sábado, 31 de janeiro de 2026

Quando o Clássico e o Rock se Encontram em Silêncio Absoluto

Andrea Bocelli e Brian May transformam “Who Wants To Live Forever” em um espetáculo histórico no Teatro del Silenzio

Por alguns minutos, o tempo parou.

Em 2024, sob o céu da Toscana, dois mundos aparentemente distantes se uniram para criar um dos momentos mais emocionantes da música contemporânea. Andrea Bocelli e Brian May dividiram o palco do Teatro del Silenzio, na Itália, para uma interpretação arrebatadora de “Who Wants To Live Forever”, clássico imortal da banda Queen. O encontro foi mais do que um dueto: foi um diálogo entre gerações, estilos e sensibilidades.

O Teatro del Silenzio, criado por Bocelli em sua cidade natal, Lajatico, é conhecido por sua proposta singular: durante quase todo o ano, o espaço permanece em silêncio absoluto, ganhando vida apenas em ocasiões especiais. E foi exatamente nesse cenário, cercado por colinas e sob uma atmosfera quase espiritual, que o clássico do rock ganhou novos contornos, embalado pela força da música erudita e pela emoção crua da guitarra de Brian May.

Uma canção sobre a eternidade, cantada por quem entende de tempo

Lançada em 1986, “Who Wants To Live Forever” nasceu como trilha sonora do filme Highlander e rapidamente se tornou uma das composições mais profundas do Queen. Escrita por Brian May, a canção fala sobre finitude, amor e a inevitabilidade do tempo — temas que ecoam de forma ainda mais intensa quando interpretados por Andrea Bocelli.

A voz do tenor italiano, conhecida por sua potência e delicadeza, trouxe à música uma dimensão quase operística. Cada verso foi cantado com solenidade, como se Bocelli estivesse transformando a canção em uma ária moderna. Ao seu lado, Brian May, com sua guitarra inconfundível, manteve a essência emocional do rock, provando que o instrumento elétrico também pode soar íntimo e contemplativo.
O resultado foi um equilíbrio raro: nem o rock perdeu sua alma, nem o clássico se tornou distante. Ambos caminharam juntos, respeitando suas origens e encontrando um ponto comum na emoção.

O espetáculo do silêncio e da grandiosidade

O Teatro del Silenzio não é apenas um palco; é parte fundamental da experiência. Diferente de grandes arenas, ali o público é convidado a ouvir — de verdade. Não há excesso de efeitos visuais, nem distrações. A paisagem natural, a iluminação suave e a acústica impecável criam um ambiente onde cada nota ressoa com clareza e significado.

Durante a apresentação, o silêncio da plateia era tão eloquente quanto a música. Era possível sentir a atenção coletiva, como se milhares de pessoas respirassem no mesmo ritmo. Ao final da canção, antes dos aplausos, houve um breve instante de quietude absoluta — um daqueles momentos raros em que ninguém quer quebrar a magia.

Dois ícones, um mesmo sentimento

Andrea Bocelli construiu sua carreira aproximando a música clássica do grande público, enquanto Brian May atravessou décadas como um dos guitarristas mais respeitados da história do rock. O encontro dos dois simboliza algo maior do que estilos musicais: representa a capacidade da música de atravessar fronteiras, idiomas e gerações.

May, visivelmente emocionado, deixou claro que aquela não era apenas mais uma apresentação. Já Bocelli, com sua postura serena, conduziu o espetáculo como quem entende que certas canções não pertencem a um gênero — pertencem à humanidade.

Um momento que entra para a história

A apresentação de “Who Wants To Live Forever” no Teatro del Silenzio em 2024 não foi apenas um show; foi um acontecimento cultural. Um lembrete de que, mesmo em tempos acelerados, ainda há espaço para a contemplação, para o silêncio e para a arte feita com profundidade.

Quando o clássico encontra o clássico — seja ele erudito ou rock — o resultado é atemporal. E naquela noite italiana, Andrea Bocelli e Brian May provaram que algumas músicas realmente não querem viver para sempre… elas simplesmente vivem.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O dia em que São Paulo parou para ver um prédio cair

A implosão do Edifício Mendes Caldeira e o nascimento da Estação Sé



Na manhã de 16 de novembro de 1975, São Paulo assistiu a uma cena até então inédita em sua história urbana: a implosão de um arranha-céu inteiro no coração da cidade. O Edifício Mendes Caldeira, com seus 30 andares, desabava em poucos segundos diante de milhares de curiosos, câmeras de televisão e olhares atentos. O evento não foi apenas um espetáculo técnico; marcou definitivamente a transformação do centro histórico e abriu espaço para a construção da Estação Sé, que se tornaria o principal nó do sistema metroviário paulistano.

Até aquele momento, demolições de grande porte no Brasil eram feitas de forma lenta, andar por andar. A decisão de implodir o edifício representou um salto tecnológico e simbólico: São Paulo se colocava, definitivamente, como uma metrópole moderna, disposta a remodelar seu passado para viabilizar o futuro.

Um prédio que representava outra São Paulo

Construído nas décadas anteriores, o Edifício Mendes Caldeira era um típico exemplar da verticalização acelerada do centro paulistano do pós-guerra. Localizado em uma área estratégica da Praça da Sé, o prédio fazia parte de um tecido urbano denso, ocupado por escritórios, comércio e intensa circulação de pessoas.
Com o avanço do projeto do Metrô de São Paulo, ficou claro que a região precisaria passar por profundas intervenções. A futura Estação Sé seria o ponto de cruzamento das linhas Azul (Norte–Sul) e Vermelha (Leste–Oeste), exigindo grandes áreas subterrâneas para plataformas, túneis e sistemas de ventilação. A permanência do edifício tornava-se inviável.

