficou cheio de interferências.
Chiados.
Estalos.
Até que uma voz surgiu.
— Boa madrugada para aqueles que ainda estão acordados...
A voz era grave.
Lenta.
Estranhamente próxima.
— Alguns visitantes costumam aparecer nesta hora...
Meu corpo inteiro arrepiou.
Tentei mudar a sintonia.
Nada acontecia.
O botão parecia travado.
A voz continuou.
— Se alguém bater à sua porta esta noite... não abra.
O coração acelerou.
Foi exatamente nesse momento que ouvi.
TOC.
TOC.
TOC.
Três batidas secas.
Na porta do apartamento.
Fiquei imóvel.
O sangue parecia ter congelado.
Olhei para o relógio.
02h03.
As batidas não se repetiram.
O silêncio voltou.
Mas agora parecia muito mais pesado.
Respirei fundo.
Talvez fosse algum vizinho.
Talvez alguém tivesse errado o apartamento.
Levantei devagar.
Cada passo parecia ecoar pela sala.
Quando alcancei a porta, percebi algo estranho.
A luz do corredor estava apagada.
Normalmente, ela acendia automaticamente ao detectar movimento.
Mas daquela vez não.
A escuridão permanecia absoluta do lado de fora.
Abri a porta apenas alguns centímetros.
Nada.
Corredor vazio.
Nenhum som.
Nenhuma pessoa.
Apenas o vento frio entrando pelas escadas.
Empurrado pela curiosidade, saí do apartamento.
A luz continuava apagada.
Olhei para um lado.
Depois para o outro.
Ninguém.
Foi quando percebi um movimento.
Lá no final do corredor.
Uma silhueta.
Um vulto.
Vestia algo vermelho.
Não conseguia distinguir detalhes.
Parecia uma pessoa parada, observando.
Por alguns segundos, ficamos imóveis.
Eu de um lado.
A figura do outro.
Então ela virou lentamente.
E começou a caminhar em direção ao Bloco B.
Não corria.
Não demonstrava pressa.
Apenas caminhava.
Como se soubesse exatamente para onde estava indo.
A curiosidade venceu o medo.
Comecei a segui-la.
Desci as escadas.
Atravessei o estacionamento.
O vento parecia cada vez mais forte.
As árvores balançavam violentamente.
Quando alcancei a entrada do Bloco B, a figura desapareceu.
Simplesmente desapareceu.
Não havia ninguém.
Olhei para todos os lados.
Nada.
Foi então que percebi algo.
A porta do bloco estava aberta.
Sozinha.
Movendo-se lentamente com o vento.
Entrei.
O hall estava vazio.
As lâmpadas piscavam.
Uma...
Duas...
Três vezes.
Até que todas se apagaram.
A escuridão tomou conta do lugar.
Foi nesse instante que ouvi passos acima de mim.
Passos lentos.
Pesados.
Subindo as escadas.
Corri para acender a lanterna do celular.
A luz iluminou apenas parte do ambiente.
E então eu vi.
Na parede.
Escrito com algo escuro.
Talvez tinta.
Talvez outra coisa.
Uma frase.
"VOCÊ NÃO DEVERIA TER VINDO."
O ar ficou gelado.
Muito mais frio do que qualquer noite de inverno.
O rádio.
Lembrei imediatamente da mensagem.
"Se alguém bater à sua porta esta noite... não abra."
Meu telefone perdeu o sinal.
A lanterna começou a piscar.
Os passos continuavam acima.
Mais próximos.
Mais lentos.
Como se quem estivesse ali soubesse que eu estava olhando.
Então ouvi uma voz.
A mesma voz do rádio.
— Eu avisei.
A lanterna apagou.
Completamente.
Fiquei mergulhado na escuridão.
E senti algo passar ao meu lado.
Muito perto.
Perto o suficiente para ouvir uma respiração.
Perto o suficiente para sentir o cheiro de terra molhada.
Não tive coragem de olhar.
Corri.
Desesperadamente.
Atravessei o estacionamento.
Subi as escadas.
Entrei no apartamento.
Tranquei a porta.
Fechei todas as janelas.
Passei o restante da madrugada sentado na sala.
Esperando o amanhecer.
Quando o sol finalmente apareceu, tudo parecia normal.
O rádio estava desligado.
O corredor funcionava perfeitamente.
Nenhum morador relatou ter visto alguém vestido de vermelho.
Nenhuma mensagem foi encontrada no Bloco B.
Nada.
Absolutamente nada.
Mas existe um detalhe que nunca consegui explicar.
Na manhã seguinte, ao abrir a porta do apartamento, encontrei um pequeno pedaço de tecido vermelho dobrado no chão.
Como se alguém tivesse deixado ali durante a madrugada.
Guardei aquele pedaço de pano por anos.
Até o dia em que desapareceu.
Sozinho.
Da mesma forma que apareceu.
E até hoje, sempre que o vento começa a soprar forte durante a madrugada, eu desligo o rádio.
Porque ainda tenho medo de ouvir aquela voz novamente.
E principalmente de escutar...
Três batidas na porta.Título alternativo: "As Três Batidas da Madrugada" ou "A Sombra Vermelha do Bloco B".

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