terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Biotônico Fontoura: o fortificante que marcou gerações e nasceu com álcool na receita

 Criado no interior de São Paulo, o famoso tônico atravessou décadas, mudou sua fórmula, mas nunca saiu da memória afetiva dos brasileiros.

Durante grande parte do século XX, poucas palavras despertavam tanta reação nas casas brasileiras quanto “Biotônico Fontoura”. Para muitos, ele era sinônimo de infância, colheradas obrigatórias e promessas de força, saúde e apetite. Criado originalmente com álcool em sua composição, o fortificante nasceu em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, pelas mãos de um farmacêutico que buscava uma solução para o cansaço físico e a falta de apetite, especialmente entre as crianças.
O responsável pela fórmula foi Cândido Fontoura, farmacêutico formado que, no início do século passado, desenvolveu o produto inspirado nos tônicos europeus da época. Esses preparados eram comuns na medicina tradicional e combinavam extratos vegetais, sais minerais e álcool, utilizado como conservante e veículo para os princípios ativos.

O Biotônico foi pensado para combater problemas frequentes naquele período, como desnutrição, anemia, fadiga e falta de apetite, em uma época em que o acesso à alimentação adequada e a serviços de saúde era limitado. A presença do álcool, vista hoje com estranhamento, era considerada normal e aceitável dentro dos padrões médicos do início do século XX.

Rapidamente, o fortificante ganhou popularidade e passou a ser prescrito por médicos e farmacêuticos. O sabor forte e característico tornou-se parte do ritual doméstico, e a fama de “abrir o apetite” atravessou gerações. O Biotônico Fontoura deixou de ser apenas um medicamento para se tornar um símbolo cultural, presente em lares de todas as classes sociais.

Com o passar das décadas, mudanças na legislação sanitária e na compreensão sobre saúde infantil tornaram inviável a manutenção do álcool na fórmula. A partir da segunda metade do século XX, o Biotônico passou por reformulações, retirando o álcool e adequando sua composição às normas modernas, sem abandonar sua proposta original de fortificante.

Mesmo com as mudanças, a marca manteve sua força. Parte desse sucesso se deve à comunicação popular e ao personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato, que se tornou garoto-propaganda do produto. A imagem do caboclo fraco que recuperava a saúde após tomar o Biotônico ajudou a fixar a ideia de vitalidade e recuperação no imaginário coletivo brasileiro.

Hoje, o Biotônico Fontoura não é mais visto como um medicamento milagroso, mas como um suplemento alimentar que carrega um enorme valor histórico e afetivo. Sua trajetória acompanha a evolução da medicina, da indústria farmacêutica e da própria sociedade brasileira, refletindo mudanças de hábitos, leis e percepções sobre saúde.

Mais do que um fortificante, o Biotônico Fontoura representa uma época em que a confiança nos tônicos era quase absoluta e em que a saúde infantil passava por soluções simples e caseiras. Da fórmula alcoólica criada em Bragança Paulista às prateleiras modernas das farmácias, o produto segue vivo na memória de quem cresceu ouvindo a mesma frase: “toma que abre o apetite”.

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