A desapropriação foi inevitável, e o prédio entrou para a história não por sua arquitetura, mas pelo papel decisivo que teria na transformação da cidade.

A primeira implosão de um arranha-céu no Brasil

A implosão do Mendes Caldeira foi um feito inédito no país. Engenheiros e especialistas em demolição controlada planejaram cada detalhe durante meses. A operação precisava ser precisa: o prédio deveria cair verticalmente, sem atingir construções vizinhas nem causar danos estruturais ao entorno histórico da Sé.

Foram instaladas cargas explosivas estratégicas em pilares específicos. O cronograma foi seguido à risca. Quando o sinal foi dado, o edifício colapsou sobre si mesmo em questão de segundos, levantando uma nuvem de poeira que cobriu a praça e entrou para o imaginário coletivo da cidade.

A cena foi transmitida por emissoras de televisão e registrada por fotógrafos. Para muitos paulistanos, aquele foi o primeiro contato com a ideia de que uma cidade pode, literalmente, se reinventar.

O impacto urbano e simbólico

Mais do que abrir espaço físico, a implosão do edifício simbolizou uma nova fase de São Paulo. O centro, até então congestionado e saturado, começava a ser reorganizado com foco na mobilidade de massa. A Estação Sé, inaugurada posteriormente, tornou-se o coração do metrô paulistano, conectando milhões de pessoas diariamente.

Hoje, a estação recebe centenas de milhares de passageiros por dia, funcionando como ponto de encontro, passagem e referência urbana. Poucos dos que transitam por ali imaginam que, sob seus pés, existiu um dia um prédio de 30 andares que precisou cair para que a cidade avançasse.

Um marco da engenharia e da memória paulistana

Passados quase 50 anos, a implosão do Edifício Mendes Caldeira permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história urbana de São Paulo. Ela representa a coragem de decisões difíceis, o avanço da engenharia nacional e a disposição de uma metrópole em se adaptar às demandas do futuro.

A Praça da Sé continua sendo um lugar de encontros, manifestações, fé e movimento. E, mesmo que o edifício não exista mais, sua queda ecoa como um lembrete poderoso: cidades são organismos vivos, que crescem, mudam e, às vezes, precisam demolir para renascer.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Enya: o fenômeno silencioso que conquistou o mundo sem subir aos palcos

Em um universo musical cada vez mais pautado por grandes turnês, estádios lotados e presença constante nas redes sociais, Enya representa uma exceção quase mística. A cantora, compositora e produtora irlandesa construiu uma das carreiras mais bem-sucedidas da música contemporânea sem jamais fazer turnês ou shows ao vivo. Por timidez extrema e desconforto com a exposição pública, Enya escolheu o silêncio dos estúdios — e, ainda assim, vendeu dezenas de milhões de discos ao redor do planeta.

Nascida Eithne Pádraigín Ní Bhraonáin, em 17 de maio de 1961, em Gweedore, uma pequena vila no noroeste da Irlanda, Enya cresceu em uma família profundamente ligada à música tradicional celta. O gaélico era falado em casa, e a cultura local moldou sua identidade artística desde cedo. Ainda jovem, integrou o grupo Clannad, liderado por seus irmãos, mas deixou a banda em 1982 para seguir um caminho solitário — tanto artisticamente quanto emocionalmente.

Foi nesse isolamento criativo que Enya encontrou sua verdadeira voz. Ao lado do produtor Nicky Ryan e da letrista Roma Ryan, ela desenvolveu um estilo único, baseado em camadas vocais sobrepostas, arranjos etéreos e uma atmosfera quase espiritual. As músicas não seguiam padrões comerciais tradicionais, tampouco buscavam hits radiofônicos imediatos. Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, encontraram um público fiel e global.

O sucesso começou a ganhar proporções gigantescas no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, com álbuns como Watermark (1988), impulsionado pelo instrumental “Orinoco Flow”, e Shepherd Moons (1991). As canções de Enya pareciam suspensas no tempo, oferecendo uma experiência sonora contemplativa, distante do ritmo frenético do pop. Seus CDs passaram a ser presença constante em lares, consultórios, livrarias e trilhas sonoras de filmes.

Apesar da crescente fama, Enya manteve-se fiel à decisão de não se apresentar ao vivo. Em diversas entrevistas ao longo da carreira, deixou claro que o palco lhe causava ansiedade profunda. A cantora sempre afirmou sentir-se envergonhada e emocionalmente exposta diante da ideia de cantar para grandes plateias. Para ela, a música era uma expressão íntima, que fazia mais sentido no ambiente controlado do estúdio do que sob os holofotes de um show.

Essa ausência física nunca impediu sua presença simbólica. Os videoclipes de Enya tornaram-se parte essencial de sua comunicação com o público. Produções sofisticadas, com forte apelo visual, paisagens naturais, figurinos clássicos e uma estética quase cinematográfica ajudaram a consolidar sua imagem etérea. Clipes como “Caribbean Blue”, “Only Time” e “May It Be” acumulam milhões de visualizações ao longo dos anos, atravessando gerações e plataformas.

Em números, o impacto é impressionante: estima-se que Enya tenha vendido mais de 80 milhões de álbuns em todo o mundo, tornando-se uma das artistas femininas mais bem-sucedidas da história sem jamais realizar uma turnê. Ganhou prêmios importantes, incluindo Grammys, e teve suas músicas usadas em grandes produções cinematográficas, como O Senhor dos Anéis, que ampliaram ainda mais seu alcance global.

Reclusa, Enya viveu por muitos anos em um castelo nos arredores de Dublin, cercada por livros, gatos e silêncio — elementos que refletem sua personalidade introspectiva. Longe de escândalos, polêmicas ou exposição midiática excessiva, construiu uma carreira baseada exclusivamente na obra, não na figura pública.

