Poucos brasileiros deixaram uma marca tão profunda na história industrial e tecnológica do país quanto Ozires Silva. Engenheiro, militar, executivo e visionário, ele foi o grande responsável por transformar um sonho quase improvável — a criação de uma indústria aeronáutica nacional — em uma das empresas mais respeitadas do setor no mundo: a Embraer. Sua trajetória se confunde com a própria consolidação do Brasil como potência regional em tecnologia aeroespacial.
Ozires Silva nasceu em 9 de janeiro de 1931, na cidade de Bauru (SP). Desde cedo demonstrou interesse pela aviação, motivado pela curiosidade e pelo fascínio pelos aviões que cortavam os céus do interior paulista. Esse interesse o levou à Força Aérea Brasileira (FAB), onde ingressou como cadete e iniciou uma carreira que uniria disciplina militar, formação técnica e visão estratégica.
Seu talento chamou atenção e, ainda jovem oficial, Ozires foi enviado ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), recém-criado em São José dos Campos. Ali, formou-se engenheiro aeronáutico, integrando uma geração que mudaria para sempre o rumo da engenharia brasileira. O ITA não era apenas uma escola: era um laboratório de ideias e ambições, onde se discutia a possibilidade — até então ousada — de o Brasil projetar e fabricar seus próprios aviões.
O nascimento da Embraer
Na década de 1960, o Brasil dependia quase integralmente de aeronaves importadas. Para Ozires Silva, isso representava não apenas uma limitação econômica, mas também estratégica. Em 1965, ele liderou a equipe responsável pelo projeto do Bandeirante, um avião turboélice robusto, pensado para ligar cidades médias e regiões remotas do país.
O sucesso do protótipo foi decisivo. Em 1969, com apoio do governo federal, nascia a Empresa Brasileira de Aeronáutica — Embraer, e Ozires Silva foi nomeado seu primeiro presidente. A missão era clara: criar uma indústria aeronáutica nacional competitiva, capaz de disputar espaço com gigantes internacionais.
Sob sua liderança, a Embraer não apenas sobreviveu, como cresceu. O Bandeirante tornou-se um sucesso de exportação, abrindo portas em mercados exigentes como Europa e Estados Unidos. Pela primeira vez, aviões brasileiros passaram a operar regularmente em outros continentes.
Crises, reinvenção e liderança global
Os anos seguintes não foram fáceis. A Embraer enfrentou crises econômicas, mudanças políticas e desafios tecnológicos. Ainda assim, Ozires Silva manteve a convicção de que a empresa precisava investir em inovação e qualidade para competir globalmente.
Após deixar a Embraer nos anos 1980, Ozires seguiu ocupando cargos estratégicos no país. Foi ministro da Infraestrutura no início do governo Collor e presidiu grandes companhias, como a Petrobras e a Varig, sempre defendendo gestão profissional, visão de longo prazo e autonomia tecnológica.
Nos anos 1990, participou ativamente do processo de privatização da Embraer, movimento que muitos viam com desconfiança. Para ele, porém, era o único caminho para garantir competitividade internacional. A história confirmou sua visão: já privatizada, a Embraer se reinventou e tornou-se líder mundial na aviação regional, com os jatos da família ERJ e E-Jets, hoje referência global.
Um legado que vai além dos aviões
Mais do que o fundador da Embraer, Ozires Silva é símbolo de uma geração que acreditou na capacidade do Brasil de produzir tecnologia de ponta. Seu legado vai além das aeronaves: está na formação de engenheiros, na criação de um ecossistema industrial em São José dos Campos e na prova concreta de que planejamento, educação e persistência podem transformar um país.
Reconhecido internacionalmente, Ozires recebeu diversas honrarias ao longo da vida, mas talvez seu maior prêmio seja ver a Embraer figurar entre as maiores fabricantes de aviões do mundo, competindo de igual para igual com empresas centenárias.
A história de Ozires Silva é, acima de tudo, a história de alguém que ousou sonhar alto — e construiu asas para que o Brasil pudesse voar com elas.


Nenhum comentário:
Postar um comentário