quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Edifício Montreal: o Niemeyer discreto no coração de São Paulo

Quando se fala em Oscar Niemeyer no centro de São Paulo, o pensamento quase automático leva ao Edifício Copan, ícone absoluto da arquitetura moderna brasileira e cartão-postal da cidade. Mas, a poucos metros dali, quase escondido na paisagem urbana intensa do centro velho, existe outro projeto do mesmo arquiteto que passa despercebido por muitos paulistanos: o Edifício Montreal.

Localizado no encontro da Avenida Ipiranga com a Avenida Cásper Líbero, o Montreal é uma daquelas obras que não gritam por atenção, mas que revelam sua importância à medida que são observadas com mais cuidado. Inaugurado em 1954, o prédio faz parte do mesmo período criativo em que Niemeyer consolidava sua linguagem moderna, marcada por curvas, leveza visual e soluções ousadas para o concreto armado.
Uma obra moderna em meio ao centro clássico

O Edifício Montreal surgiu em um momento em que São Paulo vivia uma intensa verticalização. A cidade crescia em ritmo acelerado, impulsionada pela industrialização e pela migração de trabalhadores, exigindo novas soluções habitacionais e comerciais. Diferente do Copan, pensado como uma “cidade vertical”, o Montreal nasceu com um perfil mais discreto, destinado ao uso misto, abrigando salas comerciais e escritórios.

Sua fachada é um dos elementos mais interessantes do projeto. Niemeyer optou por linhas retas, volumes bem definidos e pelo uso de brise-soleils, recurso arquitetônico moderno que controla a incidência do sol e melhora o conforto térmico interno. Essa solução, além de funcional, confere ritmo e identidade visual ao edifício, dialogando com o entorno urbano sem competir com ele.

Apesar de não possuir as curvas exuberantes que tornaram o Copan famoso, o Montreal carrega a assinatura inconfundível de Niemeyer: a preocupação com a luz, a ventilação e a integração do edifício com a cidade.

Vizinho ilustre, fama discreta

A proximidade com o Copan talvez explique, em parte, o anonimato do Edifício Montreal. Enquanto o vizinho famoso atrai turistas, fotógrafos e pesquisadores de arquitetura, o Montreal segue sua rotina silenciosa, ocupado por trabalhadores, advogados, médicos e pequenos empresários que muitas vezes desconhecem estar em um prédio assinado por um dos maiores arquitetos do século XX.

Outro fator que contribui para essa discrição é a própria dinâmica do centro de São Paulo. A região da Avenida Ipiranga com a Cásper Líbero é marcada por trânsito intenso, prédios históricos, comércio popular e um fluxo constante de pessoas. Em meio a esse cenário, o Montreal se integra ao cotidiano, sem monumentalidade excessiva, cumprindo sua função urbana de forma eficiente.

Valor histórico e preservação

Mesmo menos conhecido, o Edifício Montreal possui grande valor histórico e arquitetônico. Ele representa uma fase importante da arquitetura moderna brasileira aplicada ao uso cotidiano, longe dos grandes monumentos ou projetos governamentais. É a prova de que Niemeyer também pensava a cidade real, habitada e funcional.

Ao longo das décadas, o prédio passou por adaptações e manutenções, mas preserva suas características principais. Especialistas em patrimônio defendem que obras como o Montreal merecem maior reconhecimento e cuidado, pois ajudam a contar a história do desenvolvimento urbano de São Paulo e da consolidação da arquitetura moderna no país.

Um Niemeyer para ser redescoberto

Redescobrir o Edifício Montreal é também um convite a olhar o centro de São Paulo com mais atenção. Em meio ao caos aparente, existem joias arquitetônicas que resistem ao tempo, carregando histórias, ideias e conceitos que moldaram a cidade.

Mais do que um prédio “escondido”, o Montreal é um exemplo de como Oscar Niemeyer soube traduzir modernidade, funcionalidade e elegância em diferentes escalas. Um vizinho silencioso do Copan, que merece sair da sombra e ocupar seu lugar na memória arquitetônica paulistana.

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