quinta-feira, 21 de maio de 2026

A luz do hall piscou três vezes naquela noite.

 No começo, pensei que fosse apenas mau contato. O prédio era antigo, daqueles com corredores estreitos e silenciosos, onde o eco dos passos parece seguir você mesmo depois de parar de andar. Mas naquela madrugada, havia algo diferente no ar. Algo pesado. Frio.

Eu estava sozinho no andar da cobertura.

O relógio marcava 2h17 quando ouvi o primeiro som.

Não eram passos.

Era como se alguém arrastasse o próprio corpo lentamente pelo corredor.

A luz do hall acendeu.

Apagou.

Acendeu de novo.

E então eu a vi.

Parada perto do elevador.

Uma menina magra, de vestido branco encardido, cabelos molhados cobrindo parte do rosto… e sem os pés.

As pernas terminavam nos tornozelos, como se algo tivesse arrancado o restante. Mesmo assim, ela se movia. Lentamente. Flutuando alguns centímetros acima do chão.

O pior não era a aparência.

Era o olhar.

Vazio.

Triste.

Como se estivesse procurando alguém havia muitos anos.

Tentei fechar a porta do apartamento, mas ela travou. A maçaneta ficou gelada em minha mão. A luz começou a piscar mais rápido, iluminando o corredor em flashes curtos.

Em cada clarão… ela estava mais perto.

Primeiro no elevador.

Depois no meio do corredor.

Depois diante da minha porta.

E então ouvi a voz.

Baixa. Rouca. Quase um sussurro molhado.

— Você consegue ouvir também… não consegue?

Meu corpo inteiro congelou.

Ela ergueu lentamente a cabeça. Os cabelos abriram espaço para um rosto pálido, marcado por olhos completamente negros.

E ela sorriu.

Um sorriso impossível.

Grande demais para um rosto humano.

A luz apagou de vez.

Por alguns segundos, só existiu o escuro absoluto.

Então senti algo úmido tocar meu tornozelo.

Olhei para baixo.

Duas mãos frias saíam debaixo da porta.

As unhas arranhavam o piso devagar.

E a voz voltou, agora dentro do apartamento.

— Ele ainda está aqui comigo…

Atrás de mim, ouvi o barulho do quarto se abrindo sozinho.

A televisão ligou em estática.

E no reflexo preto da tela… havia outra pessoa parada atrás de mim.

Desde aquela noite, a luz do hall continua acendendo e apagando todas as madrugadas.

Os moradores dizem que é problema elétrico.

Mas eu sei que não é.

Porque às vezes, quando o corredor fica silencioso demais… ainda escuto o som dela se arrastando pela cobertura.

Procurando alguém para responder ao contato.

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