A história de Enya desafia as regras do entretenimento moderno. Ela provou que é possível alcançar o topo da indústria musical sem palcos, sem turnês e sem performances ao vivo. Sua trajetória é a de uma artista que escolheu respeitar seus limites emocionais e transformar a timidez em força criativa. Em um mundo barulhento, Enya venceu fazendo exatamente o oposto: oferecendo silêncio, contemplação e beleza — e sendo ouvida por milhões.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

FRANCHISING SEM FILTRO

 Alexandre: o estrategista por trás de quase 15% do mercado de franquias do Brasil

Por trás de vitrines padronizadas, contratos robustos e modelos replicáveis que se espalham por shoppings e ruas comerciais de todo o país, existe um nome que poucos consumidores conhecem — mas que o mercado de franchising respeita. Há quase 30 anos atuando no setor, Alexandre é hoje um dos maiores arquitetos do franchising brasileiro. Dono de 28 marcas e responsável direto pela formatação de 14,98% de todo o mercado nacional de franquias, ele construiu uma trajetória marcada por visão estratégica, pragmatismo e, sobretudo, resultados.

Não se trata apenas de quantidade, mas de impacto. Em seu currículo estão marcas que se tornaram referência em seus segmentos, como Casa do Pão de Queijo, Pink Lash, Cartório Postal, Monkey e tantas outras que ajudaram a profissionalizar e democratizar o acesso ao empreendedorismo no Brasil. Seu trabalho moldou redes, estruturou operações e criou modelos que resistiram a crises econômicas, mudanças de consumo e transformações tecnológicas.

O começo: mais método do que glamour

Alexandre entrou no franchising quando o setor ainda engatinhava no país. Nos anos 1990, franquia era vista como aposta arriscada ou privilégio de grandes grupos. Faltavam normas claras, padronização e, principalmente, conhecimento técnico. Foi nesse ambiente pouco estruturado que ele começou a desenvolver seu diferencial: olhar para negócios comuns e transformá-los em sistemas replicáveis.
Desde o início, sua abordagem foi menos emocional e mais matemática. Antes de pensar em expansão, vinha o estudo de custos, margem, operação, logística e treinamento. “Uma franquia não pode depender de talento individual, precisa funcionar mesmo quando o dono não está olhando”, costuma afirmar em bastidores do setor. Essa mentalidade se tornaria sua marca registrada.

Criando marcas que escalam

O sucesso de Alexandre passa pela capacidade de identificar negócios com alto potencial de escala. A Casa do Pão de Queijo, por exemplo, ajudou a consolidar o conceito de alimentação rápida com identidade brasileira, em uma época em que o mercado era dominado por marcas estrangeiras. Já o Cartório Postal inovou ao transformar serviços burocráticos em operações acessíveis, organizadas e presentes em todo o território nacional.

Em segmentos completamente distintos, como estética e beleza, a Pink Lash se destacou ao profissionalizar um mercado fragmentado, criando padrões de atendimento, treinamento e qualidade. O mesmo aconteceu com a Monkey, que soube dialogar com um público jovem e urbano, apostando em branding forte e processos bem definidos.

Cada marca criada ou formatada seguia um princípio básico: simplicidade operacional, clareza de modelo de negócio e retorno real ao franqueado. Para Alexandre, franquia não é promessa, é contrato de eficiência.

14,98% do mercado: um número que impressiona

Formatar quase 15% do mercado brasileiro de franquias é um feito raro até mesmo em escala global. Esse número não representa apenas redes próprias, mas modelos estruturados, redes reorganizadas e negócios que passaram por suas mãos antes de se tornarem franquias consolidadas.

Ao longo das décadas, Alexandre atuou como criador, consultor estratégico e estruturador de operações. Sua influência vai além das marcas visíveis: está nos manuais, nos modelos de contrato, nos formatos de loja e na lógica de expansão que hoje são padrão no franchising nacional.

Franchising sem filtro

Conhecido por seu discurso direto, Alexandre também ganhou notoriedade por não romantizar o setor. Em palestras e conversas privadas, costuma alertar sobre os riscos do franchising mal feito, da expansão apressada e da ilusão de lucro fácil. Para ele, o crescimento sustentável é resultado de disciplina, governança e respeito ao franqueado.

Essa postura “sem filtro” fez com que fosse ouvido — e, muitas vezes, temido — por empreendedores que buscavam atalhos. Mas também o transformou em referência para quem entende que franquia é um negócio sério, de longo prazo e baseado em método.

Legado e futuro

Após quase 30 anos, 28 marcas e centenas de operações espalhadas pelo país, Alexandre não parece disposto a desacelerar. Seu foco atual está em modelos mais enxutos, uso de tecnologia e novas formas de relacionamento entre franqueador e franqueado. Para ele, o futuro do franchising passa por dados, eficiência e propósito real.

Seu maior legado, no entanto, talvez não esteja nas marcas que criou, mas no impacto estrutural que deixou no mercado brasileiro. Alexandre ajudou a transformar o franchising em uma ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de empregos e acesso ao empreendedorismo.

Em um setor onde muitos vendem sonhos, ele construiu sistemas. E é exatamente por isso que seu nome permanece, silenciosamente, entre os mais influentes do franchising nacional.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Gurgel: o sonho brasileiro sobre quatro rodas — do auge ao colapso de uma montadora nacional

Por décadas, o Brasil sonhou em ter uma indústria automobilística genuinamente nacional. Esse sonho teve nome, sobrenome e assinatura própria: Gurgel. Criada por um engenheiro visionário, a empresa foi símbolo de ousadia, inovação e orgulho nacional. Também foi exemplo de como o idealismo pode sucumbir diante de um mercado hostil e da falta de apoio estrutural.

O nascimento de um sonho nacional

João Augusto do Amaral Gurgel: o homem por trás da marca

João Gurgel nasceu em 1926, em Franca (SP), e desde cedo demonstrou fascínio por engenharia e mecânica. Formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das escolas mais prestigiadas do país, Gurgel acreditava que o Brasil tinha capacidade técnica e intelectual para produzir seus próprios automóveis — não apenas montar veículos estrangeiros.

Em 1969, surge oficialmente a Gurgel Motores S.A., inicialmente focada em veículos utilitários, robustos e simples, ideais para o terreno brasileiro. Enquanto as grandes montadoras estrangeiras se instalavam no país com incentivos governamentais, a Gurgel tentava trilhar um caminho independente, apostando em soluções próprias.

Inovação genuinamente brasileira

Um dos grandes diferenciais da Gurgel era sua engenharia original. O empresário desenvolveu o sistema Plasteel, uma estrutura de aço revestida com fibra de vidro, que tornava os veículos leves, resistentes à corrosão e baratos de manter. Era uma solução prática, adaptada às estradas precárias do Brasil das décadas de 1970 e 1980.

Modelos como o Xavante, o X-12, o Carajás e o BR-800 tornaram-se ícones. Eles não disputavam luxo ou desempenho com carros importados, mas ofereciam simplicidade, resistência e identidade nacional.

A Gurgel também se destacou por exportar veículos para mais de 30 países, incluindo mercados exigentes como Europa, América Latina e até o Oriente Médio. Era o Brasil mostrando ao mundo que sabia inovar.

O pioneiro carro elétrico: Itaipu

Muito antes da discussão global sobre sustentabilidade, a Gurgel lançou, em 1974, o Itaipu E150, considerado o primeiro carro elétrico produzido na América Latina. Movido a baterias e desenvolvido durante a crise do petróleo, o Itaipu foi uma resposta direta à dependência de combustíveis fósseis.

Embora limitado pela tecnologia da época — autonomia curta e baixa velocidade —, o projeto foi visionário. Décadas depois, quando os carros elétricos se tornariam tendência mundial, o Itaipu seria lembrado como um símbolo de inovação à frente do seu tempo.

Do auge ao colapso: por que a Gurgel acabou

O embate desigual com as multinacionais

Apesar da criatividade e da engenharia nacional, a Gurgel enfrentava um problema estrutural: falta de apoio governamental. Enquanto montadoras estrangeiras recebiam isenções fiscais, subsídios e financiamentos generosos, a Gurgel arcava com impostos elevados e juros altos.

João Gurgel defendia políticas que estimulassem a indústria nacional, mas encontrou resistência. Em diversas ocasiões, denunciou publicamente a desigualdade de tratamento, afirmando que o Brasil “preferia montar carros estrangeiros a desenvolver os seus”.

O BR-800 e o sonho do carro popular

Nos anos 1980, a Gurgel lançou seu projeto mais ambicioso: o BR-800, um carro compacto, econômico e pensado para ser o “carro do povo brasileiro”. Para viabilizá-lo, criou um modelo inovador de financiamento: quem comprasse ações da empresa tinha prioridade na compra do veículo.

O projeto, porém, sofreu com limitações técnicas, críticas da imprensa, problemas de escala e, mais uma vez, com a ausência de incentivos fiscais semelhantes aos concedidos a concorrentes maiores. Quando o governo lançou programas de estímulo ao carro popular, a Gurgel ficou de fora.

O colapso financeiro

Sem capital para competir em preço e volume, a empresa começou a acumular dívidas. A abertura do mercado aos importados, no início dos anos 1990, foi o golpe final. Carros estrangeiros, mais modernos e baratos, invadiram o país, tornando a sobrevivência da Gurgel praticamente impossível.

Em 1994, a empresa decretou falência. João Gurgel faleceu dois anos depois, em 1996, sem ver seu sonho reconhecido como merecia.

O legado da Gurgel

Hoje, a Gurgel é lembrada com respeito e nostalgia. Tornou-se símbolo de um Brasil que ousou pensar grande, mesmo sem as ferramentas adequadas. Seus carros são itens de colecionador, e sua história é frequentemente citada como exemplo de inovação sufocada por políticas econômicas desfavoráveis.

Mais do que uma montadora, a Gurgel representou uma ideia: a de que o Brasil pode criar, inovar e liderar. Seu fracasso não foi apenas empresarial, mas também institucional.

Em tempos de retomada do debate sobre indústria nacional, sustentabilidade e carros elétricos, a história da Gurgel soa atual — e necessária. Um lembrete de que visionários precisam de mais do que talento: precisam de um ecossistema que permita seus sonhos saírem do papel e permanecerem de pé.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Banco Nacional no Parque da Mônica: quando brincar era coisa séria

Uma agência de brincadeira que ensinou educação financeira, cidadania e o valor do trabalho a milhares de crianças brasileiras.


Um banco de verdade em um mundo de fantasia

Durante os anos 1980 e 1990, o Parque da Mônica, instalado no Shopping Eldorado, em São Paulo, foi muito mais do que um espaço de diversão. Entre montanhas-russas, personagens icônicos de Maurício de Sousa e cenários coloridos, havia uma atração curiosa e surpreendente: uma agência do Banco Nacional feita especialmente para crianças.

Não se tratava apenas de um cenário decorativo. A proposta era ousada para a época: oferecer aos pequenos visitantes a experiência de viver, ainda que por alguns minutos, o cotidiano de um adulto. Entrar em um banco, abrir conta, receber salário simbólico, aprender a poupar e entender como o dinheiro circula na sociedade.

A agência reproduzia com fidelidade uma unidade bancária real. Havia balcões de atendimento, caixas, formulários, carimbos, talões fictícios e até uniformes para os “funcionários mirins”. Tudo era adaptado à linguagem infantil, mas sem perder o compromisso educativo.

Educação financeira antes do termo existir

Muito antes de o conceito de educação financeira infantil ganhar espaço nas escolas e nos debates públicos, o Banco Nacional já colocava o tema em prática de forma lúdica. As crianças recebiam uma quantia simbólica de dinheiro do parque e aprendiam a administrar aquele valor: podiam guardar, gastar em outras atrações ou trocar por brindes.

O aprendizado vinha de forma natural. Ao brincar de banco, a criança assimilava noções básicas como planejamento, responsabilidade, escolha e consequência. Era um contato inicial com o universo financeiro, sem números complexos ou pressões, mas com significado real.

Para os pais, a atração também tinha um valor simbólico importante: mostrava que brincar podia ir além do entretenimento puro, ajudando na formação de cidadãos mais conscientes desde cedo.

Uma estratégia de marca visionária

Para o Banco Nacional, a iniciativa era uma ação de marketing institucional sofisticada e pioneira. Ao se associar a um dos parques infantis mais famosos do país, o banco se aproximava das famílias de forma afetiva, criando uma memória positiva que atravessaria gerações.

A marca deixava de ser apenas um nome visto em comerciais de televisão ou fachadas de agências e passava a fazer parte do imaginário infantil. Muitas crianças que brincaram naquela agência cresceram com a lembrança do banco ligada à diversão, à descoberta e ao aprendizado.

Era uma época em que experiências de marca imersivas ainda eram raras. O Banco Nacional entendeu, antes de muitos, que criar vínculo emocional podia ser tão poderoso quanto qualquer campanha publicitária tradicional.

O fim do banco, a permanência da lembrança

Com a crise financeira dos anos 1990 e a posterior liquidação do Banco Nacional, a agência infantil deixou de existir. O próprio Parque da Mônica, anos depois, também encerraria suas atividades no Shopping Eldorado, tornando aquela experiência ainda mais nostálgica.

Hoje, a lembrança da agência do Banco Nacional no Parque da Mônica sobrevive na memória afetiva de quem viveu aquela fase. É um exemplo de como marcas, quando bem pensadas, conseguem ultrapassar sua função econômica e ocupar um espaço cultural e emocional.

Mais do que uma brincadeira, aquela pequena agência foi uma aula silenciosa sobre o mundo adulto — e uma prova de que ensinar pode ser, sim, um ato divertido.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Itaipu: a “maior fábrica de gelo do mundo”

O truque engenhoso que manteve de pé uma das maiores obras da história

Durante a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma curiosidade técnica chamou atenção até mesmo de engenheiros experientes: o canteiro de obras era conhecido como “a maior fábrica de gelo do mundo”. O apelido não era exagero nem brincadeira. Toneladas de gelo triturado eram diariamente misturadas ao concreto — um detalhe essencial para que a maior hidrelétrica do planeta pudesse existir.

A estratégia parecia improvável para uma obra localizada em uma região de clima quente, na fronteira entre Brasil e Paraguai, mas foi justamente esse método que permitiu controlar uma das maiores ameaças ao projeto: o calor gerado pelo concreto em grandes volumes.

O desafio invisível do concreto

Ao contrário do que parece, o concreto não é um material “frio”. Durante o processo de cura, ocorre uma reação química chamada hidratação do cimento, que libera grandes quantidades de calor. Em pequenas obras, isso não representa um problema. Em Itaipu, porém, a escala era colossal.

A barragem exigiu cerca de 12,3 milhões de metros cúbicos de concreto — volume suficiente para construir dezenas de cidades médias. Se esse concreto fosse despejado de uma só vez ou em grandes blocos sem controle térmico, o calor interno gerado provocaria rachaduras, tensões estruturais e perda de resistência, comprometendo a segurança da barragem.

O risco era tão grande que, sem uma solução eficaz de resfriamento, a estrutura poderia levar mais de um século para esfriar naturalmente.

Gelo no lugar da água

A solução encontrada foi tão simples quanto engenhosa: substituir parte da água usada no preparo do concreto por gelo triturado. Ao derreter, o gelo absorvia o calor da reação química, reduzindo drasticamente a temperatura do material ainda fresco.
Para viabilizar a técnica, Itaipu montou uma estrutura industrial inédita, capaz de produzir dezenas de toneladas de gelo por hora. O gelo era fabricado, triturado e imediatamente levado às centrais de concreto, onde era misturado aos demais componentes antes do lançamento.

O apelido “maior fábrica de gelo do mundo” surgiu naturalmente entre os operários e engenheiros que presenciavam caminhões carregados de gelo circulando em plena região tropical.

Concreto em camadas e resfriamento contínuo

O uso do gelo era apenas parte de um sistema ainda mais sofisticado. O concreto de Itaipu foi aplicado em blocos sucessivos, chamados de liftings, com alturas cuidadosamente calculadas. Após o lançamento, tubos internos de resfriamento conduziam água fria por dentro do concreto, acelerando a dissipação do calor.

Essa combinação — gelo no preparo e resfriamento interno posterior — permitiu manter a temperatura dentro de limites seguros, evitando fissuras e garantindo a durabilidade da estrutura.

Cada etapa era monitorada por sensores térmicos, em um nível de controle considerado revolucionário para a engenharia civil da época.

Uma obra além do seu tempo

Iniciada em 1975 e concluída em 1984, a construção de Itaipu mobilizou cerca de 40 mil trabalhadores no auge das obras. O projeto envolveu soluções inéditas, equipamentos desenvolvidos exclusivamente para a usina e decisões técnicas que se tornaram referência mundial.

O uso de gelo em larga escala passou a ser estudado e replicado em outras grandes barragens e estruturas de concreto maciço ao redor do mundo, consolidando Itaipu como um verdadeiro laboratório de inovação em engenharia.

O frio que sustenta a força das águas

Hoje, décadas depois de sua inauguração, Itaipu segue como uma das maiores produtoras de energia hidrelétrica do planeta — silenciosa, imponente e estável. Poucos visitantes imaginam que, por trás de milhões de toneladas de concreto, há uma história feita de gelo, cálculo e precisão.

A chamada “maior fábrica de gelo do mundo” talvez nunca tenha produzido um único cubo para refrescar bebidas. Mas foi esse gelo invisível que garantiu a solidez de uma obra monumental, provando que, na engenharia, até o frio pode ser sinônimo de potência.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Morre Scott Adams, criador de Dilbert, aos 68 anos

O cartunista que transformou o mundo corporativo em humor ácido deixa legado marcante — e controverso

O cartunista norte-americano Scott Adams, criador da icônica tirinha Dilbert, morreu aos 68 anos, em janeiro de 2026, nos Estados Unidos. A morte ocorreu após uma longa batalha contra um câncer de próstata em estágio avançado, diagnóstico que ele próprio havia tornado público meses antes. A notícia encerra a trajetória de um dos autores mais influentes — e também mais debatidos — da história recente dos quadrinhos.

Adams ficou mundialmente conhecido por retratar, com ironia cirúrgica, o cotidiano das grandes empresas, a burocracia sem sentido, os chefes despreparados e a alienação dos funcionários presos a cubículos. Seu humor, aparentemente simples, tocou em nervos sensíveis de uma geração inteira que se reconheceu nas situações absurdas do ambiente corporativo moderno.

Do escritório real ao cubículo fictício

Nascido em 8 de junho de 1957, em Windham, no estado de Nova York, Scott Adams viveu por anos aquilo que mais tarde transformaria em sátira. Formado em economia e com MBA, trabalhou em empresas do setor bancário e de tecnologia antes de apostar na carreira artística.

Em 1989, surgiu Dilbert. A tira começou de forma modesta, mas rapidamente ganhou espaço em jornais norte-americanos. O sucesso foi explosivo nos anos 1990, quando o crescimento das grandes corporações e da cultura dos escritórios criou o terreno perfeito para o humor de Adams florescer.

No auge, Dilbert era publicada em mais de 2 mil jornais, em dezenas de países, tornando-se uma das tirinhas mais populares do planeta. Personagens como o engenheiro socialmente deslocado Dilbert, o sarcástico cão Dogbert e o infame “chefe de cabelo pontudo” entraram para o imaginário coletivo.

Humor inteligente, crítica afiada

O diferencial de Dilbert estava na combinação entre humor visual simples e crítica sofisticada. Adams expunha decisões corporativas ilógicas, reuniões improdutivas, jargões vazios e gestores incompetentes com uma precisão que beirava o desconforto.

A tirinha virou leitura obrigatória em escritórios, salas de descanso e até em escolas de administração. O sucesso levou Adams a publicar livros best-sellers, como “The Dilbert Principle”, no qual defendia que empresas tendem a promover pessoas incompetentes para cargos de gestão, afastando-as do trabalho produtivo.

Mais do que entretenimento, Dilbert virou um espelho do mundo corporativo — e, para muitos, um manual informal de sobrevivência profissional.

Polêmicas e ruptura com a grande imprensa

Se a primeira metade da carreira foi marcada pelo sucesso quase unânime, os anos finais trouxeram um cenário bem diferente. A partir da década de 2010, Scott Adams passou a se posicionar com frequência sobre política e temas sociais em redes sociais e transmissões ao vivo.

Em 2023, comentários considerados racistas durante uma live provocaram forte reação pública. Como consequência, grandes jornais dos Estados Unidos e da Europa romperam contratos e deixaram de publicar Dilbert, encerrando décadas de presença contínua da tira na mídia tradicional.

Adams passou então a distribuir seu conteúdo de forma independente, em plataformas digitais, mantendo uma base fiel de seguidores — ao mesmo tempo em que se tornava figura recorrente em debates sobre liberdade de expressão, cancelamento e polarização cultural.

A luta contra o câncer e a despedida

Em 2025, o cartunista revelou estar enfrentando um câncer agressivo, já em metástase. Nos meses seguintes, falou abertamente sobre a progressão da doença, limitações físicas e reflexões sobre a vida, a morte e o legado.

A morte ocorreu em sua casa, de forma tranquila, segundo familiares. Em uma mensagem deixada pouco antes de partir, Adams afirmou ter tido “uma vida extraordinária”, agradecendo aos leitores que acompanharam seu trabalho ao longo de décadas.

Um legado que permanece

Scott Adams deixa uma obra impossível de ser ignorada. Para além das controvérsias, Dilbert segue como uma das mais bem-sucedidas sátiras já criadas sobre o mundo do trabalho. Seu humor influenciou gerações de cartunistas, roteiristas e comediantes, além de moldar a forma como milhões de pessoas passaram a enxergar o universo corporativo.

Amado por uns, criticado por outros, Adams foi um retratista implacável das contradições humanas dentro das empresas — e, nos últimos anos, também fora delas. Sua morte marca o fim de uma era, mas suas tiras continuam atuais, circulando em livros, arquivos digitais e na memória coletiva de quem já sobreviveu a uma reunião inútil.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Ignorado no primeiro pódio

O dia em que Ayrton Senna subiu ao pódio sem aplausos — e começou a construir a própria lenda

Quando Ayrton Senna subiu ao pódio pela primeira vez na Fórmula 1, em 1984, não houve festa, nem comoção, nem sequer a reverência que normalmente acompanha a chegada de um novo talento. O jovem brasileiro, então com apenas 24 anos, parecia quase invisível em meio aos holofotes direcionados a nomes já consagrados. Era o início de uma trajetória que provaria, de forma contundente, que nem todo gênio é reconhecido de imediato.

O episódio ocorreu no Grande Prêmio da Inglaterra, em Brands Hatch. Pilotando uma modesta Toleman, equipe pequena e sem tradição na categoria, Senna conquistou um terceiro lugar improvável. Para qualquer estreante, o resultado seria motivo de celebração coletiva. Mas, naquele dia, o pódio foi frio. A imprensa se concentrou nos vencedores, os aplausos foram tímidos e o brasileiro parecia apenas mais um figurante na fotografia oficial.

Um talento fora do roteiro

A Fórmula 1 sempre teve seus favoritos. Pilotos oriundos de equipes grandes, respaldados por títulos, patrocínios e tradição, costumam monopolizar a atenção. Ayrton Senna não se encaixava nesse roteiro. Vinha do kart, tinha fama de obsessivo, falava pouco e corria por uma equipe considerada de “meio de grid”. Seu pódio soava, para muitos, como um acidente estatístico — não como o prenúncio de algo grandioso.

Enquanto Nelson Piquet, Alain Prost e Niki Lauda dominavam manchetes, Senna era visto com desconfiança. O terceiro lugar em Brands Hatch não rendeu elogios efusivos nem manchetes de impacto. O jovem brasileiro recebeu o troféu com discrição, consciente de que aquele momento, embora histórico para ele, não mudaria instantaneamente sua posição no esporte.

A solidão do começo

A falta de reconhecimento não abalou Senna. Pelo contrário. Ele entendia que o respeito na Fórmula 1 não se pedia — se conquistava. Em entrevistas posteriores, o piloto deixaria claro que nunca correu para agradar aplausos, mas para vencer. A frieza daquele primeiro pódio serviu como combustível para sua determinação quase implacável.

Dentro do cockpit, Senna já demonstrava algo raro: uma combinação de talento bruto, coragem extrema e um nível de concentração que impressionava engenheiros e rivais. Fora dele, permanecia reservado, quase introspectivo, como quem sabia que o tempo se encarregaria de falar por si.

O reconhecimento que viria

Meses depois, no mesmo ano, Ayrton Senna protagonizaria uma das atuações mais icônicas da história da Fórmula 1, sob chuva torrencial em Mônaco. Mesmo com a corrida interrompida, sua performance mudou definitivamente a percepção sobre seu talento. Aquele piloto ignorado no primeiro pódio já não podia mais ser tratado como coadjuvante.

O aplauso que faltou no início viria em forma de vitórias, poles memoráveis e três títulos mundiais. Senna transformou o silêncio inicial em uma das carreiras mais admiradas do automobilismo, provando que o reconhecimento verdadeiro não nasce do barulho imediato, mas da consistência e da excelência.

Nem todos aplaudem o começo

A história do primeiro pódio de Ayrton Senna é um lembrete poderoso: nem sempre o talento é celebrado quando surge. Muitas vezes, ele é ignorado, subestimado ou tratado com indiferença. O que define os grandes não é a reação inicial do mundo, mas a capacidade de seguir em frente apesar dela.

Naquele pódio quase esquecido de 1984, o público não percebeu, mas estava diante de um futuro tricampeão mundial. Nem todos aplaudem no início — e Senna nunca precisou desses aplausos para se tornar eterno.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O pedido que atravessou o Planalto

Em 1983, uma carta de uma jovem adolescente expôs o drama social do Brasil e chegou às mãos do presidente João Figueiredo

Em meio aos corredores austeros do Palácio do Planalto, em Brasília, uma correspondência destoava do tom burocrático que costumava circular entre ministros e assessores. Escrita à mão, com grafia simples e palavras carregadas de urgência, a carta trazia o apelo de uma jovem adolescente brasileira. Era 1983, um dos anos mais duros do fim da ditadura militar, marcado por crise econômica, desemprego crescente e uma inflação que corroía salários e esperanças. A menina, desesperada, pedia ajuda diretamente ao presidente da República, João Baptista Figueiredo.

O gesto, ao mesmo tempo ingênuo e corajoso, sintetizava o sentimento de abandono vivido por milhões de brasileiros naquele período. Sem acesso a canais institucionais eficazes, a adolescente acreditou que apenas o homem no comando do país poderia socorrê-la — e à sua família — da situação extrema em que se encontravam.

Um país à beira do esgotamento

O Brasil de 1983 enfrentava uma tempestade perfeita. A crise da dívida externa, os reflexos dos choques do petróleo e anos de crescimento sustentado por endividamento levaram o país a um cenário de recessão. A inflação ultrapassava os três dígitos ao ano, o desemprego avançava e a desigualdade social tornava-se ainda mais visível. Para as famílias mais pobres, a luta era diária: faltava comida, faltavam remédios, faltava perspectiva.

Foi nesse contexto que a carta ganhou significado simbólico. A adolescente relatava dificuldades básicas — a fome em casa, a falta de trabalho para os pais, o medo constante do amanhã. Não havia termos políticos elaborados nem discursos ideológicos. Havia, sobretudo, um pedido humano: “nos ajude”.

O impacto no Planalto

Segundo relatos da época, a correspondência chegou a ser comentada nos bastidores do governo. João Figueiredo, último presidente do ciclo militar, era conhecido por um temperamento duro, mas também por gestos pontuais de sensibilidade diante de dramas individuais. Ainda que o regime estivesse em seus estertores, pressionado por greves, pela campanha das Diretas Já e por uma sociedade civil cada vez mais mobilizada, episódios como esse evidenciavam a distância entre o poder e a realidade das ruas.

Não se sabe ao certo até que ponto o pedido da jovem resultou em ajuda concreta ou se foi diluído na engrenagem estatal. O que ficou foi o registro de uma atitude que comoveu parte da opinião pública quando veio à tona: uma adolescente que, sem outra alternativa, decidiu falar diretamente com o presidente.

Um retrato da época

Mais do que uma história individual, o episódio tornou-se um retrato do Brasil naquele momento de transição. A carta simbolizava um país que começava a perder o medo de se expressar, mesmo ainda sob um regime autoritário. Ao escrever ao presidente, a jovem exercia, à sua maneira, um ato de cidadania — ainda que movido pelo desespero.

O ano seguinte, 1984, seria marcado por manifestações históricas em todo o país, com milhões de brasileiros indo às ruas exigir eleições diretas. A voz daquela adolescente, solitária em sua carta, antecipava o coro coletivo que logo se formaria.

A força de uma voz simples

Quatro décadas depois, a história segue lembrada como um exemplo poderoso de como a realidade social brasileira sempre encontrou maneiras de se fazer ouvir. Em poucas linhas, escritas por uma jovem sem poder político algum, estavam condensadas as falhas estruturais de um país desigual e em crise.

A carta enviada a João Figueiredo em 1983 não mudou, sozinha, o rumo da história. Mas permanece como um símbolo incômodo e necessário: o de que, mesmo nos gabinetes mais fechados do poder, às vezes ecoa o grito mais puro da sociedade — o de quem só quer sobreviver.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os carros que fizeram parte da garagem de Ayrton Senna

Muito além das pistas, o tricampeão mundial cultivou uma relação intensa com carros de rua — escolhidos não apenas pela performance, mas pela engenharia, inovação e prazer ao volante.

Paixão por engenharia e precisão

Ayrton Senna da Silva é lembrado como um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, mas sua paixão por automóveis não terminava quando o capacete era guardado. Fora das pistas, Senna mantinha uma garagem que refletia sua personalidade: exigente, técnica e avessa a excessos. Diferentemente de outros astros do automobilismo, ele não colecionava carros por ostentação, mas por admiração à engenharia e ao comportamento dinâmico.

Entre os modelos que marcaram sua vida, a Honda NSX ocupa lugar central. Desenvolvido no fim dos anos 1980, o superesportivo japonês contou com a participação direta de Senna em sua fase final de ajustes. Insatisfeito com a rigidez do chassi, ele solicitou modificações após testar o carro em Suzuka. O resultado foi um veículo mais equilibrado, que redefiniu o conceito de supercarros ao unir desempenho extremo e confiabilidade. Senna teve ao menos duas unidades do NSX, uma delas na clássica cor vermelha.

Outro carro fortemente associado ao piloto é o Honda Prelude. Discreto, confortável e tecnológico para a época, o modelo era usado por Senna em deslocamentos cotidianos no Brasil. O Prelude representava bem o lado racional do tricampeão: um carro eficiente, confiável e sem exageros, mas com bom desempenho e dirigibilidade refinada.

Ainda no universo Honda, Senna também teve exemplares do Honda Accord, especialmente durante sua permanência na Europa. Eram veículos funcionais, alinhados à imagem de um piloto que valorizava mecânica, durabilidade e eficiência acima do luxo ostensivo.
Apesar da forte ligação com a Honda, Senna também teve carros de outras marcas icônicas. Entre eles, um Mercedes-Benz 190E 2.3-16, esportivo alemão desenvolvido com participação da Cosworth. O modelo era conhecido pelo equilíbrio entre conforto e performance, características que agradavam profundamente ao piloto brasileiro.

Superesportivos, elegância e escolhas pessoais

Na fase em que defendia a McLaren, Ayrton Senna teve contato direto com alguns dos mais desejados carros do mundo, e isso se refletiu em sua garagem. Um dos mais emblemáticos foi o McLaren MP4/6 adaptado para testes, embora não fosse um carro de rua convencional. Ainda assim, reforça o quanto Senna estava sempre envolvido tecnicamente com máquinas de alta performance.

No universo dos esportivos de rua, Senna também teve um Porsche 911, símbolo máximo da engenharia alemã. O modelo era admirado pelo piloto pela precisão mecânica e pelo comportamento exigente, que “punia erros”, algo que Senna respeitava e valorizava como instrumento de aprendizado constante.

Outro nome frequentemente citado é o Ferrari 348 TB, que teria passado por sua garagem no início dos anos 1990. Apesar de nunca ter mantido uma relação próxima com a marca italiana, Senna admirava o DNA esportivo da Ferrari e não escondia sua curiosidade por modelos que representavam o ápice da performance automotiva da época.

Já no Brasil, além dos Honda, Senna também teve carros mais discretos, usados em sua rotina longe dos autódromos. Ele evitava chamar atenção e, sempre que possível, optava por veículos confortáveis e seguros. A escolha dos carros refletia seu estilo de vida reservado, focado no treinamento físico, na fé e na preparação mental.

A garagem de Ayrton Senna, assim como sua carreira, nunca foi guiada por vaidade. Cada carro representava uma extensão de sua busca pela perfeição técnica. Não se tratava de colecionismo, mas de conexão: máquinas que respondiam com precisão ao comando do motorista, exigindo respeito, concentração e sensibilidade.
Trinta anos após sua morte, os carros que fizeram parte da vida de Senna ajudam a compreender o homem por trás do mito. Um piloto que não se impressionava apenas pela velocidade, mas pela harmonia entre homem e máquina — dentro ou fora das pistas.